Zendikar Rising

Coletânea de Histórias em Português

Sumário

02/09/2020 | Por A. T. Greenblatt

Episódio 1: No Coração do Casulo do Céu

Nahiri estudava o Casulo do Céu que se erguia à sua frente, onde flutuava vasto, imponente e arruinado. Ela lembrava de quando era belo.

Ela estava em um dos precipícios impossíveis de Akoum, uma projeção de rocha estendida como um dedo longo que desafiava a gravidade. Um campo de lava espalhava-se diante de seus pés, e o ar quente carregava o cheiro de metal derretido. Antigas fortalezas kor como esta haviam começado a aparecer por toda Zendikar após a guerra com os Eldrazi. Subitamente, essas estruturas grandiosas e desmoronadas estavam se revelando após estarem perdidas por séculos. Conforme elas se erguiam, também o faziam os segredos que carregavam em seu interior.

Montanha | Arte de: Chase Stone

Nahiri sorriu. Com esses segredos, ela ia mudar o mundo.

"Eu me lembro de você", ela disse ao Casulo do Céu flutuando à sua frente, "e de todo o seu poder."

Agora era apenas uma questão simples de alcançar as ruínas. Nahiri ergueu os braços, ansiosa para começar a moldar a pedra, ansiosa para subir.

Mas ela estava focada demais em olhar para cima, olhando para frente. Não notou o que estava acontecendo abaixo. Tinha pensado tolamente que derrotar os Eldrazi tinha retardado o caos de Zendikar.

Então ela não viu o Turbilhão começar.

Começou como bolhas no campo de lava. Como um monstro despertando, começou silenciosamente e rapidamente tornou-se inegável. O que primeiro foi um murmúrio tornou-se um rugido ensurdecedor conforme o Turbilhão sacudia a terra, subindo pelas esbeltas bordas de pedra, prechendo o ar com calor bruto e cinzas tão espessas que faziam Nahiri perder o fôlego. Ouviu-se um estalo de abalar a terra e, subitamente, a borda rochosa sob seus pés desmoronou.

Ela caiu.

"Não", ela siseou enquanto despencava. "NÃO!" Ela era a mestre da litomancia, a guardiã deste plano, e não seria derrotada por um simples terremoto. Com um movimento suave, Nahiri girou no ar e estendeu os braços, invocando a pedra que era uma extensão de si mesma.

E a pedra respondeu. Sua queda livre desacelerou até parar no ar, até ela estar flutuando. Ela pegou o redemoinho caótico de magma e rochas abaixo dela e dobrou os elementos à sua vontade. A vontade dela — não a do Turbilhão. Ela reuniu aquele poder, aquela energia bruta ao seu redor, e a usou para criar. Ela girou fluxos de lava, rochas soltas e hedros tortos com sua litomancia, movendo-se como uma dançarina. Com alguns estalos de seus pulsos, um pilar começou a se curvar para cima. Nahiri pairou acima dele, viajando para o alto com o pilar conforme ele disparava para o ar, crescendo mais e mais até que o Turbilhão parou bruscamente.

Só então Nahiri pousou no topo de sua criação, ainda mais perto agora do Casulo do Céu. Ela sorriu presunçosamente para o solo traiçoeiro abaixo dela.

"Eu venci", ela disse e tentou se sentir satisfeita com a vitória. Mas era uma vitória amarga. O Turbilhão era um sintoma de uma doença profunda em Zendikar. Uma doença que Nahiri tinha inadvertidamente ajudado a espalhar.

E ultimamente, a culpa de seus fracassos a assombrava.

A pedra sempre lhe dizia quando outro planeswalker estava por perto. Mas Nahiri não se virou quando sentiu a pedra zumbir seu aviso. Havia alguém atrás dela neste pilar no céu.

"Akoum ainda é tão bela~e imprevisível como sempre", disse Nissa, aproximando-se de Nahiri, cajado na mão, e espiando para baixo no campo de lava.

"Nada com que eu não consiga lidar", respondeu Nahiri. Ela não sabia se isso era verdade, mas não ia admitir.

"Não é isso. Eu~este lugar~" Nissa gaguejou. Nahiri ergueu uma sobrancelha conforme a diminuta elfa lutava para encontrar palavras. Nissa respirou fundo e disse: "O que quero dizer é que cresci com o Turbilhão. Não é algo que se possa domar."

"Você não me conhece, então", disse Nahiri, com uma pontada de raiva.

Nissa ergueu uma mão apaziguadora. "Não tive a intenção de ofender. Eu te vi durante a batalha com Nicol Bolas. Como você comanda a pedra. Você foi incrível."

"Você estava lá?" Nahiri perguntou, descontraindo-se um pouco com o elogio. "Ah, sim, a árvore. Eu me lembro." Nissa corou de vergonha. Aquele encontro não terminou bem para a árvore ancestral de Ravnica.

Nahiri redirecionou seu olhar para cima, em direção ao Casulo do Céu. "Existem algumas batalhas que prefiro nunca mais lutar."

"Sim", disse Nissa, "e algumas batalhas que ainda precisam ser lutadas." Ela estudava calmamente Akoum estendida à frente deles, vasta e tumultuada, mas sua voz estava carregada de emoção. "Por que você me pediu para vir aqui, Nahiri?"

"Quando eu era jovem, esta terra era pacífica. Não havia nada disso", Nahiri gesticulou para o solo, torcendo o nariz em desgosto. Lá embaixo, havia bolhas subindo da lava novamente, anunciando outro terremoto do Turbilhão. "Os Eldrazi causaram um dano indescritível a este plano."

A culpa inchou em Nahiri novamente. Ela nunca deveria ter ouvido Ugin e Sorin. Deveria ter encontrado um plano diferente para aprisionar os Eldrazi milênios atrás.

"Sim", disse Nissa. "Consigo sentir a dor de Zendikar. Isso me assombra." Ela olhava fixamente para algo ao longe, mas seu rosto estava cheio de luto.

"Talvez eu tenha uma solução", Nahiri respondeu, inclinando a cabeça em direção ao Casulo do Céu. "Algo que vai curar Zendikar."

Nissa piscou. "Você tem?" ela soltou surpresa, e então desajeitadamente adicionou: "Desculpe, quero dizer, você não é exatamente conhecida por curar. Depois do que você fez em Innistrad~"

Nahiri ergueu uma sobrancelha. "Diz a pessoa que libertou os Eldrazi."

"Eu não—"

A elfa gaguejou, mas Nahiri ergueu a mão.

"Nós duas fizemos coisas que causaram grandes danos. Vamos tentar desfazer um pouco disso."

Nissa corou e assentiu. "Por que agora? Digo, você é velha o suficiente~"

Para lembrar de quando este Casulo do Céu foi construído, Nahiri pensou.

Nahiri hesitou. "Não importa o quanto eu tenha viajado", ela respondeu, finalmente, "ou o quanto eu tenha vivido, este lugar sempre pareceu~parece~"

"Como um lar", disse Nissa, baixinho.

O lábio de Nahiri curvou-se para cima. "Exatamente." Ela apontou para o Casulo do Céu à frente deles. "Nossas respostas estão lá em cima." Ela sorriu travessa. "Vamos apostar corrida até o topo? O melhor Zendikari vence."

Nissa não respondeu. Ela apenas abriu um sorriso astuto, estendeu as mãos e disparou vinhas longas e grossas para o alto. Os arbustos fluíram em direção ao Casulo do Céu, quase rápido demais para o olho ver.

Mas não mais rápido que Nahiri.

Em um borrão de movimento, ela usou sua litomancia para criar uma escadaria, e então estava correndo quase tão rápido quanto moldava, sorrindo loucamente. Ela olhou para trás e viu Nissa lutando para manter o ritmo, ficando lentamente para trás, e riu. Plantas não eram páreo neste lugar de pedra.

Nahiri não cometia muitos erros, e raramente os repetia. Os benefícios de milênios de experiência. Mas o Turbilhão, o maldito Turbilhão~

O chão começou a tremer novamente, e as vibrações cresceram mais altas e fortes até que a escadaria de Nahiri rachou sob seus pés. Ela correu mais rápido, mas não foi rápida o suficiente. Os degraus desmoronaram e subitamente, Nahiri estava caindo novamente.

Ela estendeu a mão para a pedra, preparando-se para conter o Turbilhão novamente, quando algo a pegou pelo torso, parando sua queda.

"Peguei você", Nissa murmurou. Sua mão estava estendida e a outra estava fechada firme em seu cajado. Nahiri olhou para baixo e viu que fora salva por uma vinha.

Silenciosamente, ela fervilhava enquanto a vinha de Nissa a erguia e a colocava gentilmente em uma escada improvisada de arbustos.

"Obrigada", disse ela, sem encontrar o olhar de Nissa.

"Vamos tentar de novo?" Nissa perguntou, nervosa, olhando para as próprias mãos. "O melhor Zendikari vence?"

"Não, vamos apenas ir", Nahiri disse, com raiva infiltrando-se em sua voz.

Elas subiram em silêncio com Nahiri engolindo sua culpa crescente a cada passo.

Tinha negligenciado seu lar por tempo demais.

Nissa dos Ramos Sombrios | Arte de: Yongjae Choi

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A primeira coisa que Nissa pensou quando finalmente alcançaram o Casulo do Céu: uau. Mesmo quebrado, negligenciado e escondido por séculos, ainda havia uma beleza de tirar o fôlego na fortaleza flutuante. Ao redor dela, havia pilares altos e arcos, tetos parciais com padrões intrincadamente entalhados, pisos elaboradamente ladrilhados que formavam mosaicos de imagens. Claro, havia rochas flutuantes, pedras rachadas e edifícios em ruínas, mas estava claro para Nissa que este lugar fora outrora um farol de civilização.

A segunda coisa que Nissa pensou: vai levar anos para encontrar qualquer coisa aqui. Agora que tinham chegado, ela percebeu o quão grande era o Casulo do Céu. Embora estivessem paradas em um tipo de pátio antigo, Nissa podia ver uma dúzia de diferentes arcos e entradas levando para o ventre da fortaleza.

"Milhares de pessoas devem ter vivido aqui", disse Nissa.

"Dezenas de milhares", Nahiri disse, aproximando-se dela.

Nissa hesitou, preocupada que a pergunta que queria fazer irritasse Nahiri, que estilhaçasse qualquer chance de forjar um vínculo com esta kor ancestral e autoconfiante. Não que Nissa fosse particularmente boa em criar conexões. Parecia que quanto mais ela tentava se aproximar de alguém, maior a bagunça que fazia. Ela desejava ser mais como Gideon com sua calma confiança e charme constante.

Bem, o que o Gideon faria? ela pensou. Comece a agir como ele se quiser ser mais como—.

Como ele era. E subitamente, o luto da morte dele a atingiu em uma nova onda.

Gideon não hesitaria.

Então, Nissa respirou fundo e perguntou: "Nahiri, como vamos encontrar o que precisamos em um lugar tão vasto?"

Os lábios de Nahiri curvaram-se em diversão. "Começamos a procurar." Ela começou a caminhar à frente, pulando agilmente os lugares onde o chão estava rachado ou havia simplesmente um buraco para o céu.

"E o que exatamente estamos procurando?" Nissa perguntou, apressando-se para alcançá-la.

Nahiri hesitou. "Saberei quando vir."

O coração de Nissa afundou. "Você não sabe?"

Nahiri abriu a boca para responder, mas o maldito Turbilhão não seria silenciado.

Mais uma vez, ondas de perturbação sacudiram o Casulo do Céu. Nissa recuou rápido enquanto as pedras ancestrais ao seu redor começavam a se mover e rachar. Ela estendeu seu cajado, pronta para criar uma rede de segurança de vinhas.

Mas Nahiri foi mais rápida.

Ela abriu as mãos e manteve a fortaleza unida com o que parecia ser pura força de vontade, embora Nissa soubesse que a litomancia ajudava.

Quando o estrondo parou, Nahiri franziu a testa como se o Turbilhão fosse um ataque pessoal.

"Não sei exatamente o que buscamos", disse ela, caminhando à frente, a raiva marcando sua voz. "Os antigos kor não eram exatamente descritivos em seus textos"—ela parou subitamente no meio de um vasto mosaico no centro do pátio. Ela se agachou e colocou uma mão contra o chão. "As pedras saberão mais." Nahiri fechou os olhos, e Nissa esperou, sem saber o que fazer. De onde estava, não conseguia dizer o que o mural de ladrilhos deveria ser.

Jace saberia, ela pensou, mas então rapidamente afastou o pensamento. Não queria pensar no Jace ou na batalha com Nicol Bolas e seu preço em Ravnica ou no estado despedaçado das Sentinelas ou na morte do Gideon ou na Chandra.

Especialmente não na Chandra.

Após um minuto, Nahiri abriu os olhos e levantou-se. "Todas as melhores coisas estão escondidas no coração", Nahiri disse com um sorriso presunçoso. Ela apontou para um arco particularmente escuro e proibitivo. "Aquele parece um lugar promissor para começar. Vamos."

"Como saberemos se estamos no caminho certo?" Agora que Nahiri se afastara do centro, Nissa conseguia ver que o mosaico retratava um sol, com raios brilhando do centro. Ou algo como um sol.

Nahiri já estava bem à frente, mas gritou de volta: "Quando algo tentar nos impedir de passar."

Nissa parou, o coração batendo com um pânico inesperado. Subitamente, esta expedição parecia uma ideia terrível. E se suas tentativas de ajudar Nahiri só acabassem ferindo Zendikar novamente? Como tantos de seus erros no passado. Mais uma vez, ela estava seguindo a liderança de outra pessoa. Quando é que isso ia mudar?

O que o Gideon faria?

"Ele ajudaria como pudesse", Nissa sussurrou para si mesma, "mas não seguiria Nahiri cegamente."

Zendikar era o seu lar. Não Ravnica ou qualquer outro plano. Ela pertencia aqui e era a voz da sua alma. Tinha a responsabilidade de cuidar dela e de todas as coisas vivas neste mundo.

Então, Nissa respirou fundo para se acalmar, apertou o aperto em seu cajado e a seguiu.

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Pelo lado de fora, o antigo Casulo do Céu parecia plano e largo, como um arquipélago de pedra flutuando no ar. Pelo lado de dentro, parecia que era iminente e sem fundo. Nahiri mantinha uma mão na parede conforme a passagem descia e descia, às vezes tornando-se degraus, às vezes revelando outras passagens com mistérios indizíveis.

Mas Nahiri não caiu na isca do Casulo do Céu. As pedras sob sua mão sussurravam de um grande poder abaixo, e Nahiri ia ser aquela que o encontraria e o reivindicaria. Atrás dela, Nissa movia-se quase silenciosamente, como a filha da floresta que era. Ocasionalmente, seu cajado estalava contra uma pedra ou ela arquejava baixinho quando uma luz perdida encontrava caminho através de uma rachadura e iluminava o que as cercava.

Elas continuaram descendo até chegarem aos principais salões de reunião dos antigos kor, onde eles se reuniriam aos milhares e exibiriam sua riqueza e arte. E os salões refletiam isso. Literalmente. Quando os ladrilhos pegavam a luz do sol que entrava furtivamente, brilhavam como joias raras. Os tetos eram de tirar o fôlego de tão altos, e os entalhes nos pilares eram intrincados e detalhados.

Sim, era belo, Nahiri admitiu para si mesma. Mas era também um lembrete doloroso de tudo o que este plano perdera. Especialmente conforme o Turbilhão mantinha a antiga fortaleza tremendo enquanto elas viajavam em seu ventre; um lembrete constante e importuno de que Nahiri, a guardiã de Zendikar, falhara em proteger o seu lar.

Então, Nahiri não olhou muito de perto para os grandes salões ou os belos entalhes. Ela apenas continuou se movendo para frente, sempre olhando para frente.

A passagem parou abruptamente diante de um par de portas enormes, porém colapsadas.

"Parece um beco sem saída", Nissa disse, aproximando-se e colocando uma mão na porta.

"Talvez para você", Nahiri respondeu e alargou sua postura. "Fique para trás."

Com um movimento poderoso, Nahiri uniu as mãos com um aplauso, e as portas massivas voaram separando-se, estrondando conforme batiam contra as paredes de pedra à direita e esquerda delas.

"Vamos", Nahiri disse e caminhou em direção ao limiar. O nervosismo a picava, e sussurros alarmados a seguiam das pedras. Além, havia uma escuridão profunda, cheia do desconhecido.

Mas Nahiri não seria parada. Não agora.

"Espere", Nissa gritou atrás dela, "tem um fe—"

Algo rápido e duro chocou-se contra Nahiri e a prendeu na parede. Ela gemeu mas imediatamente comandou a parede de pedra atrás dela para revidar.

Ela o fez, com uma coluna afiada e penetrante, esmagando o que quer que a estivesse segurando e fazendo-o gemer alto e soltar. Nahiri rolou para o lado, ficando em pé em um único movimento fluido. Ela cerrou as mãos e mostrou os dentes. Agora estava brava.

Com mal um pensamento, Nahiri convocou sete espadas, irradiando calor e brilhando em vermelho como se recém-saídas de uma forja. Elas flutuavam ao seu redor, dando a Nahiri uma auréola profana. E lançando alguma luz sobre seu atacante.

À sua frente, arquejante e furioso, estava o maior felidar que ela já vira.

Seu corpo sem pelos era coberto de protuberâncias em forma de navalha; seus chifres massivos voltavam-se para trás sobre a cabeça. Suas garras estalavam conforme ele rondava na frente dela; seus caninos colossais e úmidos estavam escorregadios de saliva em antecipação de carne fresca.

"Nem pensar", Nahiri rosnou e enviou todas as sete espadas direto para o coração da criatura. O felidar recuou, mas entre suas patas e suas protuberâncias tipo armadura, conseguiu desviar o pior do ataque.

Ele rosnou e avançou contra Nahiri com uma velocidade desconcertante, boca aberta.

Mas antes de colidir com ela, o felidar foi parado no meio do salto. Nahiri levou um momento para perceber que Nissa estava parada entre ela e a fera imunda, empurrando-a para trás com mais força do que parecia possível.

"Nada disso", Nissa resmungou enquanto arbustos começavam a envolver o felidar. Mas a besta sacudiu-se e empinou-se, golpeando com suas patas massivas. Uma atingiu o ombro de Nissa e a enviou voando com um grito e um baque surdo contra o chão.

Mas Nissa comprara para Nahiri tempo suficiente para moldar correntes de pedra e serpenteá-las ao redor do felidar furioso e distraído. Com um grito, Nahiri puxou o braço para trás, e as correntes de pedra esticaram-se e prenderam o monstro no chão.

"Toma essa", Nahiri rosnou enquanto se abaixava, abrindo os dedos. Atrás dela, sete espadas radiantes apareceram novamente. Com um sorriso presunçoso e um estalo de dedos, Nahiri enterrou todas as sete lâminas no felidar, certificando-se de atingir seus pontos vulneráveis desta vez.

A criatura soltou um guincho, um grito longo e terrível, e então ficou inerte.

Nahiri caminhou até onde Nissa estava se levantando do chão e ofereceu a mão, puxando-a para cima.

"Parecia que o felidar estava nos esperando", Nissa disse, esfregando o ombro.

"Provavelmente estava", Nahiri disse, enquanto moldava outra espada brilhante para iluminar. "Ele estava guardando algo." Ela sorriu, enviando a espada pelo corredor escurecido à frente delas. "Vamos descobrir o quê."

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Aquela sensação desconfortável de que estavam de alguma forma no caminho errado não abandonou Nissa conforme avançavam mais no Casulo do Céu. Apesar das garantias de Nahiri, ela ainda não tinha certeza. Conseguia ouvir a força vital do plano zumbindo para ela. Também soava incerta. Ou talvez fosse apenas ela?

Ao menos não encontraram mais felidares famintos no caminho.

A passagem escura que percorriam descia e descia. O Turbilhão surgindo de vez em quando, perseguindo seus passos.

Até que parou.

O Casulo do Céu abriu-se em uma câmara cavernosa. Havia arcos ladrilhados de ouro, longos e finos, que podiam servir como passarelas, cruzados e entrelaçados como uma teia de aranha. O abismo abaixo das passarelas não tinha fundo visível, embora aqui e ali, feixes de luz perdidos conseguissem deslizar em ângulos agudos. O ar cheirava a mofo e bolor, embora para o alívio de Nissa, houvesse musgo e samambaias em alguns nichos.

Nissa sorriu ao mover-se para um agrupamento de samambaias crescendo em um tufo improvável na lateral. Esta era a Zendikar que ela conhecia e amava, mesmo aqui nesta estranha e morta fortaleza kor.

Nahiri, por outro lado, estava franzindo a testa, claramente incerta de para onde ir a seguir. Porque não era mais um caminho reto para frente, Nissa percebeu. Nahiri agachou-se e colocou uma mão no chão, fechando os olhos. Permaneceu assim por um longo minuto.

Finalmente, Nahiri fechou a cara. "As pedras não estão dizendo que caminho seguir."

"Por que não?" Nissa perguntou. Não achava que pedras pudessem negar qualquer coisa a Nahiri.

Ela deu de ombros. "Estamos perto agora. Mais vale escolher um caminho ao acaso."

Nissa hesitou. Esta definitivamente não parecia ser a solução correta.

O que o Gideon faria?

"Não", Nissa disse, baixinho.

"O quê?" Nahiri virou-se para olhar para ela, o rosto cheio de surpresa.

"Espere—"

Nissa agachou-se junto a uma das samambaias. Suas folhas eram tão grandes quanto ela, mas suas flores eram minúsculas, delicadas e azuis.

"Como é possível que plantas prosperem aqui?" Nahiri perguntou, aproximando-se por trás.

Nissa sorriu. "Você se surpreenderia com quantas coisas prosperam em lugares improváveis neste plano."

"Como—"

Nahiri começou a falar de novo, mas Nissa a ignorou. Ela repousou uma mão no topo da samambaia, como a mão de um pai na cabeça de um filho. Fechou os olhos e sentiu sua vida sob os dedos, sentiu sua luta e seu orgulho em sobreviver em um lugar tão proibitivo. Nissa sorriu para aquela força e aquele orgulho. E ela a convocou.

Ela ouviu Nahiri soltar um arquejo conforme o elemental emergia para a existência. Era uma coisa alta, o dobro da sua altura, verde e vibrante como sua força vital, sua cabeça uma massa de frondes com pequenas correntes de flores azuis entrelaçando seus braços e pescoço.

"O que é isso?" Nahiri disse, dando um passo atrás.

"Um amigo", Nissa disse conforme o elemental ajoelhava-se para ficar quase ao nível dos olhos. Ela não ia explicar que antes de se tornar uma planeswalker, antes de se juntar às Sentinelas, essas foram as primeiras criaturas a aceitá-la como ela era.

Ela segurou a mão de seis dedos do elemental, viu o amor dele por ela em seus olhos e, pela primeira vez em muito tempo, Nissa sentiu que pertencia a algum lugar.

"Precisamos encontrar o coração do Casulo do Céu", Nissa disse ao elemental. "Você pode nos ajudar?"

O elemental piscou lentamente, então com um gemido, ergueu-se até sua altura total e imponente e começou a guiar Nissa pela mão.

"Vamos", Nissa chamou por cima do ombro. ViuNahiri boquiaberta para eles e teve que suprimir um riso.

O elemental de samambaia as guiou pelo labirinto de arcos, parando apenas quando o Turbilhão atacou novamente, e Nahiri teve que usar seu poder para manter os arcos inteiros. Mas nunca hesitou por muito tempo, como se algo o estivesse chamando através desta relíquia de fortaleza.

Eventualmente, chegaram a um patamar, uma pequena plataforma com uma ponte estreita para uma entrada escurecida além. Nissa moveu-se para cruzá-la, mas Nahiri agarrou sua manga.

"Espere"—ela siseou e apontou—"olhe."

Nissa seguiu o dedo de Nahiri para cima e no teto acima estava um geopede gigante suspenso por alguma força invisível. Ele contorcia sua carapaça longa contra suas amarras invisíveis, dando às planeswalkers abaixo uma visão nua e crua de suas centenas de pernas se contorcendo.

Nissa estremeceu. Geopedes a lembravam demais de cobras. Uma cobra com perninhas de cobra. "Alguma ideia do que vai disparar a armadilha?"

"Não", Nahiri disse, "mande a Coisa de Samambaia primeiro."

"Não chame ele assim", respondeu Nissa, rispidamente. Por que ninguém conseguia entender que elementais eram criaturas vivas e sencientes? Que não eram apenas ferramentas para serem convocadas, usadas e morrer sob comando? Não, Nissa não ia enviá-lo para a morte conscientemente. Ela virou-se para o elemental. "Você consegue desarmar aquilo?" perguntou ela, acenando para a armadilha.

O elemental pareceu em dúvida, seus olhos castanhos imensos e brilhantes olhando entre ela e a criatura se contorcendo acima.

"Não deixarei que ele te fira." Nissa ergueu a mão, enviando vinhas para criar uma rede improvisada sob o geopede. Cuidadosamente, o elemental estendeu suas mãos gigantes e folhudas e tocou a barriga do geopede uma vez. A criatura sibilou e se contorceu.

Por um momento, a armadilha invisível aguentou.

Então não aguentou. E a criatura massiva caiu.

Assim que atingiu a rede de Nissa, porém, ela fechou o punho, e a vinha fechou-se ao redor do monstro. Ela puxou o braço para trás, e as vinhas arremessaram o geopede no chão, esmagando-o contra o piso. O monstro guinchou e se debateu. Então ficou inerte e expirou.

Nissa sorriu. Toma essa, não-cobra.

Ela não esperava, porém, que Nahiri o esmagasse novamente com um punho de pedra. Nissa e o elemental pularam para trás em surpresa.

"O quê?" Nahiri perguntou, sorrindo. "Isto é Zendikar. Tudo o que nasce neste plano é difícil de matar."

Por um momento, Nissa ia argumentar. Não pôde evitar pensar em seu primeiro lar em Bala Ged e em como a maior parte de sua tribo e tudo o que ela conhecia fora varrido tão facilmente pelos Eldrazi.

Então percebeu que Nahiri estava falando delas — as duas planeswalkers de Zendikar.

Nissa sorriu. Talvez elas fossem curar este plano. Juntas. "Verdade. Vamos pegar o coração deste Casulo do Céu."

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Inscrição de Clarividência | Arte de: Zoltan Boros

O coração do Casulo do Céu estava radiante. Runas ancestrais cobriam cada superfície, cada centímetro das paredes de pedra, pisos e teto. As runas brilhavam com uma luz dourada que pulsava com seus passos conforme as duas planeswalkers entravam na sala. O elemental de samambaia de Nissa — ou monstruosidade de samambaia no que dizia respeito a Nahiri — vinha logo atrás delas.

Mas não eram as runas que interessavam a Nahiri, era o estrado bem no centro da sala, no coração do coração. E no meio dele, havia um pequeno ladrilho, brilhando como uma estrela.

"O que é aquilo?" Nissa perguntou, ao lado dela.

Nahiri sorriu. Isso era promissor. Muito promissor. E a encheu com mais esperança do que sentira em muito tempo. "Uma chave", ela respondeu.

"Uma chave para quê?"

"Para destravar o verdadeiro poder que buscamos."

Nissa franziu a testa. "Achei que você tivesse dito que encontraríamos algo para curar Zendikar aqui."

"Eu disse que os textos ancestrais kor nem sempre são claros", Nahiri começou, apressadamente, "mas o objeto que buscamos é tanto poderoso quanto perigoso. É~um orbe. Traduz-se grosseiramente como núcleo litoforme. E é o último que existe."

O elemental de samambaia mexeu-se desconfortavelmente, e Nissa pareceu cética. "Como você sabe disso?" perguntou ela.

"Diz aqui", Nahiri disse, caminhando até o estrado. As runas brilharam mais forte, mais intensamente conforme ela se aproximava, como se para convidá-la. "Na escrita ao nosso redor."

Nissa a seguiu. "Você consegue ler as runas?"

"Claro", Nahiri respondeu, "eu sou uma antiga kor."

"Ah. Certo." Nissa corou e ficou para trás com sua Coisa-Samambaia enquanto Nahiri aproximava-se do estrado. Ela ouviu Nissa sussurrar para ele: "Fique perto de mim."

Ao pé do estrado, as runas ao redor de Nahiri brilharam intensamente uma vez, depois diminuíram. Diante dela, a chave brilhava intensamente, quase acolhedora. Mas ela não a alcançou ainda. Em vez disso, colocou a mão no mármore frio de cada lado da chave e ouviu as pedras, sentiu o seu poder, procurou por quaisquer armadilhas.

Não encontrou nenhuma.

Então, lentamente, gentilmente, Nahiri alcançou a chave e a pegou.

Ela brilhou mais forte em sua mão, saudando-a como uma amiga há muito perdida.

"Bem, agora que temos a chave", Nissa disse, "suponho que precisamos encontrar a fechadura."

"Sim", Nahiri disse, com a cabeça inclinada em pensamento. "As runas dizem Murasa. Em um Casulo do Céu lá."

"Nunca é fácil, não é?" Nissa disse com um suspiro, "O que mais suas runas dizem?"

"Há um pouquinho do poder do núcleo nesta sala", Nahiri disse, "e também, nisto." Ela ergueu a chave. "Eu—"

Ela parou. Sentiu os estrondos fracos do Turbilhão novamente. Estivera prestando atenção, sentindo a terra embora estivesse a quilômetros acima dela. Aprendendo a prever os episódios imprevisíveis.

Nahiri rangeu os dentes. O Turbilhão, o maldito Turbilhão.

Pela expressão dela, pôde ver que Nissa sentia também. "Mostre-me", Nissa disse.

Então, Nahiri falou as palavras, a língua ancestral que não usava há milênios. Sentiu o poder agitar-se sob seus pés, sentiu-o subindo, respondendo ao seu chamado. Então com aquele poder recém-extraído, ela o soltou em direção à terra que se deslocava e sacudia.

Houve um clarão ofuscante na sala, e Nahiri protegeu os olhos. Lá embaixo, ela sentiu o Turbilhão hesitar, então, como um monstro atravessado no coração, o Turbilhão estremeceu e parou completamente. Ouviu sons de moagem ao seu redor e sentiu o Casulo do Céu se recompor, embora não completamente. As runas não continham tanto poder assim. Mas ainda assim, esta fortaleza ancestral e quebrada estava se curando.

A felicidade floresceu em Nahiri, e ela apertou a chave contra o peito. Ela encontrara. Encontrara uma maneira de curar Zendikar.

Então, atrás dela, ouviu a Coisa-Samambaia gritar.

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"Não!" Nissa gritou. Ela sentiu a dor do elemental antes de entender o que estava acontecendo. Antes de ver seus membros verdes se retorcerem e murcharem, antes de ouvi-lo soltar um grito de despedaçar o coração, antes de ver seus olhos brilhantes ficarem escuros e ele se desintegrar em cinzas.

Nissa estendeu a mão com seu poder, com as mãos, tentando impedir o elemental de morrer, mas era inútil. Ela ficou com punhados de cinzas. "O que você fez?" Nissa gritou com Nahiri.

"O quê?" Nahiri perguntou, virando-se. Nissa viu que ela estava apertando a chave contra o peito e sorrindo, como se tivesse acabado de vencer uma batalha. "Isso parou o Turbilhão."

"Você assassinou o elemental!"

"Sua planta?"

Minha família. Nissa não disse. Um pedaço de Zendikar. Porque os elementais eram Zendikar, e se conter o Turbilhão com o núcleo significava a morte deles, então Zendikar estava em perigo mortal. Nissa encarou as cinzas em suas mãos, sentiu raiva e luto borbulharem dentro dela. Por este erro.

Por todos os seus erros.

O que o Gideon faria?

"Ele não deixaria isso continuar", Nissa sussurrou para si mesma, endireitando-se, empertigando os ombros.

"O quê?" Nahiri perguntou, confusa.

"Esta é a sua solução?" Nissa perguntou. Ela não estava mais gritando, mas havia uma fúria silenciosa em sua voz que fez Nahiri parar.

"Olhe ao seu redor — este Casulo do Céu está se curando. O Turbilhão parou abaixo de nós, e a terra está se acalmando. As pessoas poderão reconstruir aqui!" Nahiri disse gesticulando para o reparo do Casulo do Céu.

"Às custas da vida de Zendikar", Nissa rebateu. Ela estendeu sua consciência para as plantas e musgos que cresciam nos cantos e fendas do Casulo do Céu, mas eles não responderam. Nissa soube então que tudo o que vivia naquela fortaleza em ruínas estava morto.

"Você não sabe como Zendikar era", Nahiri disse, a voz tensa de raiva, "você não sabe quão deslumbrantes e brilhantes seu povo e suas cidades costumavam ser."

"E você não sabe como Zendikar é agora. Ela ainda é bela, Nahiri"—Nissa estendeu a mão—"dê-me a chave."

Nahiri não respondeu. Em vez disso, cerrou a mandíbula, alargou a postura e abriu os braços.

Nissa não pensou, apenas reagiu — desviando dos pilares que subitamente brotaram do chão, evitando-os por centímetros. Ela não pensou ao liberar uma massa de vinhas para desviar as espadas de pedra que vinham voando em sua direção. Ela não pensou ao comandar as vinhas para serpentearem os tornozelos de Nahiri e puxá-la ao chão.

Nahiri caiu com um gemido e um xingamento. Mas antes que Nissa pudesse atacar de novo, a outra planeswalker ergueu uma parede de pedra entre elas que Nissa não conseguiu romper, apesar de criar arbustos chicoteantes tão grossos quanto troncos de árvore. Seus arbustos atingiam a pedra inutilmente repetidas vezes.

Após alguns minutos, a parede entre elas tornou-se vidro, revelando uma Nahiri machucada e fervilhante do outro lado.

"Não posso apenas ficar parada e deixar este plano se despedaçar!" Nahiri gritou, "Eu sou a guardiã de Zendikar!"

Nissa olhou para a outra planeswalker e percebeu que fora uma tola ao esperar que esta pessoa ancestral e indiferente pudesse ajudar a curar o seu lar. "Eu também sou."

O que o Gideon faria?

Ele buscaria ajuda.

Então, Nissa transplanou.

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Jace, Mago do Espelho | Arte de: Tyler Jacobson

Ravnica, o plano das cidades. Ou melhor, uma única e grande cidade que abrange o mundo inteiro. Nissa conseguia ver a beleza nela: as elegantes torres flutuantes e ruas pavimentadas de mármore, as árvores outonais contrastando com os céus cinzentos. Ela conseguia admirar a beleza e ainda assim lembrar de suas ruas devastadas pela guerra.

Ainda lembrar de como o espírito de Vitu-Ghazi caiu.

Era melhor não ser reconhecida, ela raciocinou, então não demorou nas ruas antes de chegar à casa de Jace.

Ela foi conduzida ao santuário interno de Jace, com nada mais do que uma reverência educada e um olhar sombrio do guarda na porta. Ela supunha que merecia a raiva dos cidadãos de Ravnica. Mas ainda assim, doía.

Talvez Chandra estivesse certa. Talvez ela fosse um desastre ambulante.

Nissa não queria pensar na Chandra. Especialmente agora que precisava da ajuda de Jace e dos outros.

Dentro do santuário, a sala transbordava de livros e pergaminhos, objetos mágicos para os quais ela não tinha nome espalhados pelo imenso local. A luz entrava por janelas altas e arqueadas, mas ainda havia cantos escuros. Nissa levou um momento para encontrar Jace empoleirado em uma escada, encostado na parede mais distante, lendo um livro da prateleira mais alta.

"Já vou falar com você", ele chamou.

Nissa sabia que "um momento" podia significar de alguns segundos a uma hora com Jace. Mas estava nervosa demais para interrompê-lo, então esperou.

"Nissa!" Jace disse quando finalmente a avistou. "Por que você não, quero dizer, achei que você não ia, digo, por que"—ele se interrompeu, deslizou escada abaixo e veio em sua direção—"quero dizer, estou feliz em ver que você está bem." Ele estendeu a mão, lembrando no último segundo que ela não gostava de ser tocada. Retirou a mão e deu a ela um sorriso caloroso em vez disso.

Isso pegou Nissa de surpresa. Ela pensou que ele estaria furioso com ela, como o resto de Ravnica. Mas o alívio de que ele não estava, de que estava satisfeito em vê-la, lavou sobre ela enquanto ele a conduzia a uma mesa.

"Venha, sente-se", Jace disse. "O que posso fazer por você?"

Nissa não tinha certeza de como começar, então apenas disse—"Zendikar está em apuros."

"Os Eldrazi?" Jace perguntou, alarmado.

"Não, não", disse Nissa rapidamente, "nada disso. É a Nahiri."

"Nahiri", Jace disse, unindo as sobrancelhas. "A outra guardiã de Zendikar?"

"Sim", disse Nissa. Subitamente, sentiu-se exausta. Não tinha certeza de como ia explicar tudo isso para Jace, que nunca sentira uma conexão com uma força vital. "Ela está tentando curar o plano."

"Sim, você mencionou que ela pediu para te ver. Mas não entendo. É o que você quer, não é?"

"Sim, mas tem este orbe ancestral—"

"Élfico ou kor?"

"Kor. Mas—"

Jace já estava se movendo para as prateleiras. "Acho que tenho um pergaminho sobre isso—"

"Jace! Escute", Nissa disse, com mais força do que pretendia. "Por favor."

Jace parou e pareceu surpreso, mas sentou-se de novo e assentiu. Nissa sentiu uma pequena onda de orgulho com esta vitória. Jace nunca a ouvia. Talvez canalizar Gideon estivesse funcionando afinal.

Nissa relatou o que acontecera no Casulo do Céu em Akoum, o que Nahiri lhe contara sobre o núcleo litoforme, e o que ele fizera ao elemental de samambaia. Jace ouviu silenciosamente, atentamente. Ela teve que parar e respirar fundo algumas vezes enquanto descrevia a morte do elemental.

"Sei que você não tem uma conexão com elementais", disse ela, "mas eles são importantes para mim. Não que as Sentinelas não sejam~" Ela não conseguiu encontrar os olhos de Jace ao dizer isso.

"Não, eu não entendo verdadeiramente os elementais", Jace disse, "mas sei que são importantes para você. Como podemos ajudar?"

Nissa exalou, aliviada. Sentiu uma onda de gratidão por, embora rotineiramente fizesse uma bagunça de amizades e relacionamentos em potencial, ainda poder contar com Jace e os outros quando precisava deles.

"Bem, preciso que a Nahiri destrua o núcleo litoforme quando o encontrar. E não sei como convencê-la a fazer isso"—os ombros de Nissa encurvaram-se ligeiramente—"Sinto falta do Gideon. Ele saberia como argumentar com uma moldadora de pedras ancestral e furiosa."

O rosto de Jace era um arranjo complexo de emoções. "Eu também sinto falta dele."

"O que devo fazer, Jace? Não acho que sou forte o suficiente para lutar contra a Nahiri sozinha se eu tiver que fazer isso."

Jace uniu as pontas dos dedos. "Se trouxermos o núcleo litoforme para cá—"

"Não!" Nissa disse, meio levantando-se da cadeira. Jace encarou-a surpreso, e honestamente, a força em sua própria voz surpreendeu Nissa também. "Você não viu o dano que ele causa, Jace."

"Sim, mas se pudermos estudá-lo", Jace disse, levantando-se e movendo-se para suas prateleiras novamente.

"E quem serão suas cobaias?" Nissa perguntou com alarme crescente. Ela o estava perdendo.

"Suspeito que o núcleo litoforme esteja canalizando o poder de Zendikar—"

"Jace!"

"Então o poder dele pode se tornar maleável—"

"Não é tão simples assim."

"Talvez dependa de quem o empunha?" Jace puxou um pergaminho das prateleiras. "Isto deve—"

"Você não está ouvindo!" Nissa gritou, enviando uma vinha para derrubar o pergaminho da mão de Jace. Ele recuou, surpreso.

Nissa sentia seu rosto corar de raiva, e seu coração martelava contra o peito. Estava tudo dando errado. Ela perdera as Sentinelas e ia perder os elementais de Zendikar. Suas famílias.

O que o Gideon faria?

"Nissa, o que você está pensando?" Jace perguntou, parado diante dela, tentando encontrar o olhar dela.

O que o Gideon faria?

Gideon aproveitaria o momento.

"Não vou perder ambas as minhas famílias", Nissa disse enquanto sua expressão se transformava em algo mais do que determinação. "Vou proteger o meu lar. Com ou sem a ajuda das Sentinelas."

"Espere—"

Jace começou, mas Nissa não esperou. Tinha cansado de esperar. Com um suspiro, um movimento, um pensamento, Nissa transplanou de volta para Zendikar.

O único lugar onde ela jamais pertenceria.

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Jace permaneceu em seu santuário agora vazio e planejou.

Deveria ter ouvido melhor, convencido Nissa a ficar, a se juntar novamente às Sentinelas. A culpa o roía pelos segredos que estava guardando sobre Nicol Bolas. Ele era o único que sabia a verdade.

Que o dragão ancestral e terrível ainda estava vivo.

E cada dia que Jace guardava aquele segredo era uma mentira de omissão para seus amigos.

Mas ele poderia compensá-los. Ele ia.

Ele considerou o que Nissa dissera sobre o núcleo e imaginou se ele estava de alguma forma conectado ao Turbilhão. Se estivesse, o que Nahiri poderia fazer com tal poder? O que as Sentinelas poderiam fazer?

Muita coisa, Jace percebeu.

Então ele planejou — sabendo que em breve estaria em Zendikar.

04/09/2020 | Por Miguel Lopez

Rota Vermelha

Nota: Esta é a Parte 1 de uma história em duas partes a ser continuada. . .

No profundo Desfiladeiro do Rio Umara, em Tazeem, uma dupla solitária voava por gancho e corda. Os dois, uma kor calejada por batalhas e um tritão alto e esguio, só ficavam parados nos momentos entre os balanços. Por aqueles batimentos cardíacos sem peso, parecia que o mundo inteiro se movia ao redor deles; em Zendikar, isso era possível.

Os dois haviam viajado pela maior parte de outros tantos dias desde o último descanso, o Entreposto de Magosi, que por sua vez ficava a alguns dias das margens distantes do Halimar, do outro lado do qual o lar deles, o Portal Marinho, erguia-se contra o oceano revolto. Eles perseguiam rumores de um hedro caído — um artefato do mundo de outrora.

Este voo, o balanço e salto em desafio às regras naturais, alimentava uma preocupação e escondia a outra: quando um momento de desatenção poderia enviá-lo despencando para a água furiosa abaixo, o esoterismo era deixado de lado.

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Caminho das Águas Claras | Arte de: Daarken

O gancho principal de Akiri mordeu a ancoragem bem gasta, a corda tensionou-se através do seu balanço, e ela caiu com a confiança de alguém que sabia que nunca pousaria. No nadir do seu balanço, o mundo inteiro era um turbilhão de som e cor: o rio rugindo em branco e esmeralda abaixo dela, as paredes estratificadas em carmesim e umbra do desfiladeiro borrando para ambos os lados, o zumbido de sua corda kor conforme ela cortava o ar. Voar, para Akiri, era simplesmente uma questão de se segurar.

Akiri e seu companheiro Zareth viajavam pelo Desfiladeiro do Rio Umara, um vale longo, estável e bem texturizado esculpido ao longo de milênios pelo Rio Umara. Com paredes íngremes despencando centenas de metros da borda até o rio, o desfiladeiro estava repleto de pontos de ancoragem naturais e artificiais, os melhores deles pintados em cores brilhantes para lançadores de corda ansiosos por ganhar tempo. Um vento forte descia das alturas do desfiladeiro, perfeito para navegação rio abaixo se alguém quisesse pegar a rota rápida para a Baía de Halimar. Era um cânon de voo, um dos poucos lugares estáveis em toda Zendikar. Para uma mestre como Akiri, viajar pelo desfiladeiro era fácil como caminhar.

Akiri puxou através do seu balanço, usando seu impulso para se propelir para frente e para o alto. Um estalo de pulso, e ela estava livre, voando. Um momento sem peso entre o voo e a queda, crítico para o descanso, para recuperar o fôlego. Akiri fez ambos, avistou sua próxima ancoragem e lançou seu gancho seguinte enquanto começava a cair.

Uma coisa pequena. Um momento indesejado: o medo, o velho amigo, sempre ali. Se o gancho falhasse (impossível) ou a terra quebrasse (bem possível, mas improvável dada a rocha que compunha o desfiladeiro), então Akiri não iria voar, ela iria cair, e esse seria o fim dela. Outra kor engolida pelo Umara. Outra kor que esqueceu o que Zendikar pensava deles agora; mesmo aqueles que nasceram para caminhar tropeçavam de vez em quando.

O gancho seguinte de Akiri pegou, mordeu e segurou. Ela sentiu o impacto ressoar através de sua corda, através do seu braço e em seu coração, e ela balançou para longe da terra sem medo. Neste balanço, ela não vacilaria — ela voaria.

Gritos atrás dela lembraram Akiri de que nem todos eram tão meditativos em sua prática.

Zareth, seu velho amigo e companheiro, vibrava e gritava cada vez que voava em um ápice, comemorava quando seu gancho principal ou seguinte pegava uma ancoragem, e a incitava.

"Akiri!" Zareth gritou atrás. "Vai pelo Vermelho! Rota Vermelha!"

A Rota Vermelha era uma rota de ganchos difícil e rápida pelo Desfiladeiro do Rio Umara. Akiri a conhecia bem — ela mesma estabelecera a rota durante a Batalha, explorando e construindo a Vermelha para sua companhia de lançadores de corda habilidosos. Naquela época, era para superar feras famintas e as crias Eldrazi que espreitavam os lugares altos do desfiladeiro; agora, os lançadores de corda percorriam a Vermelha para ganhar apostas e se exibir. Uma mudança para melhor.

Alguns balanços para ganhar impulso, e ela estava pronta. No ápice de seu próximo balanço, ela segurou o lançamento, girando no ar para olhar para trás para Zareth, seu cabelo branco chicoteando ao redor do rosto.

Voando atrás dela, Zareth ainda parecia o tritão gatuno e esguio que tentara roubar seus ganchos todos aqueles anos atrás, apenas agora com um pouco mais de idade em suas escamas e seu próprio conjunto de ganchos. A juventude, embora abandone a maioria, nunca o deixara de fato.

"Siga-me!" Akiri gritou para seu velho amigo. Ela caiu, girando, e lançou ambos os ganchos à sua frente — a Rota Vermelha tinha ancoragens em ambos os lados, e ela precisaria da força em ambos os braços para alcançar o próximo conjunto. Ela confiava que Zareth acompanharia seus movimentos, se não o seu ritmo.

O medo estava lá sim, sempre. Mas a liberdade!

Os gritos alegres de Akiri e Zareth ecoavam pelo Desfiladeiro do Rio Umara. À frente, havia perigo — isso era um fato em Zendikar, e especialmente considerando que haviam sido despachados pelo Portal Marinho para investigar rumores de um hedro caído — mas por agora, isso parecia muito distante.

Juntos, Akiri e Zareth voavam.

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Akiri, Viajante Destemida | Arte de: Ekaterina Burmak

Mais tarde naquela noite, Akiri e Zareth acamparam no topo da borda alta do desfiladeiro. O sol nebuloso e laranja-queimado espalhava-se como uma gema cozida pelo horizonte, e o som do Umara lá embaixo era um rugido suave e constante. As planícies no topo do desfiladeiro estendiam-se até o horizonte, divididas apenas por montanhas pontiagudas como lâminas de lança que se erguiam no norte distante, onde as planícies davam lugar a colinas baixas e, eventualmente, à escuridão arroxeada do Baluarte. Raízes de montanhas pairavam pelo horizonte, como se alguém tivesse pegado dois punhados de rochas e areia, lançado-os ao ar e congelado a chuva de silicato em plena queda.

Isso, Akiri pensou, provavelmente não está longe da verdade.

Akiri sentou-se contra o tronco de uma pequena árvore fustigada pelo vento e espalhou pasta de lançador em seus braços cansados. Zareth estava parado a certa distância, observando o pôr do sol. Diante do orbe que se punha, ele era uma silhueta escura, sua sombra longa e nitidamente definida.

Estar em missão mais uma vez com Zareth a abalara de formas que ela não esperava. O recente retorno dele ao Portal Marinho fora bem-vindo, mas trouxera consigo lembretes pesados. Lembretes do que fora feito não apenas a Tazeem, mas a toda Zendikar. Lembretes daqueles que cometeram o ato; pessoas que podiam dançar entre mundos, mergulhar sua luz brilhante neles por um momento e depois seguir em frente deixando ruína em seu rastro.

O sol se pôs e o dia esfriou. Akiri recordou o calafrio no Portal Marinho sob Ulamog, na sombra da besta livre de suas correntes ancestrais.

Akiri estremeceu. Por quanto tempo aquela coisa estivera presa sob a terra, e o que o seu aprisionamento fizera ao mundo transformado em prisão? E quem transformara o seu mundo na prisão dos devoradores de mundos?

Uma explosão avassaladora de raiva mal contida: É por isso, pensou ela. Portal Marinho e a escalada para Murasa. É por isso que você está fazendo isso — lembre-se!

Uma vida de lembretes era tão exaustiva quanto a Rota Vermelha de Umara. Akiri exalou a tensão. Melhor respirar. Notar que era uma noite agradável, embora úmida. O céu estava límpido, exceto por fragmentos de hedros de Emeria, um deles baixo o suficiente para que seu véu de cachoeira fosse visível, uma renda cintilante brotando infinita, derramando-se no ar livre. Um pedaço de vegetação verde se amontoava embaixo, um oásis na grama. Pássaros derivavam ao redor de sua massa, pousando com gritos penetrantes apenas audíveis sob o Umara revolto. Zendikar a prisão, Zendikar a ruína. Zendikar o mundo ferido ainda podia ser belo.

"Akiri," Zareth chamou de volta para ela, "a coisa que estamos perseguindo."

"O hedro?"

"Por que você acha que ele caiu?"

"Se eu tivesse que adivinhar" — Akiri olhou para o céu, em direção a Emeria — "ele simplesmente caiu."

Zareth grunhiu. Ele seguiu o olhar de Akiri. "Nada tão ordenado cairia sem uma razão."

"É verdade", disse Akiri.

Os estudiosos lá no Portal Marinho discutiam sobre a natureza dos hedros e os mecanismos pelos quais eles permaneciam suspensos no ar. Sentavam-se com telescópios e mapeavam suas oscilações e movimentos menores, contratavam expedições — algumas que Akiri até liderara — para traçar cursos pelos quais se pudesse ascender a Emeria, e discutiam sobre a nomenclatura de camadas e marcos celestes; mas será que eles sabiam por que permaneciam no lugar ou por que caíam? Não, não mais do que sabiam qual era a função deles, ou quem os fizera.

Akiri não era afligida por esses medos acadêmicos. As bibliotecas e salas de estudo do Portal Marinho eram úteis para ela apenas porque tinham comida e bebida livremente disponíveis para os batedores, lançadores de corda e aventureiros da Casa Expedicionária. Ela se perguntava? Sim, é claro que sim. Ela temia? Não mais do que alguém temeria uma morte súbita; sim, e não.

"Essa hipótese te colocaria em uma companhia vangloriada, Zareth", disse Akiri. Ela levantou-se e jogou para Zareth sua bolsa de pasta de lançador. Ele a pegou. "Quando você voltar ao Portal, posso te apresentar a alguns estudiosos que estudam os hedros", disse Akiri. "Eles certamente terão alguns bons livros sobre o assunto. Bom valor de revenda." Akiri falou com alegria, e gentilmente.

Zareth riu. "Ei, agora", disse ele, "alegadamente."

Akiri acreditava nele. Aquele Zareth fugira anos atrás; o que retornava ao Portal Marinho e à sua Casa Expedicionária agora era uma pessoa diferente, em um tempo diferente.

Bem, ela esperava.

Durante um jantar de viagem — um ensopado espesso de cebolas selvagens colhidas, tubérculos picados, carne defumada e ramos de ervas encontradas por perto — Akiri e Zareth se recuperavam do dia.

"Você foi bem na Rota Vermelha", Akiri disse a Zareth enquanto ele mexia o ensopado em fervura baixa, "mas você precisa trabalhar na desconexão do seu gancho secundário — pegaremos a Rota Verde amanhã, para você praticar."

Zareth assentiu. Ele provou o ensopado, então polvilhou mais um pouco de sal no caldo. "É o meu ombro. Quebrei em uma queda aprendendo a lançar." Ele girou o ombro, um movimento que Akiri podia notar que era genuinamente limitado, embora exagerado para provar um ponto. "Caso contrário, eu levaria o título de mais rápido na Vermelha", Zareth disse com um sorriso.

Akiri achava que não, mas não disse. Em vez disso, apontou para os ganchos presos ao seu arnês. "Esses não parecem ganchos normais. Onde você os conseguiu?"

"São de Casulo do Céu. Dos kor que habitam as Trincheiras em Ondu", disse Zareth. Ele alcançou seu arnês e desencaixou um de sua corda. "Lançadores de corda bravos os encontram nas ruínas", disse ele, jogando o gancho para Akiri. "É o único lugar onde você pode encontrá-los. Você tem que ser bravo, ou querido por alguém que seja."

Akiri examinou o gancho, virando-o. Era coberto por uma gravação fina e regular, um padrão geométrico que parecia para Akiri como um labirinto sinuoso e em espiral. Ângulos e cantos, losangos e quadrados perfeitos. Não natural, mas não de qualquer fabricação que ela reconhecesse — exceto pelo que não poderia ser.

"Você encontrou este?" Akiri perguntou.

"Não", disse Zareth, "era querido por alguém bravo." Um sorriso triste cruzou seu rosto. "Enfim. Eles nunca vão te deixar na mão", disse Zareth.

"E no entanto", Akiri disse, erguendo uma sobrancelha.

"Meu ombro, eu sei. Não acredite em tudo o que dizem, né?"

O sorriso astuto de Zareth. Akiri o conhecia bem; a alegria espreitava em cada esquina. Provavelmente como ele caiu.

"É lindo", disse ela, devolvendo o gancho para Zareth. "O padrão entalhado nele?"

"Exatamente como os da face de um hedro." Zareth assentiu. "Vi muitos deles em Ondu — um até preso ao solo." Ele virou o gancho, e um pequeno sorriso cruzou seu rosto. "Aqui", disse ele, oferecendo o gancho a Akiri, "fique com ele, eu tenho outros."

"Obrigada, Zareth", disse Akiri, pegando o gancho. Ela alcançou sua mochila, puxou sua corda principal e prendeu o gancho de Casulo do Céu nela. Ela não precisava perguntar a Zareth de onde vinha o suprimento dele — Na verdade, pensou ela, talvez seja melhor eu não saber. Guardou o gancho em sua mochila e voltou ao seu lugar com um estojo de lona encerada de onde tirou um mapa. Akiri estendeu o mapa no solo seco e prendeu seus cantos com algumas pedras próximas.

Zareth serviu o jantar deles e sentou-se oposto ao mapa. "Amanhã ou depois de amanhã?" perguntou ele.

"Amanhã", disse Akiri. "São apenas dez quilômetros até esta cachoeira", disse ela, apontando para uma queda marcada mas sem nome no mapa. "O hedro deve estar na sua nascente."

"Precisamos nos preocupar com eles?" Zareth perguntou.

Por um momento, Akiri ficou confusa, mas então—

O titã sem pele, eclipsando o sol. Cachoeiras de água do oceano derramam-se de sua forma imponente. Ele abre os braços tão amplos quanto o horizonte, e o Portal Marinho treme e cintila com o calor.

—ela soube.

"Não", disse Akiri, "eles se foram deste mundo. Nós vencemos." Sua garganta estava seca como poeira, mesmo agora, ao pensar neles.

Zareth comia, observando o mapa — mas sem olhar para ele de verdade, Akiri notou. Olhando através dele. Ela conhecia aquele olhar, o jeito distante que capturava aqueles que tinham visto coisas que ninguém deveria—

A noite manchada de laranja pelo fogo, o fedor dos mortos apodrecendo rápido e os gritos dos vivos. Sua espada pesada e escorregadia com sangue fumegante. Os Eldrazi matavam com um toque — alguns com sua mera presença. Camaradas desmoronavam em cinzas brancas, sufocando o ar que ela lutava para respirar. A primeira investida das feras da prole quase os sobrepujou, mas, de alguma forma, eles aguentaram, e o ar chiou com energia e a próxima onda colidiu contra eles.

—ela lembrava de quão inexperiente Zareth fora durante a Batalha. Ele fora forçado à libertação do Portal Marinho porque conseguia segurar uma lança, designado para a unidade dela porque muitos haviam sido mortos. Ele era alto para a sua idade então, e os outros recrutas pensavam que ele fosse mais velho, mais experiente.

Ela fora apenas alguns anos mais velha que Zareth quando os Eldrazi irromperam sobre o mundo, uma kor que se julgava invencível porque aprendera a voar como seus ancestrais faziam, com gancho e corda e a própria Zendikar como seu parquinho escancarado. Ela era rápida com uma espada, uma guerreira adepta em um bando de campeões. Mesmo então, sua habilidade e graça lhe renderam aclamação por toda Zendikar e lhe deram uma sensação de estar além de si mesma. Com seus parentes e amores ao seu lado, ela não temeu quando ouviu pela primeira vez as notícias dos titãs irrompendo da terra. O que eram eles senão outra chance de se cobrir de glória? Ela e seu bando se juntariam às forças dos Vivos, voariam triunfantes diante dessas coisas que outros chamavam de "deuses", e salvariam o mundo.

Ela pensara.

"Akiri," Zareth disse, quebrando seu devaneio, "sinto muito por ter partido daquele jeito." Ele falou suavemente, um sussurro que Akiri não sabia que ele era capaz de expressar. "Eu não aguentava o silêncio. Achei que estaria livre de tudo se fosse para longe. Longe do Portal Marinho, e da Kaza, e do Orah. Longe de tudo isso" — os pequenos músculos de sua mandíbula pulsaram enquanto ele falava através da velha dor — "longe de você."

O som do oceano nunca parado. As lutas brutas de rua de humanos, kor e tritões contra drones Eldrazi fazedores de poeira e proles menores. Acima, o estalo e clarão da magia dos walkers explodindo feras mais terríveis.

Ela poderia estar brava com ele. Akiri poderia ter se enfurecido com ele por como ele partira e pelas coisas que roubara. Por quanto Kaza chorara por ele. Orah certamente amaldiçoara Zareth por sua fuga e ameaçara matar o garoto se ele voltasse, mas aquilo era Orah sendo Orah, e Akiri sabia que ele só era dramático em sua raiva — ela escondia seu amor e seu medo. Ela poderia estar brava com ele; em sua própria vida jovem, Akiri aprendera duramente o custo de partir sem dizer adeus, mas ela também viera a reconhecer que presente era ser capaz de perdoar. Em Zendikar, o seu ferido mundinho, a cura não era feita passivamente: era uma prática. Seja refazendo o mundo ou remendando a si mesmo, a cura era um trabalho. O mesmo com o perdão.

"Zareth", disse ela, "estou feliz por ter você de volta."

Zareth levantou os olhos do seu trabalho. Pela primeira vez desde que ele entrou pomposamente no Portal Marinho dias atrás, ela viu o Zareth que conhecia.

"Nunca tive um lugar para onde voltar", disse Zareth. "É bom. Parece que as coisas podem estar melhorando. Estar de volta ao Portal Marinho me mostrou que fizemos algo mais do que sobreviver."

"Fazemos mais do que sobreviver", disse Akiri. "Nós salvamos o mundo. Agora, trazemos poder para o seu povo, e então vivemos."

Zareth sorriu, de leve. Algum tempo passou em silêncio antes que os dois voltassem à refeição. Juntos sentaram-se sob sua árvore no topo do Desfiladeiro do Rio Umara, e a luz minguante do sol escorregou abaixo do horizonte distante, e conversaram sobre nada de importante.

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No dia seguinte, alcançaram o local do hedro caído. A cachoeira — que se relatara ter secado — fluía em curso constante.

"Bem", Zareth disse entre arquejos, dobrado sobre os joelhos, "não tem nada aqui." Ele levantou-se e olhou ao redor do pequeno cume do pináculo que haviam escalado. Em forma de bacia, o cume em anfiteatro embalava uma lagoa brotada de nenhuma fonte visível, que alimentava um riacho raso que se derramava acima do desfiladeiro lá embaixo. O cume estava envolto em névoa, e a luz do dia era avassaladora no ar elevado. Pouca vegetação crescia exceto por grama retorcida em manchas. Era menos um oásis do que um excerto, uma fatia de terra que parecia totalmente fora de lugar para o lugar onde estava.

"Ei, Akiri!" ele gritou. "Cadê a pedra grande?"

Akiri estava parada a certa distância, em direção à borda da piscina que alimentava a cachoeira que passaram a maior parte de um dia escalando. Exceto pelo giz branco em suas mãos e antebraços, não se poderia dizer que ela acabara de liderar e estabelecer a escalada do dia. Uma carranca sulcava seu rosto. Mãos nos quadris, ela olhou ao redor, só para ter certeza. Algum feitiço, talvez? Ou um efeito persistente do Turbilhão que escondia o hedro de sua vista?

A piscina que alimentava a cachoeira era uma beleza cromática, e era a única característica digna de nota no topo deste cume nu. Mineralizada em vermelhos, azuis, verdes e amarelos brilhantes, a água cristalina estava imóvel como um fôlego contido. Não foi necessária nenhuma investigação profunda para ver que Zareth tinha razão.

"Não é uma pedra, é um artefato", Akiri gritou de volta. Três dias de viagem árdua, lançamento de ganchos e esta escalada final para não encontrar nada. Nem sequer uma pedra grande.

"É uma lagoa bonita, ao menos", Zareth disse.

Akiri grunhiu. Era uma lagoa bonita. "Não beba dela", disse ela.

"Envenenada?"

"É possível." Akiri chutou uma pequena pedra da margem para dentro da lagoa. Ela quicou na água, depois sumiu. "Mais provável ser magia", disse ela.

"Talvez tenha sido o que aconteceu com o hedro?"

"Absolutamente possível."

Ficaram parados e deixaram o vento preencher o silêncio. Ele assobiava, solitário.

"E agora?" Zareth perguntou.

Akiri olhou de volta para Zareth, e depois além dele. Toda Tazeem se espalhava, nebulosa através da névoa dourada da queda fustigada pelo vento. Escondida além da visão estava a sua resposta.

"Voltamos para o Portal Marinho", disse Akiri.

Nenhum farol podia ser visto tão longe, mas podia-se imaginá-lo e à cidade abaixo. Brilhante, distante, mas cheia de promessa. Uma cidade cintilante na foz da Baía de Halimar.

"Ainda temos trabalho a fazer", Akiri disse. "Lá atrás. Lá em cima."

Zareth perscrutou com ela, procurando o horizonte leste. "Enquanto isso, é uma bela vista", disse ele. "Nada mal, mesmo que o trabalho não esteja terminado."

Akiri deu-lhe um sorriso suave. "Venha então, Zareth", disse ela. "Vamos para casa."

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Quedas do Céu de Umara | Arte de: Jesper Ejsing

Embora distante do Portal Marinho e não mais grandioso do que um único salão longo e alguns anexos, o Entreposto de Magosi era um farol de civilização assim tão longe no interior. No topo da poderosa cachoeira de Magosi, o entreposto era a principal parada de descanso para viajantes e mercadores pegando a rota segura subindo ou descendo o Umara, e um acampamento base e estação de passagem comum para exploradores.

Constante no entreposto era o estrondo baixo da própria Magosi. A cachoeira mais alta ao longo do desfiladeiro, as Cataratas de Magosi formavam-se onde o Rio Umara dava um único degrau íngreme de cem metros para baixo. Algum trauma geológico antigo rasgara o mundo ali, erguendo uma seção dele e derrubando outra. Impassível por séculos, agrimensores do Portal Marinho esculpiram uma série de zigue-zagues na parede após a libertação da cidade; vertiginoso, ele no entanto permitia que viajantes fizessem uma ascensão relativamente segura do desfiladeiro inferior para o superior. As Cataratas de Magosi ecoavam a história de Zendikar: algo antigo fizera algo terrível ao mundo, algumas pessoas morreram, a maioria viveu, nada mudou, e Zendikar continuou seu estremecer e sacudir, crivada de febre planar. Então, o mundo e seu povo se adaptaram.

Akiri e Zareth, pela primeira vez em dias, passaram uma noite sentados ao redor de uma mesa em cadeiras robustas, comendo comida que lhes fora servida, que haviam pago com moeda e crédito de bens de troca que trouxeram de volta da sua expedição. Eles tinham até bebidas geladas e ouviam música tocada por um grupo valente de tritões tentando superar o estrondo baixo e constante da cachoeira de Magosi. Dezenas de kor, tritões e humanos circulavam pelo salão principal do entreposto, comendo e conversando, regateando sobre pequenas mercadorias e trocando notícias e rumores que acumularam em suas viagens. Do lado de fora, o bater de cascos e o chamado de bestas de carga dóceis — contratáveis para a jornada até a próxima subida de entreposto a muitos quilômetros de distância — chegavam com o vento com sua fragrância inebriante.

"Civilização", Zareth suspirou, terminando seu copo. Ele mastigou um pouco de gelo e esfregou a nuca com as mãos. "Acho que vou querer outro desses", disse ele, chacoalhando o copo, "e depois ir para outro banho — esqueci como água quente é boa nas escamas." Zareth agarrou a bolsa compartilhada deles e puxou o cordão para abri-la.

Akiri, terminando sua comida, acenou com a cabeça em direção à bolsa. "Você terá que usar sua caça às moedas para encontrar qualquer coisa aí dentro", disse ela. "Gastamos o último disso nesta refeição e nos suprimentos que precisamos para voltar." Akiri ergueu uma sobrancelha e olhou para a mochila de Zareth, que repousava na grande mesa ao lado do seu próprio equipamento. "O último do que eu sei que aquilo continha, em todo caso."

"Ei, você não me deixa aliviar nenhum bolso aqui", disse Zareth.

"Somos representantes do Portal Marinho, Zareth. Não somos mais recrutas famintos."

"Certo. Somos membros sedentos do Portal Marinho, Akiri", Zareth disse. "Os estudiosos recebem seus impostos de manutenção; não vejo diferença em nós recebermos a nossa parte."

"Os estudiosos ganham esses impostos através do seu trabalho", Akiri disse, enquanto se ocupava em limpar seu kit da mesa. "O mesmo que nós ganhamos o nosso. Agora, sobre esse ponto." Akiri alcançou sua mochila principal e pescou uma pequena bolsa que jogou na mesa diante de Zareth. Ela caiu com um baque pesado e o som de ouro.

"Você não fez isso", Zareth riu. Ele agarrou a bolsa, abriu-a, tateou lá dentro e puxou uma moeda.

"Encontrei trabalho para nós. Paga metade agora e metade no fim", disse Akiri. "Uma caravana indo para Coralhelm, prevista para partir amanhã."

"Ao menos é no caminho", Zareth disse. Ele pegou mais algumas moedas da bolsa, amarrou-a e levantou-se. "Partida de manhã cedo?"

"Seria de outro jeito?"

Zareth riu. "Tudo bem então, vou buscar outra bebida." Ele levantou-se.

"Zareth", Akiri disse, parando-o. Ela virou a bolsa de moedas, e pedregulhos caíram dela. Zareth riu, ergueu as mãos.

"Me pegou", disse ele. "Deixe-me pagar a sua rodada, então?"

"E alguns daqueles bolinhos", Akiri disse. "Aqueles com o molho dentro."

Zareth saiu e voltou com bebidas e comida. Ele sentou-se, passou a parte dela pela mesa, e os dois puseram-se a comer.

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Mais tarde naquela noite, conforme a noite caíra de verdade e a multidão crescera, Akiri e Zareth sentaram-se no deck à beira do precipício do Entreposto, terminando uma última rodada de comida salgada e frita e bebidas geladas. Eles haviam passado um bom tempo colocando o papo em dia — de verdade — e talvez fossem as bebidas geladas, ou a atmosfera casual após tanto tempo na estrada, mas no curso de uma conversa de outro modo leve, Zareth fez a Akiri uma pergunta que marcaria este momento como a conclusão da noite.

"Quando voltarmos ao Portal Marinho", Zareth disse, "você planeja nos voluntariar para alguma missão secreta. Uma expedição a um dos Casulos do Céu." Zareth inclinou-se para trás em sua cadeira. "É por isso que estávamos aqui investigando aquele hedro, certo?"

Akiri não negou. "Murasa", disse ela. "O Portal Marinho achou que poderíamos encontrar algo útil em um hedro recém-caído, mas isso presumia que havia um hedro lá para encontrar."

"O que tem para encontrar em Murasa?" Zareth perguntou. "Aqueles Casulos do Céu estão todos velhos e mortos."

"Eu não sei", Akiri disse. "Nosso patrono está disposto a gastar boas moedas em uma aposta de que algo espera lá em cima. Algo poderoso."

"Quem é esse, Akiri?" Zareth perguntou. "Disposto a apostar seu sonho de um mundo melhor em um palpite."

Akiri assentiu. "O dinheiro é bom", disse ela. "Ninguém gasta essa quantidade de moedas em um palpite. É uma aposta — uma aposta de que o que encontrarmos em Murasa poderia nos ajudar a consertar o nosso mundo."

"Sei que é o meu padrão mas" — Zareth inclinou-se, baixando a voz — "poderíamos partir na noite, e ir para alguma outra terra. Você e eu juntos, com a sua habilidade e o meu charme? Não nos faltaria nada."

Akiri balançou a cabeça. "Este é o nosso mundo, todas as suas agonias e doenças. Consertar o que foi feito a ele é a nossa luta, nossa incumbência, nosso lugar", Akiri disse. "Não podemos partir."

"Podemos não voltar", Zareth rebateu.

"Sim", Akiri disse. "Temos a mesma luta que qualquer~desabrochar após um longo inverno: cem de nós podem murchar no frio tardio, ou ser cortados por um jardineiro invejoso, mas somos muitos para que a primavera não venha. Temos que tentar, não importa o custo."

"E se não encontrarmos nada?"

Akiri tomou um gole de sua bebida.

"Esperança, ao menos, suponho que você possa trazer isso de volta", Zareth sugeriu. "Dar às pessoas algo com que sonhar."

"Esperança? Não", Akiri disse, não rude, mas firme. "As pessoas não conseguem fazer uma lâmina fervente a partir da esperança, ou moldar esse sentimento em uma faca terna." Akiri balançou a cabeça. "Não quero dar esperança às pessoas, quero criar poder para o nosso povo. Encontrar uma maneira de dar ao nosso povo — a todo o povo de Zendikar — os meios pelos quais eles possam moldar uma arma a partir da sua dor e usá-la para curar este mundo de vez", disse ela.

Zareth recuou de sua inclinação conspiratória. Akiri estava rígida, séria.

"Olha, acho que já tive o bastante", Akiri disse, quebrando a rigidez que a possuíra. Ela indicou as canecas e pratos vazios. "Vou me deitar. Te vejo amanhã?"

"Estarei lá, Akiri", Zareth disse, quieto.

"Estará?"

"Você me pediu para estar lá", Zareth disse, "então estarei lá."

Akiri observou Zareth por um momento, um longo momento. Zareth não via Akiri a Viajante Destemida, veterana condecorada e lendária lançadora de corda, mas a Akiri sem nome, a jovem oficial kor que o puxou através da escuridão no Portal Marinho. Sua pele cinza incrustada na cinza opaca de seus amigos mortos e da paisagem decrépita. Seus olhos, iluminados pelo fogo, vazios de terror — mas ainda puxando-o para frente. Akiri que pressionou a lança de um morto na mão dele e disse a ele que ele precisava lutar contra as coisas que matavam o mundo com um toque, caso contrário ninguém sobraria vivo quando a Batalha terminasse.

"Estarei lá, Aki", Zareth disse de novo.

"Bom", Akiri disse. "Bom", ela repetiu, baixinho, enquanto partia.

A noite arrastou-se longa, e Zareth não passou nada dela dormindo.

09/09/2020 | Por A. T. Greenblatt

Episódio 2: Corrida para o Casulo do Céu de Murasa

Nahiri estava satisfeita, e também enfurecida. Satisfeita porque a chave ancestral estava bem guardada em seu bolso, a solução para seu problema ao alcance das mãos. Enfurecida porque sua aventura mais recente com Nissa deixara abundantemente claro que ela não poderia visitar o Casulo do Céu de Murasa sozinha e esperar sobreviver. Por mais que ela gostasse de pensar o contrário, se Nissa não estivesse no Casulo do Céu de Akoum com ela, Nahiri não teria sido capaz de obter a chave.

Felizmente, parada em frente à entrada imponente do Portal Marinho, ela sabia onde encontrar a melhor equipe de aventureiros em Zendikar.

Fazia muito tempo desde a última vez que visitara o Portal Marinho. Não parecia exatamente o mesmo que ela lembrava. A guerra com os Eldrazi arrasara a cidade original até o chão e, embora o Portal Marinho tivesse sido reconstruído, ainda havia cicatrizes em seus edifícios.

E em seu povo.

A culpa perseguia Nahiri enquanto ela caminhava pelas ruas, mantendo o olhar fixo para frente. Ela não se demorou no magnífico farol que se erguia sobre a entrada da cidade nem examinou seus mercados ao ar livre onde humanos, kor e tritões circulavam e regateavam nas barracas. Ela mal olhou para o novo memorial de guerra ao passar por ele — uma enorme plataforma circular, com seis massivos hedros de pedra igualmente espaçados, cercados por pedaços dos destroços do Portal Marinho original. Ao contrário dos cidadãos desta cidade, Nahiri não precisava de um monumento enorme para lembrá-la do que perdera.

Conforme se aproximava das Guildas, as ruas tornavam-se mais estreitas, enchendo-se com os cheiros de peixe fresco e carnes grelhadas das tavernas. Camelôs e mercenários famintos aproximavam-se dela, mas rapidamente mudavam de curso quando captavam o olhar em seus olhos. Ela não tinha tempo a perder com aventureiros comuns. A chave em seu bolso pesava.

Quando chegou à Casa Expedicionária do Portal Marinho e empurrou sua porta de ferro forjado, foi atingida imediatamente pelo ruído, pelo calor e pelo cheiro de cerveja velha e viajantes. Não era um espaço grande e estava apinhado de pessoas de todas as raças, sentadas ao redor de mesas gastas com canecas ou em debates acalorados enquanto clientes potenciais regateavam com aventureiros. E no meio do caos, como o olho de uma tempestade, sentava-se Kesenya, a chefe da casa expedicionária.

Ela era uma kor alta e orgulhosa em armadura prateada e ricas roupas roxas. Seu cabelo branco estava trançado em um padrão complexo e, ao redor de seu pescoço, havia um colar vermelho brilhante, que só poderia ser o lendário Colar do Dragão. Ela estava cercada por patronos e admiradores, todos disputando sua atenção. Quando avistou Nahiri, porém, levantou-se imediatamente, oferecendo alguma desculpa ou outra às pessoas ao seu redor, e atravessou a sala.

"Benfeitora", disse ela, baixinho, "sempre uma honra vê-la."

"Estou satisfeita em ver que meu investimento está florescendo", respondeu Nahiri, em voz baixa. "Vamos conversar em particular."

"Claro." Kesenya a conduziu a uma sala nos fundos que era pequena mas bem mobiliada, com almofadas nos bancos e mapas de Casulos do Céu nas paredes. Uma nova rodada de cerveja foi trazida e colocada na mesa.

"Serei honesta", disse Kesenya, sentando-se à frente dela, "estou surpresa em vê-la aqui. Você costuma ser um pouco mais~distante."

"Sou quem preciso ser", Nahiri respondeu, com um leve tom de aspereza na voz. Ela tocou a chave em seu bolso. "E agora preciso de uma equipe brava e capaz para recuperar algo muito precioso e muito poderoso."

"Você veio ao lugar certo", disse a outra kor. "Presumo que você tinha uma equipe em mente?"

Nahiri sorriu.

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Nahiri, Herdeira dos Antigos | Arte de: Anna Steinbauer

Quatro aventureiros sentavam-se diante de Nahiri na sala de reuniões privada da Casa Expedicionária. Akiri, uma mulher kor que era renomada por toda Zendikar pelo seu lançamento de cordas. Uma pequena maga humana com um grande cajado entalhado chamada Kaza, de quem se dizia adorar fogo e que tinha um brilho travesso nos olhos. Orah, um clérigo kor com uma longa barba branca e o conhecimento de uma biblioteca inteira dentro de sua cabeça. E Zareth, um tritão com cabelos vermelhos rebeldes e barba trançada. Dos quatro, ele era o único que não estava sentado à mesa. Em vez disso, estava encostado na parede de trás, de braços cruzados, observando-a com um ar de desconfiança, e Nahiri soube instantaneamente que teria que ser cautelosa com ele.

"Sou Nahiri", disse ela. "Estive em aventuras dignas de lendas. Estou pedindo que se juntem a mim em uma dessas expedições agora."

Os aventureiros não responderam. Todos exibiam expressões de vários níveis de ceticismo.

Bom, pensou ela. Eles não aceitam as coisas pelo valor aparente.

"O que Kesenya contou a vocês sobre mim?" Nahiri perguntou, inclinando-se para trás em sua cadeira.

"Apenas o básico", Akiri respondeu, lentamente. Ela, Nahiri percebia, era a líder deles.

"Ela disse que você poderia viajar para outros reinos. Que a pedra obedece ao seu comando. Que você é poderosa o suficiente para enfrentar um Eldrazi sozinha", Orah disse, inclinando-se para frente. "É verdade?"

Eu gostaria que a última fosse, Nahiri pensou, amargamente.

"Sim", disse ela, após uma pausa.

Orah sorriu, parecendo uma criança encantada que descobriu que suas histórias favoritas eram reais. Akiri olhou para trás e trocou um olhar com Zareth.

"Então por que você precisa de aventureiros humildes como nós?" Zareth perguntou, endireitando-se e aproximando-se da mesa.

Porque provavelmente estou caminhando para uma armadilha, pensou ela.

"Existe um objeto ancestral chamado Núcleo Litoforme", Nahiri disse. Ela pausou, engolindo seu orgulho. "E preciso de ajuda para recuperá-lo."

"Onde?" Akiri perguntou, cruzando os braços.

"Em Murasa. Em um Casulo do Céu recém-erguido lá", respondeu Nahiri, notando como o nome fez os aventureiros se inclinarem ligeiramente com interesse. "Vocês ouviram falar, certo?"

Eles trocaram olhares novamente. "Ninguém conseguiu escalar aquilo", Kaza disse, parecendo nervosa.

"Ninguém pediu aos melhores ainda", disse Nahiri, sorrindo internamente enquanto eles empertigavam-se um pouco.

"O que nós ganhamos com isso?" Zareth disse. Akiri lançou-lhe um olhar, mas ele ergueu uma mão e disse: "Não — se estamos colocando nossas vidas em risco, devemos saber para quê."

As narinas de Nahiri dilataram-se levemente, mas ela conteve sua impaciência. "O objeto que busco curará Zendikar de todas as suas cicatrizes. Tornará este mundo um lugar seguro e próspero novamente, exatamente como era antes dos Eldrazi chegarem." Nahiri tomou um longo e lento gole de cerveja, pausando para dar efeito. "Imaginem as riquezas e a fama que virão para as pessoas que salvarem este mundo."

"O dano a este mundo", disse Akiri, "é imenso."

"Perdi minha família inteira para os Eldrazi", Orah disse, baixinho.

"Perdi amigos", Kaza disse.

"Todos nós perdemos alguém", Akiri disse, olhando para trás para Zareth novamente, "e acho que todos nós sonhamos com um mundo mais seguro. Parece impossível." Akiri virou-se e encarou Nahiri nos olhos, e Nahiri viu uma centelha de esperança em seu olhar. "Mas se metade das suas conquistas for verdade, talvez haja uma chance." Akiri inclinou-se para trás, e aquele breve vislumbre de esperança desapareceu. "Isto é, se acreditarmos em você."

"Eu não acredito", Zareth disse. "O que nos impede de pegar o Núcleo sem você?"

Nahiri sorriu, mas o sorriso não chegou aos seus olhos. "Eu tenho a chave", disse ela, tirando-a do bolso. Era como tirar uma pequena estrela, e ela a colocou sobre a mesa. A chave pulsou intensamente, e os quatro aventureiros instintivamente recuaram.

"Uau", Kaza murmurou.

Nahiri devolveu a chave ao bolso, lembrando-se de ser paciente.

"Antes de decidirmos, talvez você possa me conceder um jogo?" Zareth disse.

Os olhos de Nahiri estreitaram-se com suspeita. Mas se ela estivesse sendo completamente honesta, havia uma pequena parte dela que também estava intrigada. "Que tipo de jogo?"

"Zareth", disse Akiri com um tom de aviso na voz.

"Um jogo de cartas", ele respondeu, então virou-se para Akiri. "Fazemos isso com todos os nossos clientes potenciais. Por que ela deveria ser diferente?"

Akiri franziu a testa, e Nahiri duvidava seriamente que eles fizessem isso com qualquer um de seus clientes. Mas ela estava curiosa. "Então", disse ela, "diga-me as regras."

Akiri cedeu seu lugar a Zareth mas colocou uma mão em seu ombro enquanto permanecia atrás dele. Ele sorriu para ela com afeto, colocando sua mão sobre a dela.

Com sua mão livre ele produziu um baralho de cartas gastas aparentemente do nada. "Grupos de aventureiros gostam de chamar este joguinho de Conquista." Com facilidade praticada, ele distribuiu quinze cartas em círculo sobre a mesa. Então, ele tocou o tampo da mesa no centro do anel, e as cartas começaram a pairar e girar no ar.

"Funciona assim", disse Zareth, "uma carta é escolhida ao acaso." Às suas palavras, uma carta do anel giratório deslizou para o centro e virou-se. Era um belo desenho de um motivo intrincado de joias e olhos. No centro estava uma única palavra: Astúcia. "E temos que contar uma história verdadeira sobre como realizamos a palavra na carta. Se sua história não for impressionante o suficiente, outro jogador tem a chance de capturar a carta."

"Parece simples o bastante", Nahiri disse. Simples demais.

"Oh, e é", respondeu Zareth, "mas aqui está o detalhe. Se eu vencer, você nos conta exatamente o que esse Núcleo fará com Zendikar."

Nahiri inclinou-se para trás em sua cadeira, unindo as pontas dos dedos. "E se eu vencer, você e seus companheiros vêm comigo para o Casulo do Céu de Murasa."

Os quatro aventureiros trocaram olhares novamente, e Akiri deu a Nahiri um único aceno de cabeça.

"Eu começo." Zareth estudou a carta intensamente, como se lutasse para encontrar uma história adequadamente astuta. "Uma vez, conheci um comerciante de livros que era mais ladrão que estudioso. Fingi ter um pergaminho de feitiço raro e perigoso e, enquanto barganhávamos, roubei de volta os tomos que ele pegara emprestado da biblioteca do Portal Marinho. Ele nunca percebeu."

A carta Astúcia voou para a mão estendida de Zareth. Nahiri ergueu uma sobrancelha, e ele sorriu presunçosamente. "Sou conhecido como o Trapaceiro."

Significa que não posso confiar em você, Nahiri pensou, cerrando os olhos.

"Minha vez", disse ela. Novamente, uma carta desengatou do anel e flutuou para o centro. Nela estava a palavra Inimigo.

Nahiri sorriu. Esta era fácil. "Houve alguém que foi como um pai para mim. Mas após séculos, ele traiu minha confiança. Não faz muito tempo, eu lutei com ele durante uma batalha que poderia ter acabado com o mundo. E eu venci."

Zareth e os outros ficaram olhando para ela.

"Você não é tão velha assim", disse Kaza.

"And there's been no battles of that scale since the Eldrazi," Orah disse, lentamente.

Nahiri tomou um longo gole de cerveja, sorrindo. Calmamente, estendeu a mão, e a carta voou para a sua palma. "Não neste reino, não."

Por um momento, a autoconfiança de Zareth pareceu vacilar.

Bom, pensou Nahiri.

"Eu também quero jogar", disse Kaza enquanto aproximava sua cadeira da mesa. Sua carta dizia Vitória.

Kaza lançou-se em um conto sobre como uma vez destruiu uma prole inteira de Eldrazi com um punhado de feitiços e um frasco explosivo bem colocado. Mas Nahiri estava apenas ouvindo pela metade. Suspeitava que houvesse mais neste simples jogo de cartas, e esperava que a armadilha disparasse.

Não disparou.

Até que ela sentiu algo. Os dedos tocando seu bolso eram leves, o mais sutil sussurro. Ela não teria notado se o chão não fosse de pedra e ela não pudesse sentir os movimentos do Trapaceiro através dele. Mas quando olhou para cima de suas cartas, ambas as mãos dele estavam na mesa novamente.

"Sua vez", Zareth disse com um sorriso astuto.

A carta virada dizia Poder.

Nahiri inclinou-se para trás, estudou seu oponente por um longo momento.

Então ela estalou os dedos e transformou todas as cartas em granito. Zareth e Kaza saltaram surpresos e deixaram cair as cartas que seguravam. Elas tilintaram ruidosamente na mesa. Nahiri estendeu a mão e o baralho inteiro voou para sua palma aberta.

"Eu venci", Nahiri disse enquanto encarava Zareth. "Agora, devolva." Ela estendeu a outra mão.

Atônito, Zareth pescou a chave de sua túnica e a entregou a ela sem uma palavra de protesto.

Ao lado dele, Kaza desabou em riso. "Oh, ela te pegou, Zareth."

"Ela de fato venceu", Akiri disse, "embora a palavra justo nunca possa ser aplicada quando se joga com você." Ela envolveu o ombro dele com um armo. Para Nahiri, ela disse: "Quando partimos?"

Nahiri levantou-se. Ela venceu, mas por alguma razão, a vitória não tinha um gosto doce. Dirigiu-se à porta. "Amanhã. Na primeira luz do dia."

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Zareth San, o Trapaceiro | Arte de: Zack Stella

Zareth amaldiçoou-se por devolver a chave a Nahiri. Os outros zombaram dele por perder tão espetacularmente para a estranha mulher kor, mas pararam quando ele não respondeu com seu sarcasmo habitual.

Em vez disso, deixaram-no em paz enquanto terminavam suas cervejas e iam se preparar para a jornada adiante. Mas Zareth não partiu. Não. Ele sentou-se na Casa Expedicionária do Portal Marinho e consumiu outra bebida conforme as horas passavam e a sala lotada esvaziava.

Quem dera a Nahiri o direito de mudar o mundo dele, afinal?

Era perto da meia-noite quando ele era o único que restava.

Bem, ele e Kesenya. O que lhe servia perfeitamente. Zareth imaginava se a líder da casa algum dia dormia.

"Você não parte de manhã?" ela perguntou, aproximando-se dele.

"Sim", ele respondeu, "mas quero aproveitar esta noite, caso seja a minha última."

Kesenya estudou-o por um longo momento. "Mentiroso", disse ela.

"Tudo bem", Zareth disse. "Este objeto que estamos buscando no Casulo do Céu de Murasa — estou preocupado com ele."

A chefe da casa não disse nada, apenas gesticulou para ele continuar.

"Ela disse que ia mudar Zendikar com ele", disse Zareth, "devolvê-la ao que era antes dos Eldrazi serem aprisionados aqui."

Kesenya deu uma risadinha. "Você faz isso parecer algo ruim, Trapaceiro."

"Você viu aquelas ruínas ancestrais", ele respondeu asperamente, a raiva que estivera reprimindo o dia todo começando a vazar. "Você acha que haverá qualquer lugar para pessoas como nós em um mundo de fortalezas e exércitos?"

Pela primeira vez que ele conseguia lembrar, a chefe da casa não pareceu segura. "Não é tão simples assim. Nahiri é~mais importante do que parece."

Zareth balançou a cabeça. "Tudo o que peço que você faça é encontrar um comprador para o Núcleo que seja rico e estúpido. Alguém que não vá realmente usá-lo", disse ele. "Eu cuido do resto."

Kesenya hesitou, em conflito. "Consiga o Núcleo para mim, e eu considerarei", disse ela, finalmente.

Zareth sorriu. Não fora um sim, mas também não fora um não. Era bom o suficiente para ele.

Por enquanto.

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Floresta | Arte de: Sam Burley

Quando finalmente chegaram à Baía da Cisão em Murasa, Akiri foi a primeira a desmontar de seu grifo e colocar os pés no chão. Os precipícios formidáveis da ilha erguiam-se acima deles, e uma floresta de árvores harabaz gigantes cercava-os. Mas o foco de Akiri estava fixo no Casulo do Céu de Murasa, que assomava alto acima do emaranhado intrincado de galhos das árvores harabaz. A antiga ruína flutuante era maciça, coberta de vegetação e pequenas árvores de onde jorravam cachoeiras. Suas peças deslocavam-se nas correntes de ar e, mesmo do ponto de vista limitado do solo, Akiri percebia que seria uma escalada perigosa.

Ela sorriu. Adorava um desafio.

"Uau", Kaza disse, olhando para cima, "isso parece difícil. Ainda bem que ela nos contratou."

"Esta será uma aventura para as lendas", Akiri concordou.

"Devemos nos mover", Nahiri disse, saltando de seu grifo. "O Núcleo Litoforme está perto."

"Como saberemos onde encontrá-lo quando chegarmos lá em cima?" perguntou Zareth, de braços cruzados. Akiri lançou-lhe um olhar de aviso. Durante toda a jornada, ele estivera importunando Nahiri com perguntas sobre o Núcleo, nunca escondendo totalmente sua desaprovação.

Nahiri lançou-lhe um olhar fulminante. "Eu saberei." Ela virou-se e caminhou até onde Kaza e Orah examinavam suas mochilas.

"Isso não é uma resposta", resmungou Zareth, mas baixo para que apenas Akiri pudesse ouvir. "Não confio nela." Ele estendeu a mão para a de Akiri e entrelaçou seus dedos nos dela.

Akiri suspirou. Conseguia ver a tensão na postura dele, sentir a preocupação emanando dele.

"Eu sei", disse ela, "mas sinto que ela é extremamente protetora de Zendikar. Não consigo acreditar que ela a feriria, embora não saiba o porquê exatamente." Havia muitas coisas neste mundo que Akiri não entendia, e Nahiri era uma delas. Ela apertou a mão de Zareth uma vez, com firmeza, antes de soltá-la e dirigir-se aos outros. Um momento depois, ouviu os passos longos dele atrás dela.

"Qual o tamanho deste Núcleo exatamente?" Orah dizia enquanto passava uma bobina de cordas pelo ombro.

Nahiri franziu a testa. "Não tenho certeza."

"Bem", disse Kaza, alegremente, "eu provavelmente poderia levitá-lo se necessário. Ou explodi-lo. Eu com certeza consigo fazer isso."

"Anotado", disse Nahiri com um pequeno sorriso.

"E como sabemos que este Núcleo sequer vai funcionar?" disse Zareth.

Nahiri virou-se para ele e ficou imóvel, toda a sua expressão e sua postura tornando-se duras como pedra. Por um momento terrível, Akiri achou que ela ia atacar Zareth. Instintivamente ela se contraiu, prestes a entrar em ação.

Mas Nahiri foi mais rápida.

Em um borrão de movimento, Nahiri retirou a chave brilhante do bolso, ergueu-a em direção a Zareth e falou uma palavra que Akiri não entendeu. Akiri correu para frente mas foi detida por um clarão tão brilhante que precisou proteger os olhos.

"Zareth!" ela gritou, em pânico.

Levou um longo e agonizante segundo para sua visão clarear.

Quando clareou, Akiri notou duas coisas.

Primeiro, Zareth estava parado no mesmo lugar, ileso e piscando também. Akiri exalou, o alívio inundando-a.

Segundo, havia um grande e furioso pisoteador pairando no meio de um salto atrás de Zareth, congelado no lugar. Sua boca estava aberta, expondo suas longas presas, e duas de suas seis pernas estavam a centímetros dele, prontas para atacar. Estava claro que a fera feroz estava caçando para matar, e fora parada no último momento possível.

Akiri alcançou suas cordas, pronta para laçar aquela besta e amarrá-la.

Mas antes que pudesse, o pisoteador começou a derreter em areia. Em instantes, não restava vestígio da criatura exceto um punhado de grãos pretos.

"Isso", disse Nahiri, guardando a chave, "é apenas uma amostra do poder do Núcleo."

"Onde estava este Núcleo quando estávamos lutando contra os Eldrazi?" perguntou Akiri, sua voz em um sussurro de maravilha. "Nós precisávamos dele na época."

Nahiri ficou imóvel novamente, mas desta vez, seu rosto estava cheio de culpa e dor. "Devemos nos mover", disse ela, rigidamente. "Não devemos ficar no solo."

"Comecem a escalar as árvores", Akiri disse. Ela deu a Zareth e aos outros um aceno rápido. "Eu alcanço vocês em um minuto."

Akiri fingiu checar seu equipamento novamente enquanto os outros começavam a subir a árvore harabaz. Quando eles estavam fora de vista e ela mal conseguia ouvi-los, deixou seus ombros caírem. Esta seria uma aventura para as lendas.

"Se algum deus benevolente estiver ouvindo" — Akiri sussurrou para os precipícios e para as árvores. Ela raramente acreditava em algo mais do que estar preparada e ser rápida, mas hoje parecia diferente — "por favor, mantenha o meu grupo seguro hoje."

Não era muita coisa de oração, mas ela não gostava de incomodar os deuses. Akiri passou suas cordas pelo ombro e começou a escalar.

Pelo canto do olho, viu algo se mover. Retesou-se, virou-se e avistou uma mancha escura crescendo sob uma das árvores próximas, exatamente onde Nahiri usara a chave. Parecia um tentáculo de areia preta. Crescia lentamente, torcendo-se ao redor do tronco, definhando folhas, galhos e casca, transformando-os em algo rígido e imóvel.

Como pedra.

Akiri estremeceu.

Havia muitas coisas neste mundo que ela não entendia, e esta era uma delas.

Rapidamente, começou a escalar.

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Quando Jace chegou ao Portal Marinho, perguntou-se se estava começando no lugar certo. Sabia pelo que Nissa lhe contara em Ravnica que Nahiri estava aqui, em Zendikar. E deduziu que Nissa retornara a este plano também. A pergunta era, é claro, onde?

Portal Marinho, ele raciocinou, era um bom lugar para começar.

Ele não estivera aqui desde a batalha com os Eldrazi, quando a cidade fora praticamente arrasada até o chão. Na época, a torre do farol na entrada fora estilhaçada e a corrupção se espalhara por todas as ruas da cidade no rastro de Kozilek.

Agora, o farol estava reconstruído, alto e orgulhoso, e as ruas estavam brilhantes e limpas. Jace caminhava por elas, esperando encontrar Nissa, esperando ser capaz de consertar as coisas com ela novamente. Ela era sua amiga e, embora ele nem sempre tivesse sido um bom amigo, queria tentar ser um melhor.

Quem dera a Chandra estivesse aqui, ele pensou. Tentara encontrá-la antes de vir para cá, mas sem sorte. E Jace suspeitava que não tinha muito tempo antes de Nahiri agir em seu plano.

Então, perdido em seus próprios pensamentos, Jace não reagiu a princípio quando alguém o chamou.

"Ei, herói", gritou alguém atrás dele. "Você foi um dos defensores desta cidade durante a guerra, certo?"

Jace virou-se e viu uma mulher se aproximando dele. Ela vestia uma armadura leve de couro e metal, colorida em vermelho e dourado, com um manto verde-folha. Seu cabelo era preto e preso em uma trança, e seu rosto era marcado, mas seus olhos verdes e brilhantes brilhavam. Ou um olho, melhor dizendo. A metade direita do rosto dela era um emaranhado de cicatrizes que Jace reconheceu como feridas de corrupção. Sua mão direita estava encolhida, e ela tinha um leve mancar.

"Sim, sou eu", Jace respondeu.

"Imaginei", disse ela com um sorriso. "Lembro-me daquele manto azul. Eu estava lutando não muito longe de você."

"Estava?" Jace vasculhou suas memórias, mas houvera tanto caos naquele dia. Tanta ruína.

"É. Eu estava segurando um enxame de crias. Estava indo bem também~até que a corrupção me pegou." Ela deu de ombros.

"Sinto muito", ele disse, sem saber o que dizer. Subitamente, desejou que ele e os outros planeswalkers tivessem sido mais rápidos, mais decisivos durante aquela luta.

A mulher lançou-lhe um olhar curioso. "Não sinta. Consegui ajudar uma dúzia de pessoas a escapar antes de me pegarem. E se tivesse que fazer essa escolha de novo, não mudaria nada." Ela sorriu e Jace teve que admitir que era um sorriso encantador. "Meu nome é Mara. Estou indo para o memorial. Gostaria de me acompanhar?"

"Seria uma honra", Jace respondeu, e falava sério.

Juntos, caminharam até a enorme plataforma com seus seis hedros verticais. Juntos, ajoelharam-se na base de um deles. Ele ouvia Mara murmurando, pedindo perdão aos amigos que perdera na luta. Por não ter sido capaz de salvá-los. Por ter sobrevivido a eles.

O peito de Jace contraiu-se. Não sabia a qual de seus amigos devia pedir perdão.

Pensou em Nahiri e em como ela estava tão desesperada para voltar o relógio para este plano. Pensou em Nissa, que se culpava por tentar fazer o que era certo para o mundo que amava.

Pensou em Gideon, que se entregou voluntariamente por este plano.

"Eu também sou culpado", ele sussurrou, suavemente, tão suavemente que Mara ao seu lado não pudesse ouvir, "mas vou consertar as coisas."

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Infelizmente, nem todos no Portal Marinho eram tão acessíveis. Muitas pessoas aproximavam-se dele, mas eram em sua maioria vendedores ou aventureiros solo procurando um patrono. Ele não conseguia dar dez passos sem que alguém tentasse chamar sua atenção. Primeiro, perguntou por Tazri, uma general feroz na batalha contra os Eldrazi e sua amiga. Mas soube que ela estava fora, em Guul Draz, caçando alguma fera terrível. Então, redirecionou a conversa para perguntar se tinham visto alguém que correspondesse à descrição de Nahiri ou Nissa, mas os aventureiros balançavam a cabeça e os mercadores lançavam outro discurso de vendas.

Eventualmente, Jace ficou tão frustrado que conjurou uma ilusão para se disfarçar de tritão com uma longa barba branca, vestindo tons suaves de marrom e verde. Passou pelas ruas do Portal Marinho então, majoritariamente ignorado, embora desta vez, tenha espiado dentro das mentes de alguns dos aventureiros mais marcados e de aparência séria, esperando por vislumbres das outras duas planeswalkers.

Não encontrou nada.

Talvez por isso, quando entrou na Casa Expedicionária do Portal Marinho, percebeu que estivera procurando no lugar errado o tempo todo. A sala estava cheia de aventureiros em equipamentos novos e brilhantes ostentando o emblema da casa — um contorno vermelho denteado do Colar do Dragão. Todos riam alto e se gabavam de seus sucessos mais recentes.

"Posso ajudar?" perguntou um homem, perto da porta.

"Estou procurando pela chefe da casa", Jace respondeu. O homem ergueu uma sobrancelha e olhou Jace de cima a baixo.

"Certo" — Jace desfez o disfarce — "Sou Jace Beleren. Diga a ela que precisamos conversar."

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A chefe da Casa Expedicionária do Portal Marinho sentou-se à frente de Jace em uma das salas privadas, e Jace pôde sentir imediatamente a cautela dela.

Pergunto-me por quê? Ele lutou contra o impulso de espiar na cabeça dela.

A sala era confortável, com almofadas macias e chá colocado à sua frente. Havia mapas na parede e tinta e pergaminho no canto para contratos.

"Estou aqui para ajudar", ele disse a ela. Percebeu que teria que ganhar a confiança dela. De alguma forma.

Kesenya ergueu uma sobrancelha. "Ajudar como?"

Jace relatou o que Nissa lhe contara sobre o Núcleo. Enfatizou que queria encontrar uma solução razoável. Explicando que ele, Nissa e Nahiri trabalharam juntos no passado.

"Exceto que não sei onde Nissa ou Nahiri estão no momento", Jace concluiu.

A expressão de Kesenya era ilegível. Sabendo que não devia, mas ficando desesperado, Jace vislumbrou os pensamentos dela.

Zareth tinha razão, pensou ela.

Mas em vez disso, ela disse: "Receio não poder ajudá-lo."

Jace recuou ligeiramente, surpreso. "Você não está preocupada?"

"Eu estou preocupada", ela respondeu. "Ela levou o meu melhor grupo de aventureiros."

E estão procurando algo que talvez não devesse ser encontrado, pensou ela.

"Zendikar é um lugar belo", Jace disse, equilibradamente. "Quero a chance de argumentar com Nahiri antes que ela a mude. Mas preciso saber onde procurar."

Ele viu um momento de indecisão passar pelo rosto de Kesenya, e Jace ousou esperar.

Então a expressão dela endureceu.

"Sinto muito. Não posso ajudá-lo", disse ela, levantando-se. "Esta casa leva a sério a privacidade de seus patronos."

"Eu entendo", Jace disse, então baixinho, majoritariamente para si mesmo adicionou, "infelizmente, este mundo é bem grande."

"Sim. Se precisar de hospedagem, aqui está o endereço de uma estalagem respeitável", disse ela, pegando uma pena e um pedaço de pergaminho da mesa no canto e escrevendo rapidamente. "Boa sorte." Ela estendeu o pergaminho.

"Obrigado", Jace disse, pegando-o, o coração afundando. Perguntou-se se deveria usar seu poder para forçá-la a dizer o que ele queria.

Mas não, aquilo era cruzar uma linha. Jace quase podia ouvir Gideon repreendendo-o por espiar os pensamentos de Kesenya. Conseguia quase ver a carranca de desapontamento de Gideon.

Ele deixou a casa expedicionária, a cabeça a mil, tentando bolar sua próxima estratégia. Estava na metade da rua antes de olhar para o bilhete de Kesenya.

Nele estava o endereço da Estalagem Erudito e Mar. Mas rabiscada no fundo do pergaminho, havia uma única palavra: Murasa.

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Rastejador do Enxame | Arte de: Nicholas Gregory

Jace viajara para muitos planos e muitos lugares, mas Murasa era diferente de qualquer ilha onde ele já estivera antes. Não tinha certeza se gostava.

Para começar, os precipícios ao seu redor eram vertiginosos, mais altos que as torres mais altas de Ravnica, e sua face de pedra branca e pura prometia perigo. Ao seu redor, árvores harabaz massivas subiam ao céu e as raízes estendiam-se como arcos ao seu redor. Suas botas afundavam ligeiramente na areia úmida e grossa do solo e o cheiro de salmoura e kelp era quase avassalador.

Jace estremeceu. A Baía da Cisão o lembrava demais de estar preso nas selvas de Ixalan. Desejou ter sido capaz de trazer Chandra ou outro membro das Sentinelas com ele aqui, mas ninguém respondera ao seu chamado.

Felizmente, conseguia ver o Casulo do Céu acima dele, embora estivesse bem alto, e a caminhada parecesse traiçoeira.

"Bem, eu adoro um desafio", ele disse. Se seu tempo em Ixalan lhe ensinara algo, fora como criar calos nas mãos.

Ele ouviu antes de ver. Algo grande estava rasgando a fauna atrás dele, seus passos pesados fazendo o chão tremer. Jace virou-se bem a tempo de ver um monstro enorme e faminto emergir das árvores. Tinha seis pernas nodosas, um torso de caranguejo e suas costas estavam cheias de grandes cogumelos pálidos.

"Ah, agora não", siseou Jace e tornou-se invisível.

A criatura massiva parou, virando-se para um lado e para o outro. Bateu seus antebraços grotescos um contra o outro com um forte aplauso, fazendo os agrupamentos de cogumelos em suas costas vibrarem e sacudirem. Então, virou seu corpo massivo em direção a ele.

E investiu.

Jace rolou para fora do caminho. Um instante depois, a criatura chocou-se contra uma árvore atrás dele.

Droga, Jace pensou. Novo plano. Desfez sua invisibilidade e criou uma ilusão de si mesmo, posicionando o outro Jace o mais longe possível de si mesmo. O monstro pausou, olhando entre os dois planeswalkers. Bateu os antebraços novamente em um estalo ensurdecedor. Jace cobriu os ouvidos, fazendo uma careta. Quando olhou para cima novamente, a criatura o encarava fixamente.

Não fora enganada.

Está usando ecolocalização, ele percebeu um momento tarde demais.

O monstro investiu. Jace deslizou para fora do caminho, evitando-o por centímetros.

"Por que tudo neste plano quer me matar?" ele murmurou enquanto colocava dois dedos na têmpora e tentava dominar a mente da besta.

Mas o que quer que estivesse controlando este monstro, não era a sua cabeça.

E estava perto dele agora. Perto demais. Jace sentia as ondas de podridão emanando dele. O pânico subiu em Jace. Por que seu controle mental não funcionara?

Oh! É controlado pelos cogumelos em suas costas! Mas a percepção veio tarde demais de novo. A criatura ergueu seus antebraços massivos e retorcidos sobre ele.

Jace ergueu uma barreira e preparou-se para o impacto.

O impacto nunca veio.

Tão subitamente quanto o monstro chegara, outra coisa apareceu.

A princípio, Jace não conseguiu entender o que era. Lutando contra o monstro, havia uma segunda criatura que poderia ter se misturado às árvores ao seu redor; seu torso era grosso e cinza, mas seus membros eram idênticos às massivas raízes de árvore acima dele.

A segunda criatura golpeou o monstro uma, duas vezes com um thwack nauseante, desalojando alguns dos cogumelos bulbosos em suas costas. O monstro guinchou e recuou.

O que é você?, Jace pensou.

Seu salvador avançou, atingindo o monstro repetidas vezes. Jace percebeu que era como a personificação das árvores harabaz ao redor dele. Gigante, abrangente e indomável. A resposta atingiu Jace como um soco.

É um elemental. Jace girou, procurando o outro planeswalker.

Com certeza, Nissa estava empoleirada em uma das grandes árvores, mão estendida, parecendo totalmente a guardiã deste plano.

A expressão em seu rosto era absolutamente assassina.

Em segundos, o elemental harabaz destruiu o monstro, seu corpo mamute desabou no chão, quebrado e inerte.

"Você está bem?" Nissa perguntou, saltando de seu poleiro tão levemente como se fosse um mero degrau, não uma queda de seis metros.

"Sim", Jace respondeu. "Obrigado."

"De nada." Ela sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. Seu olhar deslizou para o elemental harabaz que rondava diante do cadáver do monstro como se o desafiasse a tentar de novo. "Eu nunca convoquei um elemental harabaz antes. Acho que o Gideon teria gostado."

de fato impressionante", Jace admitiu.

"Zendikar é impressionante", disse Nissa, rigidamente. "É claro que é."

Internamente, Jace se repreendeu. "Não tive a intenção de insinuar—"

"Eu sei", ela disse, suavemente. "Os elementais são apenas~realmente importantes para mim. Estiveram lá por mim antes de qualquer outra pessoa. Não posso deixar Nahiri feri-los."

Jace colocou uma mão no ombro dela. "Não pretendo entender completamente", ele disse, "mas estes elementais significam muito para você, então ajudarei a protegê-los."

Nissa abriu um sorriso, o primeiro que ele vira dela em muito tempo. Fez seu coração elevar-se.

"Obrigada", disse ela. "Nahiri subiu lá." Nissa apontou para o imponente Casulo do Céu.

"Como você sabe?"

"Zendikar me contou."

As sobrancelhas de Jace uniram-se em confusão. Ele nunca entenderia este plano. "Qual é a melhor maneira de chegar lá?" ele perguntou.

"Minhas vinhas", respondeu Nissa, mas então pareceu envergonhada. "Não são tão rápidas quanto o trabalho em pedra de Nahiri. Não será fácil. Você está pronto para isso, Jace?"

Ela mordeu o lábio e torceu as mãos à frente do corpo. Jace percebeu que ela esperava que ele recusasse.

O estômago de Jace contraiu-se de culpa. Era verdade, o antigo Jace teria dito não. O Jace que não sobrevivera a Ixalan com Vraska.

E em nome da amizade de Nissa, em nome das Sentinelas e das batalhas por vir, ele tinha que fazer isso.

"Sim", ele disse. "Estou pronto."

10/09/2020 | Por Miguel Lopez

Os Degraus de Magosi

Nota: Esta é a Parte 2 de uma história em duas partes. Certifique-se de conferir a Parte 1 antes de continuar a leitura.

A manhã encontrou o Entreposto de Magosi quente antes da aurora, típico da estação mas não menos desconfortável. A caravana de duas dúzias de mercadores tritões circulava pelo pátio de carregamento do entreposto, seus bois dos campos de pilares carregados e atrelados uns aos outros, vendados para a descida iminente pela escadaria. O sol tremulava subindo do horizonte distante, e Akiri fazia suas primeiras checagens das correias, arreios, vendas e cordas de guia que veriam os bois dos tritões descerem em segurança e calma. Os tritões eram responsabilidade de Zareth; estavam nervosos, mas Zareth fazia o seu melhor para confortá-los.

"Se você cair, mire no rio", Akiri o ouviu dizer enquanto passava em sua inspeção dos bois. Ela não conseguiu evitar rir, o que provocou uma série de perguntas preocupadas do mestre da caravana, a quem Akiri teve que passar outro quarto de hora tranquilizando.

"Pode ser que se você o vendasse, esta seria uma viagem mais fácil", disse Zareth, caminhando atrás de Akiri enquanto ela fazia uma terceira checagem nos bois.

"Acho que perderíamos o resto do nosso pagamento se eu fizesse isso", disse Akiri, puxando uma correia com força. Ela checou as cordas que seguravam os caixotes e fardos de mercadorias empacotados nas costas dos bois. "Embora certamente tornaria isto mais fácil."

"Alguma ideia do que estão carregando?" Zareth perguntou.

"Você quer que eu adivinhe, ou quer me contar?" Akiri disse.

"Este aqui tem frutas do interior", Zareth piscou. Ele produziu um pequeno punhado de bagas roxas escuras. "Quer uma? Acho que é élfica. Dá um barato legal, como chá matinal."

Akiri ergueu um dedo para repreendê-lo, mas parou conforme Zareth acenou com a cabeça por cima dela em direção ao líder da caravana que se aproximava.

"Nada mais disso", Akiri rosnou, então virou-se para o líder da caravana, sorrindo, assegurando-lhe que tudo estava bem e que estavam prontos para partir quando ele desejasse. Ela observou pelo canto do olho enquanto Zareth se afastava pela linha de bois, conversando com os mercadores tritões, rindo com eles, fazendo pequenos ajustes nos arreios das bestas, e de resto sendo gentil. Ela odiava o fato de observá-lo com suspeita. Não com desconfiança, pois conhecia bem Zareth e sabia onde o coração dele estava, mas certamente com decepção. Ela resolveu pôr um fim nisso. Mas primeiro, eles—

O chão tremeu. Um leve tremor, curto, acompanhado por um súbito ardor no calor da manhã, como se o sol tivesse se aproximado por frações. Os bois pararam seus bufos e grunhidos. Os tritões pararam sua conversa nervosa. Até Zareth pausou, firmando-se no chão que tremia, as mãos descendo para as facas gêmeas em sua cintura. De uma aurora úmida, calma exceto pelos nervos, o mundo subitamente se fez notar. O tremor durou apenas momentos, embora tenha parecido uma hora, um dia, um batimento cardíaco.

Akiri foi a única que não olhou ao redor com medo assim que passou. Ela fora pega de surpresa, com certeza, mas não estava com medo. Pelo contrário, conforme os tritões sussurravam e falavam em tons baixos sobre maus presságios, conforme o líder da caravana se inquietava tentando acalmar os bois, Akiri estava calma. Resoluta.

O Turbilhão — sumido brevemente após a derrota dos Eldrazi no Portal Marinho — estava de volta. Um lampejo dele ao menos: o lembrete de Zendikar de que a Batalha apenas salvara as pessoas que viviam nela, não o mundo em si. O Turbilhão, quando vinha, nunca precedia nada pequeno; era um arauto do incrível poder de Zendikar, da força do próprio mundo. Apesar de qualquer medo que Akiri sentisse quando o Turbilhão sacudia, ela dava as boas-vindas ao seu tremor. Se você viveu o que o Turbilhão fazia, entendia a escala da ameaça à sua frente.

Zareth caminhou até ela, as mãos ainda repousando nos punhos das facas. "Achei que tivéssemos parado o Turbilhão", disse ele. "Você acha que vai piorar?"

"Não", disse Akiri. "Uma vez que passa, passa, lembra? Devemos ficar bem nos degraus — são robustos o suficiente. O Umara é estável, e é por isso que sentimos apenas um tremor."

"E o Portal Marinho?"

"Provavelmente lidará com algumas ondas de tremor vindo do Halimar e do oceano além", disse Akiri, "mas a cidade permanecerá de pé."

Zareth olhou para os tritões e para a caravana. "E nós? Elementais? Ou—"

O seu aperto nas facas ficou branco, embora de resto ele permanecesse composto, calmo e frio.

"Não", disse Akiri. Ela estendeu a mão e, com um toque leve, levantou as mãos de Zareth de suas armas. "O Turbilhão passou. Deixe passar", disse ela. "Tudo o que temos que fazer agora é descer a escadaria, seguir para Coralhelm, e depois para o Portal Marinho."

Zareth assentiu, exalando. "Então continuamos o trabalho."

"Então continuamos o trabalho", repetiu Akiri. Ela olhou para além de Zareth para a caravana de tritões, que se agrupara ao redor de seu líder e conversava com ele em tons baixos e tensos. "Vejam como trememos pouco!" ela chamou para eles. "A rota que pegaremos para descer é esculpida nesta mesma rocha. Não há nada a temer."

Os tritões espalharam-se entre seus bois, conversando entre si. O líder deles aproximou-se de Akiri e Zareth.

"Aquilo foi o Turbilhão", o líder tritão disse. "Não apenas um terremoto. Você consegue sentir também, não consegue?" perguntou ele a Zareth. O líder tritão tocou sua mandíbula. "Aquele som aqui, antes do tremor."

Zareth assentiu. "Eu senti", disse ele. "Doeu, mas não pareceu um dos terríveis."

"Em todo caso", disse Akiri ao líder da caravana tritã, "este é o lugar mais seguro onde vocês podem estar em toda Zendikar. Daqui até o Portal Marinho, estamos em solo estável. Nossa maior preocupação é o calor."

"E quaisquer salteadores", disse Zareth, intervindo, "esses também valem a preocupação."

O líder da caravana recuou.

"Ele está apenas brincando", disse Akiri. Ela lançou um olhar severo para Zareth. "Você e seu povo ficarão bem, e os veremos em Coralhelm até o fim do dia."

O líder tritão olhou entre os dois. Akiri, tranquilizadora, e Zareth, sorrindo. Ele balançou a cabeça e afastou-se, para cuidar de seus outros deveres.

A caravana partiu pouco depois, os bois descendo pesadamente um a um o primeiro degrau do longo caminho em zigue-zague.

Nos degraus, apesar da agitação da caravana, o estrondo da Magosi dava a Akiri e Zareth certa privacidade em sua conversa.

"Aquele foi feio", disse Akiri. "Não sentia nada parecido desde a Batalha."

"Senti como se meu rosto fosse rachar", disse Zareth, massageando a mandíbula. "Não culpo estas pessoas por estarem assustadas", disse ele. "Profundezas, aquele ali me deixou preocupado."

Akiri ajustou seus ganchos e cordas. "Fique pronto, Zareth", disse ela, "não acho que este será um dia fácil."

Ambos sabiam, tendo vivido aquilo antes, a natureza do Turbilhão. Como um corpo lutando contra uma febre, o Turbilhão era a resposta de Zendikar a alguma dor mais profunda. O Turbilhão não era a ameaça, embora pudesse ser terrível. O Turbilhão era um aviso.

A Magosi despencava. Os degraus continuavam para baixo. A caravana, Akiri e Zareth continuavam para baixo, desaparecendo nas névoas rodopiantes que se desprendiam da Magosi e envolviam os degraus em uma névoa profunda e úmida.

Zareth San, o Trapaceiro | Arte de: Zack Stella

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A caravana parou bruscamente em algum lugar acima do ponto médio dos degraus, com nem uma hora de jornada. Aqui, a névoa da queda de Magosi era onipresente, encharcando tanto bestas quanto pessoas. Neste alto verão, o que deveria ser uma névoa refrescante cobrindo os degraus era, em vez disso, uma bagunça úmida e pegajosa, bloqueando qualquer visão a partir dos zigue-zagues. Com um vento forte, a vista era magnífica, mostrando toda a extensão do desfiladeiro inferior do Rio Umara serpenteando da Magosi até onde desembocava no Halimar, e a luz distante do Portal Marinho além do mar interior; neste raro dia sem vento, o paredão dos zigue-zagues gotejava água. Do lado oposto, uma parede de névoa mostrava apenas até o próximo zigue-zague abaixo. Os bois gemiam e bufavam, e seus condutores faziam o melhor para mantê-los calmos. O estrondo da cachoeira era onipresente, certamente tão angustiante para os caravaneiros quanto para os bois.

Akiri caminhava perto da retaguarda da caravana, conversando com um dos tritões sobre Coralhelm e sua culinária — peixe, tubarão, algas, crustáceos — o que se esperaria de um assentamento tritão (mas, como o caravaneiro prometeu, diferente de qualquer outro lugar. Melhor até que as iguarias do Portal Marinho, por estar mais perto da fonte). Akiri resolveu experimentar uma certa barraca que o caravaneiro recomendou quando ouviu Zareth chamando seu nome de algum ponto à frente na linha. Ela se desculpou da conversa e apressou-se até onde Zareth estava agachado, conversando com o líder da caravana e sua comitiva ao redor de um boi caído e gemendo. A criatura jazia atravessada no estreito zigue-zague, bloqueando toda a passagem, dividindo a caravana ao meio.

"Quebrou o tornozelo", disse Zareth. Ele ofereceu a Akiri um pedaço de pedra. "Parece um paralelepípedo solto, provavelmente erodido por causa de toda a umidade."

Akiri fez uma careta, pegando o paralelepípedo de Zareth. "Pobre criatura."

"Mmm", disse Zareth. Ele olhou para o boi, com uma expressão de triste simpatia. "Terão que sacrificá-lo, não há como carregá-lo para fora."

Mesmo enquanto ele falava, os ombros caídos do líder da caravana confirmavam a especulação de Zareth. O líder falou com sua comitiva e os instruiu a começar a remover as mercadorias das costas da besta. Ele virou-se, desculpando-se, para Akiri e Zareth. Atrás dele, um de seus subordinados moveu-se para a cabeça do boi e, com um corte rápido e firme, deu-lhe descanso.

"Temos que distribuir a carga dele entre os outros animais", disse ele, "e então descartar o corpo."

Akiri assentiu. "Faça o que for necessário, e nos avise se pudermos ajudar."

O líder da caravana agradeceu-lhe e voltou-se para o seu povo, deixando Akiri e Zareth de lado apenas observando. Os caravaneiros apressavam-se, mas descarregar um boi carregado sob circunstâncias normais já era lento — descarregar um que caíra e espalhara sua carga por uma escadaria estreita em zigue-zague ao lado de uma cachoeira estrondosa era uma tarefa inteiramente diferente.

Zareth encostou-se na parede do precipício e bebeu de seu cantil. Akiri juntou-se a ele, inclinando-se com os braços cruzados. Eles não conversaram, mas ficaram observando os tritões trabalharem.

"Você nunca esteve em Coralhelm?" Akiri perguntou a Zareth.

"Nem uma vez", disse ele.

Akiri não perguntou o porquê. Não era da conta dela. Zareth ofereceu-lhe um pouco de sua água, ela tomou um gole e devolveu o cantil.

Um grito rasgou o estrondo da cachoeira, seguido momentos depois por um coro deles, e pelo balido selvagem dos bois. Os tritões junto ao boi caído viraram-se e começaram a fugir da frente da caravana, gritando para que os outros fugissem também.

Akiri e Zareth levantaram-se da parede, partindo em direção à comoção, então pararam, congelados pelo que viram.

Não fazia sentido para Akiri; Zareth sabia o que era a criatura mas ainda não acreditava. O tamanho da coisa que assomava da névoa rodopiante. A água pingando do que deveria ser sua língua, sondando à frente a partir do nevoeiro. A forma escura da cabeça da criatura obscurecendo a luz do sol já difusa, mergulhando o zigue-zague em uma sombra profunda. O apêndice movia-se como fumaça baixa rastejando pelo chão de uma casa em chamas, rolando para frente com uma graça não concedida a coisas daquele tamanho, em desafio às regras que prendiam outros seres vivos.

Akiri e Zareth avançaram em direção aos tritões encurralados e em fuga, movendo-se em direção ao músculo nu e estendido da coisa que permanecia escondida na névoa e no estrondo da queda.

"Mantenha essa coisa longe deles", Akiri ordenou a Zareth. Ela soltou um laço de corda de sua mochila e o prendeu ao seu arnês de lançadora, então sacou o gancho Makindi-kor que Zareth lhe dera.

Zareth sacou suas lâminas gêmeas. "Não acho que possamos lutar com isso, Akiri."

"Temos que tentar", disse Akiri. Ela se contraiu, disparou em uma corrida e então saltou para fora do zigue-zague, voando no ar livre e na névoa rodopiante para enfrentar a coisa que esperava além.

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Como Akiri sequer começaria a descrever o monstro que espreitava atrás da névoa? Poderia ela abranger seu enorme volume em um pensamento? O número de dentes que alinhavam sua bocarra? Era vasto demais; em vez disso, ela via apenas momentos da besta que se enroscava, e soube que era um tipo de serpente, uma tão grande quanto o poderoso rio em que se escondia.

A água que caía da Magosi explodiu em vapor ao martelar o corpo sinuoso do titã. Ela não deveria ser capaz de se mover como se movia, fluindo para cima e para baixo da Magosi sem esforço. Esta era uma besta de lenda, alguma coisa que desafiava a classificação e permanecia solitária, um ser diferente de qualquer outro, sem comunidade ou parentesco. Um mundo em si mesmo.

Seria disso que o Turbilhão os avisara nesta manhã úmida? Ou seria esta coisa, esta serpente colossal, cujo corpo se estendia centenas de metros acima a partir de alguma piscina invisível na base da Magosi, o próprio Turbilhão em forma física e terrível?

A serpente retirou sua cabeça dos degraus, sua língua constringindo um par de tritões que estendiam a mão para ela antes de engoli-los. Seria esta serpente uma besta natural escondida por eras no coração profundo de Zendikar? Ou seria outra coisa aprisionada e libertada durante a Batalha, despejada neste mundo para flagelá-lo? Importaria isso para as pessoas que ela engolia? A serpente mergulhou sua cabeça de volta nos degraus em zigue-zague, faminta, procurando por mais.

A resposta não importava, Akiri percebeu; apenas o momento.

Akiri balançou-se por meio de uma ancoragem invisível, tendo lançado seu gancho principal na torrente rodopiante da Magosi, confiando que a ferramenta ancestral encontraria apoio em algum lugar atrás da água. Ela deixara sua faca longa presa firmemente ao seu quadril — precisava de ambas as mãos livres para este tipo de lançamento de cordas — e vira em sua primeira passagem ao redor do monstro que teria que chegar perto desta criatura para feri-la: sua largura dorsal era blindada por um couro espesso e viscoso de muco, dividido por barbatanas rígidas com pontas de lança. Seu enroscar interminável na cachoeira escondia sua barriga e tornava impossível atingi-la na coluna estrondosa da Magosi. Akiri, ao contrário da serpente, ainda estava presa pela gravidade — ela podia voar por corda, mas se balançasse muito perto das quedas, tinha pouca dúvida de que a água a derrubaria.

Akiri alcançou o fim do seu balanço, pousando em uma projeção no lado oposto da Magosi, ligeiramente acima do nível do zigue-zague de onde saltara. Pressionou a testa contra a rocha, com os lábios a menos de três centímetros da pedra úmida. O calor do dia ainda irradiava da face do precipício. O estrondo grave da água batendo na rocha em algum lugar lá embaixo podia ser ouvido mesmo a esta altura.

Os gritos. Akiri conseguia ouvir os caravaneiros e seus bois gritando. Aquilo a trouxe de volta—

À noite sombria do Portal Marinho, e ao terror lá. O inimigo era silencioso mesmo na morte. Sua espada enterrada na massa central de alguma coisa que se contorcia, e ela cuspia sangue icoroso sobre ela conforme morria e não fazia um som. Mas os gritos de seus camaradas ecoavam e colidiam com as ondas e o estrondo da alta magia.

ao presente com um propósito afiado.

Ela pode atingir a cabeça, talvez encontrar um olho — certamente a serpente tem olhos — ou algum outro ponto macio no couro grosso da criatura. Pode fincar sua ancoragem principal na face do precipício do outro lado da Magosi, balançar com ambos os braços e pousar nas costas da criatura. Uma vez lá, pode encontrar um caminho sob sua guarda: pode não matá-la, mas tudo o que precisa fazer é ganhar tempo suficiente para os tritões fugirem.

Akiri vira-se na projeção, firma-se e pula. Com graça inigualável, lança seu gancho principal, mirando em um ponto de ancoragem que avistara em seu balanço de travessia. Há um momento sem peso onde Akiri teme que seu gancho vá errar, ou que mesmo que atinja, falhe em morder, e a ponta única ricocheteie na rocha, e ela caia. Ela se preocupa que o tempo vá desacelerar durante essa queda, que vá sentir cada chicotada do ar rasgante conforme despenca. Ela preferiria não cair de jeito nenhum, mas se for para cair, que seja rápido.

Suas preocupações desaparecem conforme o seu gancho atinge, morde e segura o seu balanço através do ar enevoado. Arremessando-se para frente agora, ela encolhe os joelhos, solta com um puxão o gancho principal e, com sua mão livre, saca sua faca longa.

O impulso carrega-a para cima e para frente e ela voa, gritando um grito de guerra que escapa primevo das profundezas de suas entranhas — aquele lugar de medo, aquele lugar de raiva, aquele lugar clamando através dela por algum tipo de fim para a dor deste mundo — e então ela atinge as costas da serpente, segurando-se a ela pela pura obstinação de nós de dedos brancos e reflexos aguçados.

Ela lança seu gancho livre ao redor de um espigão próximo projetando-se das costas da serpente, onde ele dá a volta sobre si mesmo antes de prender sua própria corda. Akiri enrola a corda ao redor do antebraço, segurando-se às costas da serpente, capaz de se mover em um raio ao redor do espigão tão grande quanto a folga que ela deixa escapar.

Faca na mão, Akiri salta graciosamente para frente, os grampos em suas botas leves mordendo através da bainha mucosa da serpente o suficiente para dar apoio. O colosso não percebe; ainda está focado na caravana. A cachoeira estrondosa ameaça varrer Akiri das costas da serpente enquanto ela luta para subir por seu corpo em direção à cabeça. Ela não olha para baixo — sabe que é muito, muito longe — já que ser arremessada certamente significa a morte de todos no zigue-zague, e ver a distância que desaparece é demais; a serpente move-se sob ela, lânguida quase, sua forma colossal subindo pela Magosi que cai sem qualquer esforço aparente. Akiri cai de joelhos, segura-se firme à sua ancoragem e encrava sua faca o mais fundo que consegue no tegumento da serpente. Isso parece ter algum tipo de efeito: a ferida sem sangue contrai-se fechando e quebra a lâmina de sua faca em duas, tão fácil como se quebrasse um graveto.

Akiri segura-se firme. A serpente sobe na coluna descendente da Magosi. A água martela, fustigando-a. Tudo o que ela consegue ouvir é o rugido — o rugido do mundo, da própria besta, da dor inimaginável e, cruelmente, não eterna, mas sem idade — antes que o segmento da serpente a que se agarra irrompa da água. É como se a própria Zendikar a atacasse: a raiva do mundo está no vento do rio que cai e a martela, no frio cortante e na própria besta.

Akiri arrasta-se para frente. Mantendo sua corda radial ancorada esticada, ela solta um gancho livre e o lança para frente, pegando um espigão mais perto da cabeça. Ancorada em dois pontos, Akiri busca um caminho para frente e o encontra: ali, a uns doze metros à frente, estão os sulcos e cristas do bico dorsal da serpente, a parte superior de sua bocarra perversa — uma floresta de apoios para mãos e ancoragens de gancho para ela encontrar suporte, e certamente partes vulneráveis para ela ferir em seu esforço para afastar a serpente da caravana e—

Zareth. Ela espera que ele esteja vivo, espera que ele possa salvar os tritões ainda presos na escadaria. Akiri embainha sua faca quebrada e escala as costas da serpente gigante que sobe, se enrola e se contorce, puxando-se mão sobre mão por sua corda recém-lançada. Um momento em sua próxima ancoragem para recuperar o fôlego, para desenganchar sua radial e avistar o próximo ponto, então lançar—

E sua corda pegou a ancoragem. Akiri sorriu. Sua primeira. "Bom", a capitã de lançadores assentiu, sua voz um rosnado com tons de cascalho. "Viu ela fixar? Dê um puxão para ter certeza. Coloque todo o seu peso nela, kor; você precisa confiar que a corda vai te segurar!"

e escalar mais uma vez. Mão sobre mão. Encontre apoio onde puder. O fedor da serpente assim tão perto da cabeça a desorienta. Um vento chamado Apodrecimento e Fome bate contra ela, um vendaval rodopiante e nauseante, mas ainda assim Akiri escala; a esta distância, cada movimento da criatura ameaça arremessá-la. Quantas vezes maior que ela é apenas a cabeça da serpente? Certamente, se ela podia engolir um dos bois dos tritões inteiro, poderia devorá-la sem perceber.

Akiri segura-se firme enquanto a serpente investe mais uma vez contra os zigue-zagues, abocanhando um boi. Ela recua, arrastando um emaranhado de tritões com ela. Eles caem antes que Akiri possa fazer qualquer coisa para ajudá-los, seus gritos perdidos no estrondo da Magosi.

Tudo perdido no estrondo da Magosi.

Akiri saca sua faca quebrada, seu alvo avistado: Olhos. Orbes pretos e sem feições espiando de lado de sua boca, pelo menos dois no lado que ela conseguia ver, provavelmente espelhados no lado que não conseguia. Um golpe ali para cegá-la, para distraí-la, para enviá-la cambaleante para longe dos zigue-zagues e para as profundezas atrás da Magosi — esse era o plano.

Akiri não vê a segunda cabeça subindo da base da poderosa cachoeira que despenca. Menor, mas ainda maior que ela, move-se rapidamente contra uma corrente que deveria tê-la reduzido a polpa, bocarra escancarada.

A serpente não ignorara Akiri. Pelo contrário, durante sua luta heroica, ela a observara de baixo com sua segunda cabeça, e fosse cruel ou curiosa, permitira que ela chegasse tão perto antes de atacar.

Akiri ergue sua faca quebrada para golpear, mas antes que consiga, ela é derrubada de sua mão pela língua grossa e fedorenta da segunda cabeça da serpente. Ela vira-se a tempo de vê-la investir contra ela — presas do tamanho do seu antebraço, gengivas brancas e sem sangue, uma goela revestida de dentes menores — e é salva apenas por seus reflexos sobrenaturais.

Akiri pula, olhos aguçados avistando uma ancoragem de onde pode voar.

A segunda boca a pega no meio do ar, dentes e farpas bucais raspando em sua armadura. Akiri solta um grito de surpresa, e depois de medo, e perde sua ancoragem.

A segunda boca a arremessa para o lado, para o ar livre.

Akiri não está mais voando.

Akiri está caindo.

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Verazol, a Corrente Dividida | Arte de: Daarken

Zareth sabe o nome da serpente: Verazol. Todos os tritões na caravana a reconheceram assim que sua cabeça assomou da névoa. Verazol, o Flagelo do Umara, o demônio da Magosi, a morte do Halimar. Ele lembra das pequenas estatuetas de coral de Verazol que alguns tritões mantêm em suas casas; quando criança sua família tinha uma também, na época em que os tritões tinham lares e não apenas lugares para morar.

Verazol era uma lenda, um mito, um deus para alguns. Eles não podem pará-lo: tente matar um rio ou destruir um oceano. Erga seu braço e abata um mundo. Claro, havia alguns que podiam fazer isso—

Uma noite de febre e poeira de cinzas iluminada apenas pelo fogo e pelas explosões cromáticas no alto, cada rajada como uma aurora em um batimento cardíaco.

mas não Zareth, e mesmo com toda a sua graça e habilidade, não Akiri.

Então Zareth corre. Ele escala de volta pelo zigue-zague, para longe da língua fustigante de Verazol, empurrando alguns tritões atrasados diante dele.

"Deixem isso!" Zareth grita, arrastando os tritões para longe de suas tentativas frenéticas de virar seus bois. "Deixem isso! Corram!"

Os bois balem em pânico, tropeçando para trás. Zareth tem espaço suficiente para se pressionar contra a parede do precipício e evitar o progresso pesado deles, mas um dos tritões não tem tanta sorte. Zareth estende a mão para o tritão caído, mas a língua de Verazol dispara para frente a partir da névoa, um tronco ondulante de músculo fumegante, e agarra o caravaneiro caído.

Zareth recua um passo de onde o caravaneiro caído estivera não segundos antes. A Magosi ruge em seu tombar estrondoso e interminável. Correr faz sentido, exceto por uma razão soberana:

Akiri.

Ela ainda está lá fora, em algum lugar, tentando lutar contra este monstro.

Zareth vira-se para encarar a névoa atrás da qual a serpente lendária espreita. Ele não pode deixar sua amiga de novo, mesmo que estivesse com medo — mesmo que não pudessem vencer esta luta, ele lutaria ao lado dela.

Para ser um desabrochar da primavera que virá.

Com um cuidado quase deliberado, Verazol sonda sua cabeça a partir da névoa da cachoeira. A ponta de seu bico corta a água como a quilha blindada de um navio, goivada e marcada por lendas e bestas que consumira em anos há muito passados. As facas de Zareth, mortais em sua escala, são farpas inúteis contra Verazol. Ainda assim, ele as ergue, e então para. De alguma forma, através da água estrondosa, ele ouve um som que o gela até os ossos. Um som horrível, mais frio que qualquer profundidade de salmoura ou vento uivante.

Akiri, gritando.

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A primeira queda de Akiri foi de uma altura curta para um colchão macio recheado com lã de cordeiro bruta. Esta foi uma queda planejada, a primeira parte do treinamento de qualquer lançador de cordas. Aprender a sentir como é a sensação de cair.

Sua segunda queda veio ao longo de um curso de prática de lançadores no extremo norte de Tazeem. Ancoragens robustas alinhavam ambos os lados do desfiladeiro raso, que era preenchido com água parada e profunda, um lago alimentado por inúmeras nascentes naturais. Lá, Akiri aprendeu como suprimir e — com o tempo — ignorar o medo de cair pelos preciosos segundos que se tinha no topo de uma queda. No alto, caso uma ancoragem falhasse, uma corda arrebentasse ou um lançamento errasse, você tinha uma janela de tempo para se salvar; lançadores aprendiam a não desperdiçar esse tempo tendo medo.

Sua terceira queda — sem contar as centenas que suportou naquele desfiladeiro distante — foi sua primeira queda real. Trinta metros de altura na face de uma escarpa íngreme no Baluarte, perseguindo um bando de salteadores habilidosos. Ela estava sobre eles quando a vela de voo que usava nas costas pegou uma rajada da forte corrente ascendente do Baluarte, estourou suas travas e a arremessou no ar. Até hoje, ela se recusava a usar uma vela de voo: sim, ela a salvara daquela queda, permitindo que deslizasse em segurança até o chão uma vez que recuperara o controle dela, mas a arremessara para longe da segurança primeiro.

Sua quarta queda foi esta.

Ela não entra em pânico (ela entra, mas ela contém o pânico, suprimindo-o com décadas de treinamento e experiência instintiva).

Ela avista o acidente geográfico mais próximo (os degraus em zigue-zague molhados e envoltos em névoa ao lado da Magosi. O corpo da serpente desliza para dentro e para fora dos zigue-zagues e da coluna da cachoeira. Ela não tem muito espaço com que trabalhar).

Ela lança seu gancho (seis metros? Nove? Um lançamento longo, em todo caso).

Ele morde, e Akiri segura-se firme através do balanço que se segue, batendo contra os zigue-zagues bem abaixo da caravana e do volume do corpo da serpente, ainda a uns trinta metros acima do fundo do desfiladeiro. Sem fôlego, ela consegue o mais graciosamente que pode se desvencilhar da corda e se afastar da borda. Um inventário rápido mostra nada quebrado, mas suas pernas estão cobertas de cortes e farpas arrancadas de dentro da boca menor da serpente. Ela arranca as farpas e as joga de lado, ignorando a dor. Consegue caminhar, e assim que fizer um curativo nessas feridas, poderá começar a subir os zigue-zagues para—

O ar muda. Frio quando ela pousou, o ar subitamente corre quente e espesso com fedor.

Akiri levanta os olhos de sua triagem.

A cabeça principal da serpente assoma de cima, mergulhando Akiri na sombra. Ela busca sua faca, mas para, lembrando que a perdera na queda.

Sem nada, Akiri congela.

A goela escancara-se.

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Zareth desliza até parar na borda do zigue-zague, inclinando-se o máximo que ousa, esperando o máximo que ousa que Akiri tenha conseguido. O que ele vê faz um xingamento escapar dele, arrebatado pelo vento forte do precipício.

Verazol acuou Akiri. O balanço dela a levou a um zigue-zague uns doze metros abaixo, e agora a cabeça maior da grande serpente paira exatamente no nível dela, seu corpo titânico derramando-se e ondulando no ar livre. Pior, a segunda cabeça de Verazol dirigia-se a eles, menor mas não menos monstruosa na escala de Zareth.

Zareth recua da borda. Ele pragueja. Ele comprara aos caravaneiros algum tempo, mas comprar tempo não impediria Verazol de atacar até que tivesse comido o que quisesse. Sozinho, ele não tinha chance contra a serpente lendária; juntos, ele e Akiri não tinham chance, mas poderiam ao menos sair vivos.

Uma distração. Algo para distrair Verazol para que pudessem escapar. Um dos bois mortos, já perto da borda do zigue-zague.

Zareth pragueja de novo, anda de um lado para o outro, pragueja contra o plano terrível que se forma. Ele golpeia suas facas de volta em suas bainhas, trava-as com firmeza e bate as mãos.

"Vocês", ele chama um grupo de tritões. "A segunda cabeça está vindo. Ajudem-me com isto. Vamos distraí-la para podermos correr", ele grita, apontando para o boi morto.

Os caravaneiros hesitam, mas Zareth os protegera, então, como um só, eles se apressam para ajudar. Com grande esforço, empurram o cadáver do boi pela borda do zigue-zague. Ele cai, dando voltas sobre si mesmo, e atinge em cheio a cabeça principal de Verazol, ricocheteando para continuar sua longa, longa queda. A cabeça principal de Verazol guincha, recua e olha diretamente para cima para eles.

Zareth rola para longe da borda, levantando-se e ficando de pé. Os tritões começam primeiro a falar preocupados, depois a gritar, depois a berrar, conforme a cabeça principal de Verazol sobe de baixo. Boca serrilhada bem aberta, hálito um sopro quente como fornalha, Zareth vê em Verazol a raiva de Zendikar encarnada, distorcida pelas coisas terríveis que foram aprisionadas aqui. Os olhos pretos e sem feições da serpente refletindo os Eldrazi abjetos e sem vida — aqueles seres terríveis que o povo de Zareth outrora chamou de deuses — e o Turbilhão. A prisão e o prisioneiro, ambos irrevogavelmente envenenados pelo outro. Agora era a vez dele de enfrentá-lo, e ele sabia o que tinha que fazer.

Zareth tenta acalmar sua respiração, ficar imóvel e contraído conforme os tritões ao seu redor correm, em pânico, tentando escalar uns sobre os outros e fugir. Zareth mantém sua visão através da multidão nos movimentos da grande serpente, pronto, esperando.

Verazol recua e investe para frente.

Zareth dispara em direção à serpente — dois, talvez três passos, empurrando para o lado um caravaneiro tritão que se coloca em seu caminho — e então mergulha. A bocarra dividida de Verazol raspa de cada lado do salto de Zareth, passando tão perto que as farpas engancham em suas roupas, mas não o pegam, não o param.

Zareth pula no ar livre e cai a sua primeira queda real.

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Akiri observa de baixo conforme a serpente investe contra o zigue-zague. Ela solta um grito quando toda a face do precipício estremece, conforme a grande golfada de rocha estilhaçada e poeira explode com a força do golpe da criatura titânica. Ela assiste em horror conforme tritões e pedaços de tritões caem com a rocha em queda e os degraus despedaçados, conforme bois e uma chuva de mercadorias de troca cintilantes e artesanatos destinados a Coralhelm descrevem arcos no ar livre.

Seu grito morre na garganta quando ela o vê.

Zareth, caindo.

Ele passa voando por ela silenciosamente. Ela vê que os olhos dele estão fechados e que ele não tem arnês de lançador nem corda. Akiri tropeça para frente, ignorando a serpente que se farta com a pobre caravana acima, e cai pela borda, gancho e corda na mão.

Ela cai, pegando a mão estendida de Zareth, puxando-o para perto para se firmarem bem antes que sua corda que vem atrás pegue uma ancoragem, puxando ambos em uma parada de tirar o fôlego.

Eles balançam, ambos arquejando em busca de ar, Akiri gemendo de dor e Zareth silencioso. Em algum lugar bem acima, o terror se farta, mas aqui embaixo, são apenas os dois. Não conseguiam nem ver o corpo do colosso; aqui embaixo, a uma distância indeterminável do chão, o estrondo da Magosi era onipresente.

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Algum tempo depois, Akiri percebeu que Zareth estava falando com ela. Ela não conseguia distinguir o que ele estava dizendo através do som obliterante da Magosi. Ele gritou de novo, e Akiri não pôde ouvir. Finalmente, ele encostou os lábios no ouvido dela e falou mais uma vez.

"Eu não tive escolha."

E Akiri sabia que ele tinha razão. Ela estava furiosa, mas Zareth tinha razão, mesmo que seu raciocínio começasse e terminasse na tragédia do dia. Zareth não tivera escolha, ela não tivera escolha, nenhum deles tivera; a serpente os teria matado se tivessem ficado, teria matado todos que não fugissem dela. Zareth forçara a mão dela, fizera com que ela o salvasse e, ao fazê-lo, deu a ela algum abrigo contra a vergonha. Pelo menos seu amigo estava vivo. Pelo menos eles ainda podiam lutar.

Akiri queria dizer a Zareth que estava tudo bem, que ele fizera a coisa certa, mas não podia, pois não havia coisa certa possível para ele fazer, nenhum espaço para nada além de um cálculo brutal; a escolha de Zareth significava que o esforço deles continuaria, mas sua escolha fora terrível, e ele carregaria consigo os espíritos dos mortos que condenara. Akiri permaneceu em silêncio e segurou seu amigo enquanto ele soluçava como fizera naquela aurora após a Batalha. As mesmas duas pessoas, novamente os únicos sobreviventes.

"Não havia mais nada que você pudesse fazer", disse Akiri, sussurrando para Zareth e para si mesma. A verdade brutal deste momento: em Zendikar, eles não tinham escolha exceto as opções sombrias apresentadas a eles. Para mudar suas opções, teriam que mudar o mundo.

O vento, algum tempo depois, afastou a névoa, o calor e a grande serpente Verazol.

Akiri e Zareth conseguiram chegar ao fundo da Magosi. Esperaram um dia, mas ninguém mais os seguiu.

Evitaram Coralhelm na estrada de volta ao Portal Marinho.

16/09/2020 | Por A. T. Greenblatt

Episódio 3: A Escalada Perigosa, a Longa Queda

Mar de Nuvens | Arte de: Sam Burley

Conforme Nahiri escalava, ela sorria. O Casulo do Céu de Murasa assomava acima dela, aproximando-se a cada passo. Logo, todas as feridas deste plano seriam curadas. Com o Núcleo Litoforme, ela apagaria o Turbilhão e tornaria Zendikar tão bela e tranquila quanto fora milênios atrás.

Como ela a lembrava.

Ela notou a respiração ofegante de Akiri, Zareth, Orah e Kaza atrás dela, mas não diminuiu seu passo vertiginoso. Não quando estava tão perto de seu objetivo.

Em vez disso, ela moldava na pedra mais e mais degraus, que clicavam e deslizavam para o lugar conforme ela os subia de dois em dois.

Eles escalaram acima das árvores harabaz e dos precipícios imponentes da Baía da Cisão, até onde o ar cheirava a limpo e frio. Escalaram até onde gotículas das cachoeiras das ruínas encontravam suas roupas encharcadas de suor e tornavam o apoio precário. Escalaram até que Nahiri pudesse quase tocar os entalhes intrincados nos alcances mais baixos do Casulo do Céu.

Foi só então que Nahiri precisou de seus companheiros. Os olhos aguçados de Zareth, a firmeza silenciosa de Orah, o pensamento rápido de Kaza e as habilidades magistrais de lançamento de cordas de Akiri. Porque ao redor deles, o Casulo do Céu flutuava em pedaços e fragmentos. Algumas áreas eram grandes o suficiente para cachoeiras, árvores e patamares. Algumas eram apenas tão largas quanto Nahiri. Hedros perdidos pontilhavam os espaços entre as ruínas, brilhando à luz do sol.

Nahiri fechou a cara.

Ela fizera aqueles hedros. Séculos atrás, quando pensou que prender os Eldrazi em Zendikar era o melhor curso de ação. Naquela época em que Sorin e Ugin estavam ao seu lado sussurrando garantias de que estariam sempre lá quando ela precisasse deles.

Agora, os hedros estavam espalhados e inclinados em ângulos não naturais, e Zendikar carregava cicatrizes profundas da ira dos Eldrazi.

Tudo será retificado em breve, Nahiri pensou, rangendo os dentes. Ela prosseguiu.

Quanto mais alto escalavam, mais traiçoeira a paisagem se tornava. Clarões do sol atingiam em momentos inesperados, as ruínas estrondavam e gemiam sob seus pés, e os apoios para as mãos estavam escorregadios de água e algas. Eventualmente, nem Nahiri conseguia dizer quais pedras os segurariam e quais eram como aliados temperamentais, parecendo sólidos e confiáveis até que se colocasse alguma pressão sobre eles. Mais de uma vez, alguém no grupo perdeu o equilíbrio e Akiri os agarrava com suas cordas ou Nahiri com sua litomancia. Exigia reflexos instantâneos e, no momento em que alcançaram a maior das ruínas, os nervos de todos estavam em frangalhos.

"Por que caminho agora?" Akiri perguntou, aproximando-se de Nahiri.

Diante delas, o Casulo do Céu de Murasa era um labirinto de canais imponentes de calcário entalhado, onde musgo crescia nas fendas e pontes esbeltas e perigosas cruzavam quedas sem fundo.

Foi aqui que Nahiri entendeu que este Casulo do Céu era uma armadilha mortal.

"Vamos descobrir", disse ela, sorrindo. A antiga kor colocara um desafio mortal diante dela, e Akiri o aceitara de bom grado.

Nahiri retirou a chave do bolso. Ela brilhava suavemente e pulsava em sua mão. Ela a ergueu em direção às ruínas ancestrais.

E as ruínas ancestrais responderam.

As pedras aos pés deles começaram a brilhar e a latejar em um ritmo sincopado com a chave, e pedras ao redor do grupo se iluminaram. Então as pedras brilhantes se estenderam em uma linha única para o fundo das ruínas. Atrás dela, Nahiri ouviu Orah arquejar.

"Um caminho", disse Akiri, com admiração.

"Sim", respondeu Nahiri, "mas cuidado onde pisa. Este Casulo do Céu é velho. E não gosta de visitantes." Ela viu Zareth dar um aperto no ombro de Akiri, e Akiri colocou uma mão sobre a dele. Orah trocou olhares com Kaza.

"Anotado", Kaza disse, alegremente.

Nahiri sorriu. Aventureiros de verdade.

Seguiram o caminho de pedras iluminadas em silêncio, seus instintos dizendo que estavam sendo guiados por magia antiga e poderosa. Zareth, sendo o mais rápido e silencioso do grupo, frequentemente fazia o reconhecimento à frente. Ele encontrou armadilhas cheias de veneno e arcos esperando para desabar e os guiou em segurança ao redor de tais ameaças.

Essas eram apenas uma fração dos perigos no Casulo do Céu gasto pelo tempo.

À distância, ouvia-se sempre o som de pedra desmoronando conforme hedros colidiam nos espaços ao redor deles. Nas sombras de colunas e fendas, ouviam o arranhar de garras invisíveis. Mas sempre que as sombras chegavam perto demais, Nahiri fazia um hedro estalar com energia azul, e as sombras recuavam.

Exceto por aquela única exceção, porém, Nahiri e seu grupo de aventureiros passaram sem serem molestados.

Como se o Núcleo quisesse ser encontrado.

O pensamento fez Nahiri sorrir.

O caminho terminava em uma parede maciça, coberta de ladrilhos que formavam um padrão vertiginoso de formas geométricas e linhas. Na base da parede, o caminho de pedras brilhantes lampejou mais uma vez e depois se apagou. Não havia outras entradas ou rotas à vista.

"E agora?" Zareth perguntou, cruzando os braços.

"Talvez possamos explodir", Kaza sugeriu, sem esconder a esperança em sua voz.

"Não", disse Nahiri. Com uma das mãos, ela apertou a chave contra o peito. Com a outra, colocou a palma na parede. Fechou os olhos, sentindo as vibrações minúsculas sob os dedos. Na fala da pedra — aquela bela e silenciosa linguagem — ela perguntou: "Como faço para passar por você?"

A resposta da parede veio em vibrações mutantes, conduzindo-a para baixo até onde os ladrilhos encontravam o chão. Ela seguiu o movimento invisível da pedra até um ponto rebaixado e sem ladrilhos bem na base.

Um ponto do tamanho exato da chave em sua mão.

Nahiri sorriu ao deslizar a chave no compartimento vazio.

Ali, ela pulsou e brilhou intensamente, iluminando os ladrilhos em uma reação em cadeia até que toda a parede estivesse resplandecente. Atrás dela, ouviu os aventureiros soltarem um leve arquejo.

"Abra", Nahiri comandou em kor ancestral.

E a entrada abriu. Dobrando-se a partir da base, ladrilho por ladrilho, como se fosse uma cachoeira invertida, ecoando como chuva nas ruínas vazias.

Momentos depois, o grupo encontrou-se diante de uma grande caverna.

"É só isso?" Kaza perguntou, sem se impressionar. "Qualquer um conseguiria fazer isso."

"Muito poucos conseguem ler as runas", respondeu Nahiri, "ou falar a língua esquecida."

"Além disso, ninguém é insano o suficiente como nós para fazer esta escalada", disse Akiri. A mulher kor estava sorrindo, algo que Nahiri não a vira fazer antes. Ela dirigiu-se para dentro da caverna. "Venham. Vamos reivindicar este tesouro."

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Motor Litoforme | Arte de: Colin Boyer

Akiri fez com que Orah e Kaza ficassem de guarda no fundo da caverna, perto da saída. Sabia que tinham tido uma sorte extrema até agora durante este empreendimento. Mas Akiri era uma escaladora e aventureira experiente demais para esperar que aquela sorte durasse.

Perdera seu primeiro grupo de viagem para os Eldrazi anos atrás. Ela se recusava a perder o segundo também.

Estar preparada, mas ser rápida nos pés. Era tudo o que ela podia fazer.

Juntas, ela, Zareth e Nahiri cruzaram a câmara em direção ao centro da sala, ao objeto que comandava toda a atenção delas.

O objeto que era impossível de ignorar.

Sobre um estrado elevado à frente delas havia um monólito de granito escuro e polido, afilado em uma ponta e dividido ao meio. Feixes de luz entravam pelo teto, angulando-se em direção ao monólito, e hedros dançavam ao seu redor. Estalos agudos de relâmpagos sombrios, faiscando entre os hedros e o monólito, pontuavam o silêncio da sala.

Conforme se aproximavam, o topo do monólito levantou-se, e entre as duas metades do granito, brilhando como um farol sombrio, estava o Núcleo Litoforme.

Se Akiri fosse honesta, o Núcleo não parecia muito. Era pequeno, algo que caberia na mão dela, embora grande o suficiente para que ela não conseguisse fechar completamente os dedos ao seu redor. Brilhava como uma pequena estrela, mas era desadornado, quase simples.

Mas Akiri aprendera há muito tempo que às vezes os artefatos — ou pessoas — mais poderosos eram os mais despretensiosos.

Akiri parou a alguns metros do estrado, tensa e pronta. Buscou a mão de Zareth ao seu lado, confortando-se com o seu calor. Nada sobre o Casulo do Céu parecia estável.

Nahiri continuou avançando.

Cada vez mais perto ela caminhou, até que Akiri viu a face de Nahiri refletida no monólito. A expressão de Nahiri era de pura determinação.

"É isto", Nahiri sussurrou. "Isto mudará Zendikar para sempre."

Ao lado dela, Akiri sentiu Zareth recuar. Todas as suas preocupações e seus medos sobre o Núcleo transmitidos em um único movimento involuntário.

Em um impulso, Akiri moveu-se em direção ao estrado, pretendendo pegar o Núcleo, sabendo que provavelmente estaria armadilhado. Zareth colocou uma mão preocupada em seu ombro, mas ela lhe deu um aceno tranquilizador e continuou. Suspeitava que se fosse rápida o suficiente, sutil o suficiente, poderia evitar disparar qualquer armadilha que estivesse à espera.

O Núcleo brilhou forte e agudo conforme ela se aproximava, como que em aviso. Ela achou detectar os mais sutis sussurros vindo dele, como orações abafadas. Ou ameaças.

Por Zendikar, pensou ela, e engolindo seus nervos, Akiri estendeu a mão.

"Cuidado." A mão de Nahiri prendeu-se em seu pulso em um instante. Akiri virou-se para olhar para Nahiri. Os relâmpagos estalando acima iluminavam o rosto dela, e havia um brilho novo e perigoso em seus olhos. Algo que Akiri não vira antes, nem mesmo quando Nahiri enfrentou um pisoteador na Baía da Cisão.

Anos de lançamento de cordas ensinaram a Akiri quando avançar. E quando recuar.

Espere. Observe, pensou ela, e desceu para ficar ao lado de Zareth novamente. Encontrou a mão dele e a apertou. Ele apertou de volta.

Melhor deixar o artefato ancestral para a estranha ancestral, pensou ela. E uma pequena parte dela ficou aliviada por não ser ela no estrado.

Com a respiração presa na garganta, Akiri observou conforme Nahiri erguia uma palma sob o Núcleo Litoforme, cerrava os dedos ao seu redor e lentamente o puxava para si.

Por um momento, houve apenas silêncio. Apenas o tempo suficiente para Akiri soltar a respiração. Apenas o tempo suficiente para ela ter esperança.

Então, ouviu-se um estalo ensurdecedor, e a câmara circundante estava se desintegrando, caindo, despedaçando-se.

A sorte acabou, pensou Akiri. Ela virou-se e gritou: "Nahiri, precisamos sair — agora!"

À sua frente, Orah e Kaza já estavam correndo. Atrás dela, viu Nahiri disparando degraus abaixo do estrado, enfiando o Núcleo em uma bolsa no quadril. Ao lado dela, Zareth mantinha o passo com as longas passadas de Akiri.

Mas mesmo enquanto corria, Akiri sentia o chão tremendo sob seus pés, e percebeu que aquilo não era apenas a armadilha do Casulo do Céu de Murasa em ação.

O Turbilhão sacudia a terra e o céu conforme o Casulo do Céu se despedaçava. Talvez estivesse reagindo à magia liberada. Talvez fosse apenas má sorte. Akiri não sabia.

À frente dela, o chão sob Orah e Kaza deslocou-se e ondulou como uma onda.

"Cuidado!" gritou ela, mas outro estalo estrondoso abafou o seu aviso.

O chão de pedra deslocou-se e estilhaçou, e Kaza e Orah foram arremessados para trás. O solo onde estavam inclinou-se em ângulos cada vez mais agudos até que a maga e o clérigo estavam lutando para se segurar pelos dedos.

Então o chão estremeceu. Kaza e Orah gritaram, perdendo seu apoio precário. Caíram, desaparecendo de vista.

"Não!" Akiri gritou. Ela derrapou até a borda, lenta demais, tarde demais para ajudar.

Um agonizante momento depois, bem abaixo, Kaza apareceu, pairando em seu cajado mágico, com Orah agarrado à sua cintura.

Akiri exalou, o alívio inundando-a.

"Continue!" Zareth gritou. Mas ela não tinha certeza se ele falava com os membros separados do grupo ou com ela.

Ambos, pensou ela, e correu.

O medo torceu o estômago de Akiri enquanto ela disparava e as estruturas ao seu redor estilhaçavam e davam lugar ao céu vazio. Será que Kaza e Orah sairiam vivos? Teria ela levado seu grupo para a morte?

Não, eram pessoas boas e talentosas. Isso não seria como seu primeiro grupo de aventureiros. Estariam seguros.

Tinha que acreditar nisso.

Agora, precisava focar em garantir que Zareth e Nahiri também alcançassem a segurança.

Porque tudo o que podiam fazer agora era tentar sair vivos do Casulo do Céu.

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Akiri, Viajante Destemida | Arte de: Ekaterina Burmak

Nahiri correu, lutando para manter as ruínas unidas com sua litomancia tempo suficiente para que cruzassem as precárias pontes de pedra. A tentação de transplanar para a segurança passou por sua mente. Mas não, ela cansara de abandonar Zendikar em sua hora de necessidade. O Casulo do Céu de Murasa lhe oferecera um desafio, e ela estaria à altura.

Em sua bolsa ao lado, achou sentir o Núcleo sussurrando, mas Nahiri não teve tempo para ouvir.

Porque o Casulo do Céu estava se despedaçando sem o Núcleo. E o Turbilhão, o maldito Turbilhão, estava levantando ventos ao redor deles e tornando uma situação perigosa mil vezes mais caótica.

Ela não conseguia manter o Casulo do Céu de Murasa unido e conter o Turbilhão ao mesmo tempo.

Ao menos, não ainda.

Então, correu atrás de Akiri e Zareth, a raiva se acumulando dentro dela.

Chegaram a um beco sem saída. À frente deles, ilhas de ruínas cobertas de árvores flutuavam com nada entre elas exceto o céu vazio e alguns hedros. Com um lançamento magistral, Akiri lançou sua corda e prendeu-se em uma borda à deriva.

"Rápido!" disse ela, antes de balançar-se para a plataforma maciça e inclinada abaixo deles. Zareth lançou outra corda, e Nahiri preparou a dela, mas um enorme vórtice rodopiante de ventos à distância captou sua atenção.

Seu atraso momentâneo foi longo demais. Antes que ela ou Zareth fizessem o salto, o Casulo do Céu estremeceu e deslocou-se novamente.

Nahiri lutou para não cair enquanto observava a plataforma em que Akiri estava navegar para longe deles.

"Depressa", disse Zareth, estendendo o braço para ela. E Nahiri percebeu que teriam que balançar juntos.

Nahiri considerou recusar. Este trapaceiro, que não tem amor por ela, poderia deixá-la cair. Mas apesar de seus truques, sabia que Zareth tinha honra suficiente para não assassinar a sangue frio.

Nahiri agarrou a corda ao lado de Zareth e, enquanto ele se preparava para balançar, ela sussurrou em seu ouvido: "Sei que você quer o Núcleo para si."

Surpresa cruzou o rosto do tritão, mas antes que ele pudesse responder, Nahiri comandou a pedra sob eles para lhes dar um empurrão.

Por um momento que desafiou a gravidade e acelerou o coração, tudo o que Nahiri viu foi o céu. Vasto e impiedoso.

Então caíram na plataforma. Nahiri rolou para uma parada graciosa. A expressão de Zareth dissolveu-se em puro alívio quando viu Akiri. Ela o puxou para cima e deu a Nahiri um pequeno aceno.

Estavam correndo de novo.

O ruído era implacável como a rajada de vento forte que fustigava seus rostos e suas roupas e o Casulo do Céu desmoronava ao redor deles. As delicadas pontes de pedra quebravam e caíam, e os hedros giravam fora de controle, errando-os por centímetros.

Esta era Zendikar em sua forma mais arruinada, perigosa e pesadelesca, e Nahiri a odiava.

Ainda assim, continuou correndo, desviando, escapando.

Até que o vórtice apareceu.

Surgiu sem aviso em um espaço através do chão da ruína flutuante. Como um tornado, rasgava tudo e todos ao seu redor. Segundos antes, Zareth balançara-se para um patamar no outro lado do abismo. Nahiri não o via mais. Akiri estava parada, pausada com a corda na mão conforme o redemoinho de pedra e poeira chicoteava em um frenesi ao redor delas.

"Vá!" Nahiri gritou. Com um pequeno aceno, Akiri deslizou pela corda.

Nahiri virou-se e, com as pernas firmes, braços estendidos, fez uma careta e encarou o vórtice.

Vou dobrar você à minha vontade, pensou ela. Como fizera com o Turbilhão em Akoum, como fizera com Sorin e tantos outros inimigos no passado. Estendeu os dedos e deixou sua raiva e sua culpa jorrarem de si com sua magia.

Pedaço por pedaço, o vórtice desacelerou e então parou, tornando-se uma coisa congelada e inofensiva.

Nahiri sorriu, vitoriosa.

Mas foi um triunfo de curta duração. O vórtice inchou novamente. Como uma represa prestes a estourar, continha tanta raiva e força que empurrou Nahiri para trás, até que ela não conseguiu mais contê-lo.

E Nahiri saiu voando da borda da ruína.

Havia apenas céu ao redor dela, azul e frio. Nahiri girou no ar e viu a corda de Akiri a centímetros de distância. Estendeu a mão.

E errou.

Estava em queda livre.

O coração de Nahiri parou na garganta conforme ela convocava cada grama de poder que lhe restava para deter seu mergulho. Até que algo agarrou seu braço.

"Peguei você!" Akiri arquejou e sorriu. Ela içou Nahiri para a plataforma com a ajuda de Zareth.

As bochechas de Nahiri queimaram de vergonha. "Vamos", disse ela, e transformou as ruínas flutuantes ao redor deles em uma ponte. Ela disparou através dela. Atrás dela, o ímpeto furioso do caos e da destruição crescia mais alto, aproximava-se mais.

Nahiri rangeu os dentes. Agora sabia com certeza que não poderia curar Zendikar apenas com sua litomancia.

O Núcleo em sua bolsa sussurrava novamente, mas Nahiri não estava ouvindo. Estava correndo, e estava planejando.

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Cineroclasmo | Arte de: Campbell White

Nahiri pousou em uma ampla extensão do Casulo do Céu de Murasa que ainda estava inteira, seguida de perto por Zareth e Akiri. Foi o primeiro lugar que alcançaram que não estava desmoronando ou sacudindo. Levou um momento para Nahiri perceber o que estava errado.

Por que há lava aqui?, pensou ela, perplexa, estudando a área à sua frente. Então a percepção a atingiu — o Turbilhão mudara a paisagem do Casulo do Céu, como fizera com tantas outras áreas neste plano. Nissa dissera que o Turbilhão começara como uma reação aos Eldrazi, a maneira de Zendikar lutar contra a doença em seu interior. Agora, ao que parecia, estava tentando lutar contra ela.

É isto que chama de luta? Nahiri sorriu presunçosamente.

O chão diante dela explodiu em jatos de fogo e cinzas. Arremessou Nahiri para trás, e um elemental imenso e furioso emergiu do solo, como se tivesse nascido da própria lava. Seu peito e punhos massivos irradiavam calor, estalando fogo conforme seus olhos vermelhos como carvão giraram e fixaram o olhar em Nahiri. O olhar era cheio de ódio.

Nahiri estendeu uma mão atrás de si e, um momento depois, uma espada de pedra brilhante emergiu totalmente formada em seu punho. Se esta coisa queria uma luta, ela lhe daria uma. De bom grado.

Zareth foi mais rápido, porém. Com coragem incansável, investiu contra o elemental, tridente em punho. Um arco de energia disparou da arma e envolveu a criatura, atingindo-a em cheio no peito.

O elemental nem sequer estremeceu. Lançou seu olhar calmo sobre Zareth, ergueu ambos os punhos flamejantes e os desceu sobre o tritão.

Mas rápido como um relâmpago, Akiri estava lá à frente de Zareth, braço erguido, a manopla em seu pulso brilhando, um disco resplandecente aparecendo como um escudo entre ela e o monstro. O elemental esmagou ambos os punhos contra o escudo mágico. Akiri gemeu e desabou. A criatura rosnou em frustração e ergueu as mãos novamente.

Nahiri viu Akiri e Zareth preparando-se para outro golpe e soube que não sobreviveriam ao próximo.

Erguendo uma mão em arco enquanto agarrava sua espada com a outra, Nahiri elevou a terra e cavalgou-a para o céu. Mal ouvia o sussurro enquanto puxava o Núcleo de sua bolsa.

O movimento fez o elemental pausar, desviar o olhar das figuras caídas à sua frente e encarar Nahiri. Ou melhor, o Núcleo em sua mão.

"É isto o que você quer?" Nahiri gritou.

O elemental rosnou e avançou em direção a Nahiri, punhos cerrados, assomando cada vez mais perto.

Nahiri ergueu sua espada, mas sabia que não seria o suficiente. Ela sozinha não seria o suficiente contra aquela abominação criada pelo Turbilhão. Baixou sua espada. Olhou para o Núcleo Litoforme em sua mão.

Devo?, ela se perguntou.

O Núcleo continuou seus sussurros, mas ela não conseguia distinguir as palavras.

Mas palavras não eram importantes. Ações eram.

Ouviu Akiri gritar à distância, e Nahiri desviou o olhar para o som. Zareth estava correndo em direção ao monstro. Não, percebeu ela, estava correndo em direção a ela, tridente recuado, energia dançando entre suas pontas. Seu rosto estava fixo em uma determinação sombria.

No mesmo instante, o elemental rosnou para Nahiri e deu o bote.

Foi quando Nahiri decidiu.

Ela ergueu o Núcleo e facilmente, tão facilmente, canalizou o poder em sua mão.

O mundo rachou com energia sombria. Então tornou-se branco. A cor foi lavada pelo brilho, o som perdeu-se no estrondo e, por um momento, não houve nada. Nahiri não viu nada. Não ouviu nada.

Não sentiu nada.

Seu mundo estava limpo.

Quando a luz do Núcleo diminuiu, tudo ao redor de Nahiri tornara-se cinza acinzentado. Não havia nada além de silêncio, e o elemental sumira completamente.

Nahiri sorriu, vitoriosa. Ela vencera.

A voz agonizante de Akiri quebrou o silêncio. "Zareth!"

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Terras Desoladas | Arte de: Adam Paquette

Akiri estava de joelhos, segurando o corpo frio e rígido da pessoa que amava. Piscou, piscou de novo, querendo que aquilo fosse um erro, um truque cruel. Tinha que ser.

A mão de Zareth estava curvada como uma garra, buscando algo. Sua boca estava escancarada em um grito silencioso. Mas eram os olhos dele que assombrariam os sonhos de Akiri por meses.

Os olhos de Zareth, que eram sempre brilhantes e cheios de emoção, não tinham luz nenhuma.

"Zareth~", Akiri arquejou, segurando o corpo de seu amigo, de seu amor, para perto. Aquilo não podia ser. Não podia~

Sentiu a sombra de Nahiri cair sobre ela. Olhou de soslaio e viu que o Núcleo Litoforme estava no chão, a alguns metros de onde Akiri se ajoelhava nas cinzas.

Nahiri moveu-se para pegá-lo, mas Akiri foi mais rápida. Em instantes, Akiri estava de pé e tropeçando para trás, longe da estranha e ancestral mulher kor.

"O que é esta~coisa, Nahiri?" demandou ela. O Núcleo estava quente, brilhando suavemente em sua mão, como um céu limpo em um dia perfeito para lançamento de cordas.

"Chega de tempestades ou desastres", Nahiri disse, soando tão calma, tão razoável. Aproximou-se: "Chega de monstros infernais. Esta é a nossa chance."

Akiri absorveu a devastação ao redor, o cadáver no chão. "Nossa chance?"

Nahiri não respondeu. Apenas deu outro passo à frente. Depois outro.

Akiri tropeçou para trás, ciente de que havia uma borda atrás dela, caindo no céu vazio.

"A chance de Zareth?" gritou ela, apontando para o cadáver. "Não. Isso termina aqui." Não podia deixar Nahiri alcançá-la. Não podia deixá-la pegar o Núcleo.

Zareth estava certo sobre Nahiri. Ele estava certo.

Nahiri continuou avançando. O medo apertou o coração partido de Akiri e, quando a borda estava quase em seus calcanhares, ela parou.

"Não", disse Akiri e segurou o Núcleo sobre a borda, pronta para deixá-lo cair, pronta para estar livre daquele prêmio terrível e mortal.

Mas o olhar de Nahiri fixou-se em algo além dela. Akiri virou-se e avistou um hedro erguendo-se atrás dela, bem ao alcance da corda. Ela só teria que lançar uma linha~

O hedro estalou e energia sombria emanou dele, percorrendo seu corpo, e Akiri viu-se incapaz de se mover. Assistiu, congelada, conforme Nahiri aproximava-se.

E mais perto.

Calmamente, Nahiri pegou o Núcleo Litoforme de sua mão sem força.

Nahiri estendeu a mão e tocou a bochecha de Akiri. Só então Akiri percebeu que suas bochechas estavam cobertas de lágrimas.

"Sinto muito, Akiri, eu sinto mesmo", disse Nahiri, e soava verdadeiramente arrependida. Mas o que Akiri via no rosto de Nahiri era apenas determinação e crueldade.

Ela quis gritar, mas sua voz se perdera. Quis buscar suas cordas, mas seus músculos não respondiam. Akiri nada pôde fazer conforme Nahiri pousou uma mão em seu ombro. E empurrou.

Akiri tombou para trás.

E caiu.

A última coisa que Akiri viu foi Nahiri de pé, com um olhar frio e calculado nos olhos, e o Núcleo pairando sobre sua palma estendida.

Então houve apenas céu. Infinito e cruel.

18/09/2020 | Por A. Z. Louise

Sob a Árvore da Raiz do Rio

O Casulo do Céu de Bala Ged pairava no ar acima da vasta copa das Matas de Guum, uma grande lua que nunca deixava o céu e encarava Obuun, sem piscar. Desafiava-o a admitir a derrota e retornar à cidade kor acima. Em vez de encontrar seu olhar, ele desviou o rosto, inclinando-se sobre o parapeito de madeira retorcida para observar os guarda-freios deixarem a Vila da Raiz do Rio. Uma coorte de uma dúzia de figuras movia-se pelo chão da floresta, mal visível em suas roupas de retalhos marrons e verdes. Desapareceram em poucos momentos em seu caminho para o norte, deixando-o no posto de observação em companhia de sua raiva e do líder do Clã da Raiz do Rio.

"Dê tempo a eles, Obuun", Nezzan disse.

"Por que eu deveria dar qualquer coisa a eles?" Obuun espantou irritado uma mariposa que flutuava ao redor de suas orelhas longas. "Eu deveria estar lá embaixo com eles, lutando contra surrakars. Os surrakars tiraram meus pais de mim, e agora os guarda-freios estão tirando minha chance de revidar."

Surrupiador Surrakar | Arte de: Kev Walker

"Obuun, sei que você pensa que vingar seus pais curará o elo com seus ancestrais. Pode ser que sim, mas você não conhece as Matas de Guum como os guarda-freios conhecem, e ninguém pode ser poupado para ser sua ama de leite lá fora. Se você morrer sem nenhuma conexão com seus ancestrais, sua alma estará perdida. Se você viver, as Matas tirarão algo de você além da sua vida. Elas sempre tiram."

"Você acha que eu não sei disso?" Obuun disparou. As Matas já haviam levado ambos os seus pais. O que mais poderiam levar? "Vale o risco para me provar", disse Obuun. Nezzan deu-lhe um balanço de cabeça condescendente.

"Você não entende os riscos. Tem muito a aprender depois de estar com os kor por tanto tempo, e os guarda-freios conseguem ver isso."

"Então eles pensam em mim como um kor porque vivi com eles? Isso não é justo." Obuun voltou-se para Nezzan, perscrutando o rosto do Mul Daya mais baixo. Eram velhos pela contabilidade de um elfo, as linhas em sua testa e nos cantos de seus olhos como as veias de uma folha caída quebradiça.

"Não posso conhecer a mente de outro, e nem qualquer outro Mul Daya pode", Nezzan disse. Obuun abriu a boca, mas Nezzan o cortou com uma mão erguida. "Há algumas coisas que eu sei, Obuun. Sei que seu tio Dykaar ama os kor porque eles proveram a ele — e a você — segurança. Sei que os kor são habilidosos em substituir nossos caminhos pelos deles em qualquer um em que ponham as mãos. Sei que os Mul Daya são lentos para confiar."

"É por isso que eu deveria estar com eles. Eles saberiam que podem confiar em mim se me dessem uma chance de provar." Obuun passou por Nezzan. Eles não entendiam. Ninguém na Raiz do Rio poderia conhecer a dor urgente de ser um forasteiro em suas próprias terras, nem como a paciência élfica poderia irritar.

Suas coisas estavam prontas na antiga casa de seus pais, que estava empoeirada e tomada por vinhas. Nezzan queria que Obuun trabalhasse na casa, aninhada sob um galho alto da grande árvore que abrigava todos os elfos da Vila da Raiz do Rio. Obuun não tinha intenção de ficar em uma casa cheia de memórias e crescimento rastejante em uma vila onde ninguém confiava nele. Não quando as Matas estavam cobertas de chances de reconquistar o que ele havia perdido.

A armadura que o tio Dykaar comprara para Obuun pendia de uma vinha no canto da sala da frente da antiga casa, seu design kor angular fora de lugar entre as gavinhas retorcidas de verde. Vir para cá era, à sua maneira, uma traição. Dykaar dera tudo a ele, mas Obuun não suportava estar separado de seus ancestrais por mais um momento. Ele pegara a armadura e a lança de gancho perversa para o mundo da superfície, deixando sua única família viva para trás no Casulo do Céu.

Ainda assim, escapar da magia avassaladora do Casulo do Céu e fechar a lacuna de uma légua inteira de ar livre não curara a conexão espiritual ferida, e o medo de que ela nunca cicatrizasse entocara-se profundamente dentro de Obuun como uma larva de besouro perfurando a raiz de uma árvore. Ele o espantou ao vestir sua armadura, as seções triangulares de padrões kor leves e familiares onde repousavam contra seus ombros. Obuun pegou um rolo de corda, sua lança e seu cinto de escalada e saiu pela porta dos fundos rachada. As dobradiças gemeram em protesto, mas os sons da floresta eram altos o suficiente para que ninguém ouvisse. Um bando de pássaros roxos e pretos cacarejava nos telhados da vila, insetos zumbiam e se alimentavam de algas brilhantes no pântano que se estendia atrás da vila, e crianças gritavam em algum lugar abaixo. Ninguém notaria um elfo deslizando por uma corda de plataforma em plataforma, evitando as escadas e elevadores que levavam ao chão.

A terra era macia, as botas de aço de Obuun não faziam som nas folhas caídas que lentamente apodreciam em terra rica. Ele descera na única área limpa abaixo da vila, onde cinzas eram intercaladas com folhas úmidas frescas para evitar que os fogos de cremação se espalhassem pelo sub-bosque. A fuligem de gerações de mortos manchava a casca da árvore da Raiz do Rio, e embora Obuun não conseguisse se conectar com seus ancestrais, sentia a dor em sua alma. Primeiro seu pai, e depois sua mãe, haviam desaparecido anos atrás, nunca queimados aqui para liberar seus espíritos para a vila acima.

Conforme Obuun esgueirava-se pelo mato, passando por árvores apequenadas pelo tamanho massivo da árvore da Raiz do Rio, ele se perguntava se sua conexão fora ferida vezes demais e nunca cicatrizaria. Uma vez quebrara seu pulso esquerdo duas vezes, o osso novo partido como madeira verde mal um mês depois de o curandeiro kor ter imposto as mãos. Nunca ficaria totalmente bom, ainda torto mais de uma década depois. Lembrava a Obuun de sua fraqueza de vez em quando, doendo quando o tempo mudava, assim como a Vila da Raiz do Rio o lembrava do que perdera. Mas era melhor estar aqui e livre do que confortável lá no Casulo do Céu. Ao menos os guarda-freios que o rejeitaram eram honestos em sua frieza. Os kor sorririam para o rosto de um forasteiro e o esfaqueariam pelas costas quando ele não se adaptasse.

Obuun tinha se conformado como os liquens maciços que abraçavam as árvores, achatando-se e vestindo roupas kor, pintando o rosto com símbolos kor. Fizera isso hoje mesmo pela manhã, esquecendo que não era mais necessário. O ar estava úmido sob a copa, e a tinta estava macia contra sua pele quente, então ele a esfregou com as costas da mão. Limpou a mão em suas calças de couro enquanto caminhava, maravilhando-se com a facilidade com que se movia pelas Matas de Guum. Os kor e o tio Dykaar chamaram as Matas de impassíveis, abertas apenas a guarda-freios treinados como Ayya, a mãe de Obuun.

Perguntou-se se ela se sentira assim movendo-se pela mata, livre e sozinha. Não vista e não julgada por olhos élficos, mas observada de todos os ângulos pela fauna de Zendikar. O ar estava cheio dos cheiros de decomposição, novo crescimento e algo acre. Estava perto do covil surrakar. Obuun escondeu-se atrás de uma árvore para montar uma emboscada. Levaria prova de uma matança surrakar de volta para a árvore, e os guarda-freios teriam que deixá-lo ir na próxima expedição. Não podiam se dar ao luxo de deixar para trás alguém capaz de ajudar.

Passos, suaves e cautelosos. Obuun prendeu a respiração, aguçando os ouvidos conforme algo passava pelo seu esconderijo em duas pernas. Espiou ao redor da árvore, viu um surrakar verde doentio caminhando pesadamente entre as árvores. Tinha a altura de um Mul Daya médio, mas era mais pesado, com uma barbela pendendo do queixo e uma cauda longa que se arrastava no chão. Em uma mão com garras, segurava uma lança élfica que parecia ter passado os últimos vinte anos no fundo de um pântano.

Obuun pegou sua lança com um aperto de ferro, luz e sombra alternando-se diante de seus olhos enquanto disparava por entre as árvores atrás do surrakar. O cheiro doentio da caverna roçou nele como uma cortina de contas, a escuridão úmida envolvendo-o. Ele espreitou o surrakar, diminuindo o passo por instinto enquanto esperava seus olhos se ajustarem. As lições do tio Dykaar podem não ter ajudado Obuun a se encaixar na Vila da Raiz do Rio, mas poderiam ajudá-lo a se provar agora.

O surrakar deve ter ouvido o raspar das botas pesadas de Obuun, pois virou-se conforme sua lança assobiava pelo ar, erguendo sua arma. O aço chocou-se contra o aço, lançando faíscas que iluminaram o túnel escuro. O surrakar era mais forte do que ele esperava, quase derrubando Obuun com apenas uma das mãos na lança. As próprias mãos de Obuun estavam trêmulas, e ele sabia que tinha que matar o surrakar ou escapar antes que ele o matasse. Antes que pudesse decidir qual dos dois, a criatura soltou um coaxar áspero, desferindo um golpe em direção à cabeça de Obuun e forçando-o a se abaixar. O medo o agarrou pelas entranhas, e ele saiu correndo para se reagrupar.

O peso do surrakar o levou ao chão após alguns passos, quase esmagando sua cabeça contra uma parede. Ele tateou em seu cinto por sua faca e esfaqueou descontroladamente por cima do ombro, mas a faca escorregou de sua mão e tilintou na escuridão. Metal frio tocou a nuca de Obuun, e ele congelou, com medo demais para se mover. O pé nu e escamoso do surrakar cravou-se em suas costelas, virando-o. A ponta de sua lança arrastou-se pelo seu pescoço, deixando uma linha quente de dor em seu rastro.

Obuun esticou-se acima da cabeça, empurrando a parede. A superfície lisa de sua armadura deslizou facilmente pelo chão, enviando-o para entre as pernas do surrakar. Agarrou sua cauda, espinhos e serrilhas enterrando-se em suas palmas, e foi tudo o que pôde fazer para segurar firme. A cauda musculosa do surrakar chicoteou Obuun contra a parede, deixando-o quase sem sentidos antes de colidir com o chão de lado. O surrakar ergueu sua lança para golpear, mas a base bateu contra a parede da passagem estreita, dando à cabeça de Obuun um momento para clarear. Levantou-se e disparou novamente, batendo tonto contra as paredes iluminadas por líquen de brilho suave.

Em instantes, Obuun estava perdido. Os sons de escamas contra a pedra, de rosnados, de carnificina vinham de todos os lados. Qualquer direção em que caminhasse levaria a uma morte além da morte, perdido tanto para seus ancestrais quanto para os vivos, e o pensamento fez seu estômago revirar de náusea. Quando Obuun viu uma pequena fresta preta na pedra e na terra compactada, espremeu-se lá dentro para se esconder. Raízes roçaram sua nuca, e uma voz élfica familiar ecoou pela pedra, suave como ondulações de água fresca correndo por sua espinha. Deixe-a entrar.

O calafrio o devolveu aos sentidos, sua respiração acalmando-se e seu batimento cardíaco diminuindo. Obuun estava desorientado, mas o ar estagnado parecia quase familiar. Estaria ele sob a árvore da Raiz do Rio?

Certo de que a imobilidade era a morte, Obuun eventualmente rastejou para fora de seu esconderijo. Orou aos ancestrais para que seus olhos agora límpidos pudessem captar uma pista de como sair das cavernas surrakar, embora tivesse pouca esperança. Vivera no Casulo do Céu por tempo demais, sua magia corroendo sua conexão com sua própria história, e seus sentidos eram de pouca ajuda. Não havia um sopro de ar fresco, e as raízes que revestiam as paredes eram tão grossas e tão espalhadas que ele não sabia dizer qual direção era qual. Deixe-a entrar. Talvez aquela voz musical élfica pudesse guiá-lo para casa, se ele conseguisse encontrá-la novamente.

O chão era irregular, e Obuun tropeçava frequentemente, os ganchos dos bicos de suas botas prendendo em pedra ou terra dura. Uma vez, caiu pesadamente de barriga, os hedros de sua armadura batendo contra a rocha pontiaguda. Um surrakar rosnou na penumbra, mas Obuun não conseguia se mexer, com todo o ar expelido de seus pulmões. Debateu-se como um peixe-da-lama pescado, lutando por apoio nas pedras escorregadias para se arrastar até ficar de pé e correr o mais rápido que pudesse. Passos descalços e um coaxar aterrorizantemente familiar seguiam sua fuga, ecoando pelos túneis e enchendo sua cabeça até seu coração bater alto o suficiente para abafar tudo. Novamente, tropeçou, e desta vez, viu-se rolando por um declive. Pedras pegavam seus membros, socavam seu abdômen até suas costelas parecerem um feixe de velhos gravetos secos.

Obuun parou em algum lugar macio e úmido. Ou talvez fosse ele quem estava macio e úmido, um feixe cru de carne amaciada. Estava machucado e sem fôlego demais para se importar se o surrakar que buscava seu sangue o ouvia recuperar o fôlego, e cansado demais para tentar escapar. Esperou que um golpe mortal viesse, mas quando conseguiu respirar novamente, estava sozinho e em silêncio abençoado. Descansou por um tempo, entrando e saindo da consciência antes que a voz perfurasse a névoa de exaustão. Deixe-a entrar. Soava como sua mãe, o tom suave como se contasse uma história para dormir, mas as palavras em si eram baixas demais para ouvir.

O riso que surpreendeu Obuun machucou suas costelas. A ideia de sua mãe de uma história para dormir horrorizaria a maioria das mães. Geralmente havia basiliscos ou vermes envolvidos, e eles às vezes davam pesadelos a Obuun, enviando-o correndo para dormir na cama dos pais. Aquele conforto parecia mais longe do que nunca. A solidão do Casulo do Céu e da Raiz do Rio não podiam se comparar a quão sozinho ele estava agora. Estava dolorosamente ciente do conforto que poderia ter tido se o elo estivesse intacto. Teria algo em que se apoiar, algo para lhe dar força enquanto checava seus muitos hematomas.

Teve que confiar na pura teimosia para impulsioná-lo a ficar de pé. Obuun encontrou-se em um espaço sombrio, mal iluminado pelo fraco brilho esverdeado do líquen crescendo acima. Era o suficiente para ver que a câmara era enorme, raízes pendentes penduradas no teto. Teve um desejo infantil de esticar a mão e tocar as raízes, correr os dedos por elas como se fossem cabelos. Reprimiu o desejo. Tinha coisas mais importantes com que se preocupar.

Embora tivesse salvado sua vida, sua armadura era barulhenta demais, e o som dos passos do surrakar ecoava da encosta acima. Tirou a armadura kor, tomando cuidado para não chacoalhá-la quando a abandonou para mover-se mais fundo na caverna. Algo prendeu seus tornozelos, estalos suaves e secos soando sempre que Obuun mudava os pés de lugar, e ele congelou. Ossos. O lugar estava cheio de ossos. Um calafrio tão frio quanto o ar seco lá no alto de Bala Ged passou por ele, e algo profundo em seu peito respondeu. Aqui, com tanta terra e céu entre ele e o poder avassalador do Casulo do Céu, conseguia finalmente sentir os espíritos do Clã da Raiz do Rio.

Um alívio tonto lutava contra o horror, sendo subsumido por ele. Dezenas de mortos ao longo das décadas, pano e couro podres desmoronando sob as botas de Obuun, vibrações como sinos silenciosos chamando-o. Uma nota vibrante cantava mais alto que as outras, puxando-o. Sua cabeça girava, e ele não sabia se era de suas muitas quedas ou de alguma magia ancestral. Antes que pudesse decidir, algo atingiu seu lado com uma onda de dor ardente, e ele caiu de joelhos com um estalo medonho de osso quebrando. Sua mão pousou em um fragmento pontiagudo, e a paisagem de pesadelo sombria das cavernas surrakar sumiu.

Engolido pela memória, a visão de Obuun foi obscurecida por uma imagem aquosa de sua mãe. Pele castanho-clara cortada com cicatrizes mais escuras nas costas de suas mãos ágeis. Orelhas longas adornadas com prata e emolduradas por cabelos crespos tingidos de escarlate e crescendo pretos na raiz. Sorrisos e risadas sempre sublinhados pelo silêncio expectante de uma guarda-freio, de uma caçadora paciente que conseguia sumir nas Matas de Guum sem deixar rastro, mas que sempre voltava.

Um chute brutal esmagou Obuun no chão, estilhaçando a visão, e o fragmento de osso de sua mãe desapareceu no entulho. Ele tateou por ele, sua mão caindo, em vez disso, em couro e aço familiares. Obuun ergueu a espada curta de sua mãe bem a tempo de impedir o surrakar de decepar sua cabeça. Os músculos de seus braços gritaram enquanto ele usava toda a sua força para empurrar a criatura para longe com a familiar lâmina em forma de folha. Conseguia sentir a presença de sua mãe em suas mãos tão certamente como se fossem os dedos dela que estivesse segurando.

Em vez de investir novamente, o surrakar o circulava nas sombras, ossos triturando sob seus pés. Cada estalo e esfarelamento fazia o estômago de Obuun doer. Impulsionou-se para ficar de pé, agarrando a espada de sua mãe com uma mão e seu lado ferido com a outra. O fluxo de sangue não era tão ruim quanto esperava, mas a dor vinha em um ritmo pulsante que combinava com a batida de seu coração e os tons claros de sino dos espíritos que rodopiavam ao seu redor. O ar frio e úmido estava queimando quente contra a pele de Obuun. Quando ele espreitou o surrakar, este recuou, erguendo sua lança cautelosamente.

Obuun não podia perder tempo jogando com a besta. Saltou contra ela, batendo na lança com o chato de sua lâmina, mas mesmo sem uma arma, o alcance dela era maior que o dele. Obuun teve que saltar para longe, evitando as garras viciosas da criatura. Ela agarrou o braço de Obuun e arrancou sua lâmina com uma pontada de agonia em seu lado ferido. O mundo inclinou-se, e ele caiu, arrastando o surrakar consigo. Ossos estalaram e quebraram sob eles, quase o suficiente para abafar um gemido de pedra e terra.

O surrakar congelou, dando a Obuun a chance de esfaqueá-lo, mas sua espada ficou alojada em suas escamas resistentes em vez de na carne. Ele rolou para fora dele, arrancando o punho da mão de Obuun. A pedra abaixo deles estremeceu, mas ele conseguiu manter o equilíbrio quando se levantou, sustentado por alguma força invisível. Abaixo dele, o chão continuava a se deslocar e gemer como se estivesse vivo.

Após um momento de desorientação, Obuun percebeu que uma placa de pedra estava subindo sob seus pés, respondendo à sua necessidade. O poder fluía através dele, uma fonte brotando das profundezas de Zendikar, formigando tão intensamente quanto mil picadas antes de se acalmar em um zumbido surdo. Se ele conseguisse apenas fazer a terra cuspir os ossos Mul Daya, poderia trazê-los de volta para a vila e ter não apenas a admiração do clã, mas os restos de seus pais. A conexão ferida com seus ancestrais seria curada.

Obuun cerrou a mandíbula, impaciente para abrir aquele lugar terrível e deixar o sol brilhar sobre os ossos de seu clã. A plataforma continuava subindo, a pedra quebrando e a terra rachando acima de sua cabeça. O surrakar gritava de terror, achatado contra o chão de pedra e osso, incapaz de entender o que estava acontecendo. Apesar de tudo, a culpa perfurou Obuun. Era apenas um animal, um necrófago infeliz o suficiente para viver perto de carne que revidava, que ansiava por vingança.

Um estalo medonho arrancou os pensamentos de Obuun do surrakar, e ele olhou para cima para ver uma das raízes da árvore da Raiz do Rio esmagada contra o teto da caverna pela pedra que avançava. Haviam rachado, carne pálida visível sob a casca grossa e escura. O gosto da vitória iminente tornou-se amargo na boca de Obuun; trazer os ossos de volta seria desenraizar a árvore, e sem a árvore, não haveria o Clã da Raiz do Rio. Elfos vivos morreriam na catástrofe, casas seriam destruídas, vidas arruinadas. Mas ele estava desarmado, sozinho com um surrakar decidido a fazer dele uma refeição.

O coração de Obuun disparou enquanto ele lançava os olhos pela câmara em busca de uma fuga. Tudo o que podia fazer era recuar do surrakar o máximo que ousasse e descer pelo precipício que crescia usando a corda. Corda na mão, apertou os olhos para se afastar da força vital de Zendikar. A terra estremeceu até parar tão violentamente que Obuun quase caiu. O surrakar correu em sua direção de quatro, e um grito aterrorizado rasgou sua garganta. Sua mão encontrou a espada na lateral do surrakar no momento em que os dentes deste se fecharam em seu ombro.

A dor perfurou sua carne com uma dúzia de pontos de fogo ardente. O surrakar mordeu seu ombro, não soltando até que ele reunisse cada último fragmento de força e cravasse sua espada mais fundo. Ele uivou, cambaleando para longe, conforme o borrão escuro do mundo ganhava listras de verde brilhante cravejadas de espasmos de dor. A náusea subiu dentro de Obuun tão forte que, quando ele caiu no chão da câmara abaixo, a pedra fria e dura foi um alívio, aplacando a bile quente que subia em sua garganta. Fragmentos de ossos choveram sobre ele e, exausto e doente, foi devorado por uma escuridão cortada por golpes esmeralda venenosos.

As linhas de verde lentamente se transformaram em vinhas, folhas, galhos. O ar era úmido mas fresco e frio, trançado com o perfume de folhagens e flores. Em algum lugar, um gnarlid uivou, silenciando o canto dos pássaros acima por alguns longos momentos.

"Dê tempo a eles, Obuun", uma voz disse. Obuun virou-se, com a raiva subindo, para dizer a Nezzan para guardar seus conselhos para si mesmo.

Era sua mãe que estava parada atrás dele, agora sólida como as árvores que os cercavam. Ela puxou sua máscara de retalhos para baixo, amontoando-a sob o queixo, sua boca curvando-se em um sorriso. Seu cabelo vermelho estava escondido por uma touca, seus ombros alargados pela armadura de cordas que Obuun lembrava de vê-la consertar à luz da lamparina quando era viva. Antes de ele ter sido tirado de tudo o que conhecia e forçado a viver entre os kor, separado dela, dos ancestrais.

"Esperei por tanto tempo", ele sussurrou.

"Sei que esperou."

"Eles não confiam em mim", a voz de Obuun quebrou, estilhaçando-se contra sua raiva, lascando a armadura que escondia o medo e a mágoa. Desejou poder guardar tudo de volta, esconder, mas era uma ferida ardente que ele sentia puxar seu rosto em uma careta. "Tenho que me provar, Mãe. Tenho que mostrar a eles que pertenço aqui, mas falhei. Quase desenraizei a árvore. Não consegui matar um único surrakar."

"Você tem que provar algo para eles, ou para você?" sua mãe perguntou. Obuun não falou. Não sabia a resposta. "Imprudência não é como os Mul Daya se provam. Paciência é. Todo Mul Daya tem um propósito, e este não é o seu. Deixe a Raiz do Rio entrar em seu coração, e ela deixará você entrar no dela."

Obuun olhou para os galhos maciços espalhando-se no alto. Raiz do Rio se tornara um local de dor, um símbolo de todas as piores coisas que aconteceram em sua vida. A perda de seus pais, a perda dos caminhos Mul Daya. A lenta decadência do seu lar de infância. A percepção amanheceu em Obuun lenta como uma raiz rastejante. Odiava este lugar. Estivera bravo e decepcionado desde o momento em que chegara.

"Não sei como parar de sentir isso", ele disse.

Sua mãe não respondeu. Obuun olhou para baixo da copa para ver que ela se fora. Deixara um vazio para trás, um buraco em Zendikar e no Clã da Raiz do Rio que nunca poderia ser preenchido. A floresta o pressionava, galhos e vinhas tecendo-se juntos, implorando para que ele se submetesse a ela. Obuun não sabia como poderia permitir a Raiz do Rio entrar quando isso apenas aprofundaria a ferida aberta dentro de seu peito. Queria confiar no espírito de sua mãe, seguir sua orientação como fizera quando criança, mas as folhas taparam o sol, mergulhando-o na escuridão e no terror.

Algo correu pela pele de Obuun, e ele sentou-se bruscamente, espalhando lascas de ossos por todos os lados. Pequenas faíscas verdes saltavam sobre ele, desenhando vinhas que permaneciam em sua visão, e iluminavam a caverna ao redor de Obuun. Os pontos de luz aplacavam a dor de seus muitos ferimentos, banhando-o como água fresca e limpa. Como a seiva de uma árvore, o néctar de uma flor, mais doce que qualquer coisa que ele já experimentara.

Obuun fechou os olhos, deixando aquilo preenchê-lo. Conseguia ver a árvore da Raiz do Rio atrás de suas pálpebras, cheirar o ar fresco e sentir o calor do sol, perceber a lua agachada atrás do horizonte. A renda de linhas de força e os hedros que as canalizavam poderiam estar tocando sua pele, de tão intensamente que ele os percebia. As gavinhas da árvore da Raiz do Rio haviam se enterrado dentro dele, e ele era atraído por ela como limalha de ferro é atraída por um ímã.

O alívio de encontrar esta conexão esvaiu-se de Obuun em um instante, substituído por um vazio dolorido. Seu pai não estava aqui, e ele perdera o osso que abrira sua mente para os ancestrais. Os tons cintilantes de sino dos espíritos élficos haviam se calado, silenciados por um novo luto. Obuun abriu os olhos. O espaço estava iluminado com o verde suave de uma folha nova. O grande pilar tombara, atravessando uma parede da caverna. Quando Obuun escalou sua superfície irregular, encontrou um lago subterrâneo além da parede estilhaçada, sua água parada brilhando com algas. Seu desgosto com os lugares úmidos desapareceu; havia beleza aqui que ele não reconhecera. Conexões que não vira, atando até os lugares mais perigosos ao lar que ele um dia amara.

Sei que os kor são habilidosos em substituir nossos caminhos pelos deles em qualquer um em que ponham as mãos. Obuun fora mudado de formas que ainda tinha que entender, e talvez nunca entendesse. Mas, como Nezzan, estava seguro de algumas coisas. Sabia que a terra vira por bem lhe dar o presente de sua vida. Sabia que não podia desperdiçar aquele presente. Sabia que a árvore da Raiz do Rio o guiaria se ele deixasse.

As raízes da árvore alcançavam as profundezas para encontrar este lago subterrâneo, para absorver água e crescer até sua altura massiva, mas também cresciam para os lados, saindo do pântano cintilante que se estendia a leste da árvore da Raiz do Rio. Este lago tinha que estar conectado a ele de alguma forma, suas algas fluindo de cima para lentamente desaparecerem sem o sol para ensiná-las como viver. Tinha que procurar pela saída, mas primeiro, tinha que tirar as botas. Eram barulhentas demais e o faziam tropeçar.

Obuun partiu descalço, a pedra áspera e fria sob suas solas nuas. Ouvia enquanto caminhava, mas o som da água começava a abafar qualquer sinal de surrakar. Pausava frequentemente para vigiar o perigo, sabendo que o surrakar ainda o caçava. À frente, a cachoeira brilhava intensamente, a espuma espirrando cheia de algas luminescentes que fluíam de cima. Iluminava a pedra lisa e gasta que seria difícil de escalar sem seus ganchos de bico, mas Obuun ainda tinha seu equipamento. Conseguiria, com cuidado e paciência, contanto que não usasse martelo e pítons. O som certamente alertaria o surrakar sobre sua presença.

Embora a rocha fosse escorregadia, havia fendas de sobra para segurar seus calços enquanto Obuun lentamente subia a cachoeira de fluxo constante. O cheiro de água ácida e musgo fluía com ela, dando a Obuun um fio tênue de esperança, mesmo quando sons de arranhar abaixo semeavam o medo em suas entranhas. O surrakar estava logo atrás. Seus ombros doíam, especialmente o que levara a mordida venenosa, e a exaustão de correr e lutar por sua vida o pesava. Escorregou mais de uma vez, salvo pelos seus calços mas com o coração ainda na garganta. No momento em que alcançou o topo, estava bem acima da altura onde uma queda o mataria.

A fenda pela qual a água fluía era larga e rasa, apenas um minúsculo vão de ar entre a água e a pedra. Ele afundou no fluxo constante, segurando-se a uma raiz que pendia do teto para evitar ser empurrado de volta para as cavernas. Um respingo o seguiu, e ele se pressionou contra a parede de pedra enquanto o surrakar perseguidor subia da cachoeira cintilante. Ele perscrutou a boca da caverna, com a espada de sua mãe ainda cravada em seu flanco. O coração de Obuun entalou-se no fundo de sua garganta, e ele quase saltou de seu esconderijo para tentar agarrar a arma antes de se lembrar das palavras de sua mãe. Paciência.

Obuun esperou até que o surrakar terminasse sua busca e se virasse para descer de volta pela cachoeira. Prendeu a respiração enquanto rastejava por trás do surrakar em silêncio, as palmas coçando para agarrar o punho da espada de sua mãe. Alcançou o punho da espada, orando aos ancestrais para que firmassem sua mão. Tudo o que tinha que fazer era arrancá-la com um puxão. Tudo o que tinha que fazer era pegá-la, e ele teria esta única coisa de sua mãe.

Obuun moveu-se mais devagar que o esperado através da água, mas o mesmo aconteceu com o surrakar. Ele não conseguiu virar rápido o suficiente, e o couro de décadas do punho aguentou, dando-lhe uma boa pegada. Chutou a criatura com toda a sua força. Escamas cortaram a sola de seu pé, e seu ombro protestou conforme o surrakar perdeu o equilíbrio, balançou e caiu com um respingo. Todo o ar saiu dos pulmões de Obuun em uma grande golfada, e ele apertou a arma contra o peito, estremecendo.

Quando recuperou o fôlego, Obuun espiou pela borda da cachoeira, o brilho intenso das algas contornando claramente uma forma escura na água abaixo. Observou, esperou, para se certificar de que o surrakar não poderia segui-lo de volta à Vila da Raiz do Rio. A sombra permaneceu imóvel. Seu batimento cardíaco nervoso desacelerou, e sua mandíbula relaxou. Obuun não percebera o quanto seus dentes doíam até aquele exato momento. Sacudiu-se e virou-se de volta para a fresta que se abria para o pântano.

Obuun teve que empurrar as raízes pendentes e vinhas para emergir no ar livre, onde a noite caíra. A lua pairava acima, lançando uma luz prateada pálida que espelhava o brilho das algas abaixo. Às suas costas, Obuun conseguia sentir a árvore da Raiz do Rio, seu lar, observando e esperando. Exausto, não querendo nada mais do que retornar à antiga casa em ruínas de seus pais, começou a longa caminhada para casa.

Obuun, Ancestral Mul Daya | Arte de: Chris Rallis

Dias depois, após seu longo descanso e muitos dias extenuantes de trabalho, fumaça subia do chão da floresta, enchendo os galhos e passarelas da Vila da Raiz do Rio. Seu cheiro lutava contra o odor acre do corante escarlate. As pontas das orelhas de Obuun ainda estavam rosadas de tingir seu cabelo como seus pais um dia fizeram, suas mãos vermelhas onde não estavam com bolhas de carregar pedras. Sua descoberta da caverna de ossos e da entrada dos fundos das cavernas surrakar levara toda a vila à ação lá embaixo, trabalhando para fechar a passagem do sistema principal de cavernas para a caverna de ossos. Os ossos haviam sido carregados de volta para a vila e aquela caverna selada também.

As piras foram o passo final para a Vila da Raiz do Rio, liberando os mortos e decorando seus ossos de recordação para serem guardados em baús ou exibidos em prateleiras. Muitos elfos não conseguiram ficar com os ossos que desejavam, mas qualquer osso era melhor do que os fragmentos dolorosamente minúsculos que restaram da mãe de Obuun. A queda os tornara tão pequenos que pouco restara dela. Muitos dos ossos estavam em estado pior, pouco mais do que poeira, e sussurros enchiam a Vila da Raiz do Rio de que eram de muito antes dos surrakars habitarem as cavernas.

Conforme fiapos de espírito passavam flutuando, Obuun tocava o punho recém-enrolado da espada que encontrara nas profundezas sob a árvore da Raiz do Rio. O rosto de sua mãe se formava na fumaça, apenas para ser soprado e se reformar, sorrindo, repetidas vezes.

23/09/2020 | Por A. T. Greenblatt

Episódio 4: De Canções Assombradas e Avisos Sussurrados

Akiri conhecia a sensação de cair tão intimamente quanto a força de suas próprias mãos. Ela não temia o impacto do ar em seu rosto ou a maneira como seu estômago saltava para a garganta. Ela era a melhor lançadora de cordas de Zendikar, e aprendera há muito tempo que às vezes, para subir, era preciso cair.

Mas ela nunca caíra tão longe e por tanto tempo antes. Nunca caíra sem esperança.

Conseguia ver o Casulo do Céu de Murasa diminuindo acima dela conforme despencava. E se fechasse os olhos, Akiri via a expressão fria e indiferente de Nahiri e o Núcleo em sua mão, naquele momento terrível antes de ser empurrada da ruína flutuante.

Naqueles primeiros segundos desesperados, Akiri lançou suas cordas e ganchos em cada borda flutuante ou hedro inclinado ao alcance. Mas em vez de se despedaçar, as peças do Casulo do Céu de Murasa estavam se movendo. Estavam se costurando de volta como um quebra-cabeça impossível, e seus ganchos perdiam a ancoragem ou eram esmagados antes que Akiri pudesse se salvar.

Logo a única coisa ao seu redor era o céu vazio.

Estes são os últimos momentos da minha vida, percebeu ela. Luto e raiva a atingiram como um soco. Akiri não conseguira salvar ou proteger nada que amava naqueles minutos desesperados antes de Nahiri empurrá-la.

Zendikar. Zareth. Fechou os olhos e pensou em seu amigo e amor, afastando a imagem de seu rosto congelado e gritando no momento de sua morte, lembrando-se dele, em vez disso, rindo, lançando cordas com ela, seus olhos brilhantes cheios de travessura.

Akiri guardou a memória dele para perto enquanto esperava pelo chão. Veria Zareth em breve.

O impacto tirou-lhe o fôlego. Seu pescoço e membros deram um tranco doloroso para frente. Depois voltaram bruscamente.

Subitamente, Akiri não estava mais caindo.

Estranho, pensou ela. A morte é mais gentil do que eu imaginava. Ela antecipara sentir os galhos das árvores harabaz quebrarem contra seu corpo, pelo menos, se sentisse alguma coisa. Abrindo os olhos, esperava apenas escuridão, mas ao seu redor havia um céu azul brilhante. Virando a cabeça, viu a Baía da Cisão várias centenas de metros abaixo dela, suas árvores balançando e fustigando contra as ondas implacáveis.

"O quê?" sussurrou ela. Estava suspensa no ar. Impossível.

"Peguei você!" alguém gritou de cima.

Akiri olhou para cima novamente, semicerrando os olhos por causa do sol, e acima dela, conseguia distinguir uma figura esguia apoiada em um cajado. Estavam de pé no que parecia ser uma escada de galhos. Embora aquilo também parecesse impossível.

"O quê?" sussurrou ela novamente.

Floresta | Arte de: Tianhua X

Akiri sentiu-se subindo e percebeu que havia um galho de silva enrolado firmemente ao redor de seu peito.

Conforme se aproximava da figura na escada, viu que sua salvadora era uma mulher elfa com longos cabelos escuros, vestida de verde. Mais abaixo na escada, um homem com cabelos fustigados pelo vento e olhos brilhantes subia cautelosamente.

A silva colocou Akiri gentilmente na escada, a uns trinta centímetros da elfa.

"Obrigada", disse Akiri, após um momento. Foi o máximo que conseguiu.

"Você está bem?" perguntou sua salvadora.

"Sim." Akiri olhou para o Casulo do Céu de Murasa. Estava quase inteiro agora, como se nunca tivessem acionado a armadilha. Como se Akiri e seu grupo não tivessem acabado de lutar por suas vidas. Era como se Zareth tivesse morrido por nada. "Não", sussurrou ela enquanto seus joelhos cediam.

"Calma"—a elfa a segurou pelos ombros, estabilizando-a—"Eu te seguro."

"Quem é você?" Akiri perguntou.

"Sou Nissa", respondeu ela e, com um sorriso tímido, acrescentou: "O escalador lento é o Jace."

Jace gemeu conforme chegava ao lado delas. "Estou fora de prática. Não temos masmorras no céu em Ravnica."

Akiri estudou o par por um momento. Havia algo na dupla que ela não teria reconhecido há alguns dias, algo que ela sempre desconsiderara como mitos de fogueira. Uma sensação de poder não dito, de que continham segredos tão vastos quanto o mundo. Uma sensação de que tinham um pé aqui~e o outro em algum outro lugar.

Como Nahiri.

"Vocês conseguem viajar para outros reinos, não conseguem?" perguntou ela, recuando do aperto de Nissa.

Nissa e Jace trocaram um olhar. "Você sabe sobre planeswalkers?" Jace perguntou.

Os mitos chamavam vocês de caminhantes. Planeswalker. Meu demônio tem um nome, Akiri pensou enquanto seu peito se contraía de luto. "Conheci Nahiri. Foi ela quem me empurrou." Ela apontou para o Casulo do Céu.

Notou que nenhum dos planeswalkers pareceu surpreso. Ambos encaravam o Casulo do Céu de Murasa.

"Ela está com o Núcleo?" Nissa perguntou, as mãos fechando-se em punhos ao seu lado.

"Sim." Uma imagem do rosto cruel de Nahiri lampejou novamente na mente de Akiri. E o rosto morto de Zareth.

"Ainda podemos pegá-la", Jace disse, começando a escalar novamente. "Depressa."

"Não, Jace!" disse Nissa. "Olhe!"

Akiri seguiu para onde o dedo de Nissa apontava. À distância, conseguia distinguir uma figura de cabelos brancos correndo pelo ar, como se disparasse por um lance de degraus. Akiri reconheceu a litomancia. A visão de Nahiri fez o estômago de Akiri revirar.

Nissa lançou uma mão para frente e disparou dezenas de flechas de espinhos contra Nahiri. Mas a distância entre elas era grande demais. Nahiri teve tempo de sobra para bloquear o ataque com um estalo de pulso e um pedregulho bem mirado.

Akiri encolheu-se, preparou suas cordas. Espere, pensou ela. Ainda não.

Ouviu Jace exalar atrás dela, e Akiri virou-se para vê-lo encarando Nahiri à distância. Ele estendeu três dedos na direção da litomante, como um ataque, e Akiri prendeu a respiração.

Nada aconteceu.

Então Nahiri tropeçou, agarrando as laterais da cabeça. A boca de Jace contraiu-se.

Nahiri recuperou o equilíbrio em instantes e deslizou para uma parada nos degraus de pedra. Virou-se em direção a Jace.

Mesmo desta distância, a malícia no olhar de Nahiri fez a pele de Akiri arrepiar.

"Cuidado!" Akiri gritou, empurrando Jace para fora do caminho antes que um pedregulho colidisse com ele.

Então ela estava caindo novamente. Mas desta vez com Jace em seu aperto.

Akiri era a melhor lançadora de cordas de Zendikar por um motivo, e estivera esperando o ataque de Nahiri. Em segundos, lançou a corda em sua mão e prendeu o gancho na escada de vinhas. Usou seu impulso para balançar para fora do caminho de outro pedregulho e, com três movimentos rápidos mão sobre mão, içou a si mesma e a Jace de volta para a escada de silvas.

Quando olhou pelo céu novamente, Nahiri sumira. Akiri exalou, ao mesmo tempo aliviada por estar fora da vista de Nahiri e furiosa por ela ter escapado.

"Aquilo foi~" Jace disse para Akiri, situando-se, "impressionante."

"Nahiri contratou o meu grupo por um motivo. Somos~fomos~os melhores do mundo", respondeu Akiri. Com uma pontada de preocupação, perguntou-se onde estariam Kaza e Orah.

Por favor, estejam vivos, pensou ela.

"Precisamos segui-la rápido!" Nissa disse enquanto começava a descer pelas silvas.

"Oh, se é velocidade que você quer", Akiri disse com fria certeza. Ela era Akiri, a Viajante Destemida, e era a mestre deste domínio. Este era o seu lar. Começou a girar outra corda.

Entre seu lançamento de cordas e as vinhas de Nissa, elas voaram para baixo, passando pela Baía da Cisão e pela copa das árvores harabaz, em direção aos infames precipícios imponentes de Murasa. Akiri varria o ar como um pássaro a partir daquelas alturas vertiginosas, apesar de precisar ajudar Jace. Desta vez, sua queda era praticada, controlada, embora seu coração estivesse pesado de luto.

Ela não podia deixar Nahiri escapar.

Mas ainda estavam lentos demais. No momento em que ela, Nissa e Jace alcançaram o amplo planalto arborizado além dos precipícios, Nahiri sumira.

Nissa cerrou as mãos e encostou-se em uma imensa árvore jurworrell. Lá, ficou imóvel, fechou os olhos, com a cabeça levemente inclinada para um lado.

"O que ela está fazendo?" Akiri sussurrou para Jace. Jace deu de ombros.

"Escutando", respondeu Nissa. Após um momento, abriu os olhos. "Ela foi para o norte, mas não consigo dizer exatamente para onde. Nahiri disse a você para onde iria a seguir?" perguntou ela a Akiri.

Akiri balançou a cabeça. Agora que estava no chão novamente, as memórias de Zareth a perseguiam. Passara tempo demais com planeswalkers misteriosos. Entendia agora que eram tão perigosos quanto os Eldrazi. "Obrigada por me salvar de novo", disse ela, recolhendo suas cordas.

"Aonde você vai?" Jace perguntou, alarmado.

"Preciso encontrar Orah e Kaza."

"Quem?"

"Meus amigos. Espero que Nahiri não os tenha matado também." Akiri engoliu em seco. Não sabia o que faria se perdesse todo o seu segundo grupo de aventureiros. Sua segunda família.

"Poderíamos usar a sua ajuda", suplicou Jace.

"Bem, não podem tê-la", respondeu Akiri. "Trabalhar para Nahiri foi um dos meus maiores erros. Ela usou o Núcleo~Zareth"—Akiri respirou fundo—"Cansei de ajudar pessoas de outros reinos." Não tinha certeza de onde Nahiri viera, mas não era da Zendikar que ela amava.

"Não sou de outro reino", disse Nissa, calmamente. "Nasci aqui. Em Bala Ged. Minha tribo~minha tribo foi quase exterminada pelos Eldrazi. E sinto a devastação em todos os lugares deste mundo." Ela empertigou-se e olhou diretamente para Akiri. "Este é o meu lar e sempre será. E eu me recuso a deixar Nahiri transformá-lo em sua visão de pedra morta." Falou suavemente, mas havia uma determinação feroz em sua voz, em sua posição.

Pela primeira vez, Akiri notou como toda a floresta parecia se dobrar ao redor desta elfa diminuta. Como se estivesse esperando que ela desse um comando.

"Você deveria saber então", disse Akiri, "o Núcleo corrompe e mata. Bestas, árvores~"

Pessoas, ela não conseguiu se obrigar a dizer.

A expressão de Nissa era de dor, mas não de surpresa. "Então, você não tem nenhuma ideia de para onde ela possa ter ido?" perguntou ela.

"Nenhuma", Akiri respondeu.

"Eu talvez tenha", disse Jace, parecendo culpado. Ambas as mulheres olharam para ele com surpresa. "Espiei os pensamentos dela", admitiu ele. "Ela está indo para a Cidade Cantante."

Akiri conhecia as lendas ao redor da Cidade Cantante. Dizia-se que aqueles que vagavam em suas ruínas enlouqueciam.

"Acho que olhar a mente dela foi a decisão certa", disse Nissa, gentilmente. Sua testa então franziu-se. "Mas por que ela quer ir para lá?"

"Porque foi construída pelos antigos kor", Jace respondeu.

"O quê?" Nissa e Akiri disseram em uníssono.

"Bem, é uma conclusão lógica", Jace disse. "Eles construíram as cidades ancestrais deste mundo." Mas os olhos de Nissa estavam fechados novamente, escutando.

"Consigo chegar lá mais rápido sozinha", disse ela.

"Nissa, espere", Jace disse, alarmado.

Mas estava claro para Akiri que Nissa não estava esperando por ninguém. Já havia um emaranhado de raízes jurworrell subindo sob ela, içando-a no ar. "Vou parar Nahiri e destruir o Núcleo", disse ela, olhando para baixo para Akiri. "Eu prometo." Mas desta vez, por trás daquela determinação silenciosa, Akiri ouviu raiva.

Akiri assentiu. "Depressa."

"Nissa", Jace disse, mas nenhuma das mulheres prestou atenção.

Como uma corda lançada com propósito, as raízes incharam e dispararam para frente na floresta.

Então Nissa se fora.

"Nissa!" Jace gritou atrás dela. Mas não havia nada onde ela estivera, exceto o zumbido da floresta e as árvores imponentes. Ele virou-se para Akiri. "Você pode me levar à Cidade Cantante?"

"Sim, mas não vou." Akiri prendeu uma corda em uma grossa raiz jurworrell acima dela. Precisava encontrar os grifos que ela e seu grupo montaram para Murasa. Esperava que Kaza e Orah estivessem na Baía da Cisão, esperando por ela.

Por favor, estejam seguros, pensou ela.

"Por favor, Akiri", Jace disse, aproximando-se por trás dela.

"Você não é muito bom em escutar, é?" Akiri disse, erguendo-se do chão. "Já perdi o suficiente por um dia."

Uma vida inteira. Zareth.

"Peço desculpas", Jace disse. "Geralmente sou um ouvinte razoável. Têm sido uns anos~bem, uns anos difíceis, para ser honesto."

Sim, têm sido. Akiri puxou-se pela raiz e procurou pelo próximo ponto de ancoragem.

"Espere, seus amigos são Kaza e Orah, certo?" Jace disse.

Akiri parou, encarou o homem de azul. "O que tem eles?"

Jace fechou os olhos e pressionou os dedos na lateral das têmporas por um momento. "Estou sentindo duas figuras lá na baía. Presumo que sejam o seu grupo desaparecido. Embora não possa dizer com certeza."

Akiri agarrou a corda e deslizou para o chão. "Como você está fazendo isso?"

Jace deu de ombros. "Sou um mago. Sou bom em ilusões e pensamentos."

"Foi assim que você pôde ler a mente de Nahiri?" perguntou ela. Jace pareceu culpado, e Akiri recuou diante da ideia de ter seus pensamentos lidos por este estranho de outro mundo.

Minha mente é minha, pensou ela com raiva, apenas para o caso de Jace estar ouvindo. Fique fora dela.

Começou a escalar novamente.

"E se eu prometesse levar o Núcleo para outro lugar? Para algum lugar além de Zendikar?" Jace gritou atrás dela.

O que isso sequer significa? Akiri quis perguntar, mas deteve-se com um pequeno estremecimento. Os Eldrazi eram de algum lugar além de Zendikar. Era melhor não saber.

"O Núcleo não será mais um perigo, então?" perguntou ela, em vez disso.

Jace assentiu.

Aquilo fez Akiri pausar. Zareth teria querido que você salvasse Zendikar. O pensamento fez seu coração doer. Roubar o objeto perigoso e enviá-lo para outro mundo? Zareth teria adorado aquilo. E, Akiri tinha que admitir, era uma boa solução. Com um suspiro, voltou-se para Jace.

"Eu te levo até a entrada da Cidade para que você possa ajudar Nissa", disse ela, cautelosamente, "mas nem um passo além."

"Obrigado, Akiri", Jace disse com alívio.

Se ele estava lendo os pensamentos dela, ela não encontrou sinal disso enquanto seguiam para a Cidade Cantante.

Foi apenas muito mais tarde, depois de se reunir com Orah e Kaza na Baía da Cisão, que Akiri percebeu que nunca dissera seu nome a Jace.

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Jace seguiu Akiri através das árvores jurworrell emaranhadas e imponentes até que deram lugar a uma floresta assolada pelos Eldrazi. Aqui, a paisagem doentia e enegrecida fez o estômago de Jace se contrair de culpa, embora ele notasse que havia vida nova e tenra lutando para crescer no lodaçal.

Ele prosseguiu.

Seguiu-a conforme as árvores terminavam contra precipícios imponentes, tão altos quanto a Muralha de Murasa. Seguiu-a conforme escalavam as pedras rachadas, onde os rosnados baixos de bestas invisíveis escondidas nas cavernas dos precipícios às vezes faziam as rochas sob suas mãos vibrarem.

Jace seguiu Akiri até o Planalto Na e para dentro da floresta densa além. Ficou aliviado por não ter que fazer esta jornada sozinho, conforme as árvores jaddi tornavam-se mais densas e escuras à medida que se aproximavam da cidade.

Akiri permaneceu em silêncio durante toda a jornada, exceto para sussurrar "Cuidado com os vermes" ou "Há goblins por aqui. Fique o mais silencioso que puder."

Jace percebia que ela estava guardando seu luto e preocupação para perto, tentando não demonstrar, embora a dor dela fosse óbvia para ele. Talvez porque ele estivesse guardando seus próprios segredos dolorosos.

Chegaram a uma clareira na floresta. Diante deles havia um cemitério de uma cidade além da idade. Era como se um dos Casulos do Céu maciços tivesse se assentado na terra. Suas torres de pedra estavam quebradas e tombadas, e suas paredes cobertas de flora e musgo. O ar cheirava a mofo e poeira, e tudo zumbia estranhamente. O portão na entrada era feito de mármore — escuro e imenso e retorcido e belo, enrolando-se e entrelaçando-se em um padrão complexo como as raízes jaddi. Assomava diante de Jace e Akiri.

"Algum conselho?" perguntou ele.

"Não enlouqueça", respondeu ela.

"Certo." Jace ajeitou seu manto. "Obrigado pela ajuda. E~sinto muito pelo seu amigo. Sei como é perder alguém próximo."

Akiri assentiu, sua mandíbula cerrando-se com a emoção reprimida. Virou-se e começou a se afastar, mas então parou.

"Espero que a sorte de Nissa seja melhor que a minha", disse ela, por cima do ombro. E então sumiu na sombra das árvores.

"Certo", Jace disse de novo, e dirigiu-se ao portão.

Estava destrancado.

Lá dentro havia um labirinto de ruínas. Salas cobertas de musgo e corredores estendiam-se diante dele sem fim à vista. O coração de Jace afundou. Estava aparente que aquilo não ia ser fácil. Por mais que adorasse um desafio, aquele não era o momento de se perder.

Por toda parte, havia um zumbido baixo, levemente desafinado, que Jace não conseguia ignorar totalmente.

À sua direita, algo se moveu. Jace imediatamente ergueu uma proteção mágica ao seu redor. Seguiu o som ao dobrar a esquina e viu uma figura de cabelos brancos de costas.

"Olá, Jace", Nahiri disse, sem se virar. "É claro que você está aqui."

"Vim em nome de Nissa", disse ele.

"Naturalmente."

"Ela diz que aquele Núcleo destruirá Zendikar."

Nahiri virou-se e encarou-o, fechando a cara. "Isso vindo da pessoa que libertou os Eldrazi neste plano."

Jace rangeu os dentes. Ele era também um dos planeswalkers que acidentalmente libertou os Eldrazi. "Ela pensou que estava fazendo o que era melhor."

"Como ela está agora?" Nahiri ergueu uma sobrancelha, e Jace não teve resposta. "Ao contrário daquela moradora de árvores estabanada, eu sei que estou certa."

"Como você estava quando aprisionou os Eldrazi aqui?" Jace rebateu.

A expressão de Nahiri nublou-se de raiva. "Como você ousa."

"Nós não entendemos o Núcleo Litoforme", disse ele, equilibradamente, embora mantivesse um aperto firme em sua proteção mágica. "Dê-me o Núcleo, Nahiri, e podemos desvendar seus mistérios juntos. Em Ravnica."

Nahiri pausou e, por um momento, Jace esperou.

Então ela alargou a postura.

"Nunca", rosnou ela. E com um empuxo da mão, uniu as pedras de ambos os lados dele.

As pedras esmagaram a barreira de Jace mas foram retardadas o suficiente para que ele pudesse se esquivar. Rolou para ficar de pé, preparando-se novamente para o próximo ataque, criando uma dúzia de Jaces ilusórios ao seu redor.

Mas Nahiri estava disparando pelo corredor. Praguejando, Jace desfez as ilusões e correu atrás dela.

Correu por corredores ancestrais, captando vislumbres de arcos em espiral e pátios quebrados. Correu seguindo as pegadas que Nahiri deixava na poeira conforme ela disparava por passagens estreitas e salões sinuosos.

Correu por escadas retorcidas e quebradas. Para o ventre desta antiga cidade kor.

Foi aqui que o estranho zumbido da cidade tornou-se uma canção inquietante. Cantava um réquiem para algo que Jace não conseguia nomear, suas harmonias ondulantes e vibrações profundas enchendo-o de tal tristeza e anseio que ele considerou parar sua perseguição.

Não, tenho que parar Nahiri, pensou ele, ouvindo os passos dela à sua frente. Estavam desacelerando. Ele prosseguiu.

No fundo da cidade, a melodia tornou-se mais alta, mais complexa e distorcida, mais insistente. Jace rangeu os dentes. Conseguia ver o contorno de Nahiri à distância. A canção assombrada fazia suas articulações doerem.

Tenho que alcançar Nahiri. Jace tropeçou para frente pelo corredor recurvado.

Mas cada passo era pior que o anterior. A música inchou, o canto assombrado subindo, exigindo sua atenção total. Jace tropeçou, gemeu.

Tenho que encontrar . . .

Viu que havia agora arcos azuis de magia ao seu redor, piscando no tempo da música. A canção abafava todo som, todo pensamento. Jace caiu de joelhos, mãos apertadas nos ouvidos.

Tenho que . . . Tenho que . . .

Lutou para focar, agarrou-se ao pensamento. Não. Enlouquecer.

Era arriscado, não testado, mas Jace estava desesperado. Soltou os ouvidos e tentou um feitiço, um que pretendia testar, mas ainda não o fizera. Um feitiço que era delicado e perigoso. Um feitiço que bloqueava qualquer som de entrar em seus ouvidos.

Cacofonia Enlouquecedora | Arte de: Magali Villeneuve

O canto atingiu um crescendo impossível. Cada fibra de seu corpo espasmou, sua mente gritou por alívio, começando a esvair-se.

Então, no meio da nota, a canção parou.

Jace exalou. Seu feitiço funcionara.

Em segundos, sua mente clareou e suas articulações destravaram. Conseguia ver Nahiri caída no chão diante dele, mãos sobre os ouvidos. Levantou-se e correu até ela, varrendo as mãos, ampliando o raio de seu feitiço para abranger Nahiri.

Ela gemeu e cobriu os olhos. Jace manteve-se recuado, sem saber qual seria a próxima reação da litomante, cauteloso contra um ataque.

Estendeu a mão telepaticamente. Você está bem, Nahiri?

Ela levantou-se aos tropeços, rolou os ombros e fuzilou Jace com o olhar. Está esperando um obrigado?

Naturalmente não , Jace sorriu internamente.

Ela fechou a cara e encarou os próprios pés. Eu não ouvi antes. O canto. Então, quando ouvi, achei que fosse poderosa demais para que me afetasse.

Jace assentiu. Este plano sempre foi cheio de surpresas.

O Núcleo e eu não vamos deixar Zendikar, Jace. Sua postura empertigou-se com um olhar afiado e desafiador no rosto.

Tudo bem. Jace percebeu que precisava mudar de tática se fosse conseguir convencer Nahiri. Aonde você vai então?

Ao centro da cidade . Para ativá-lo.

Jace esperou, cruzando os braços.

Nahiri revirou os olhos. As runas diziam que há um ponto focal mágico lá que pode canalizar a energia do Núcleo por toda Zendikar através das linhas de força.

Isso captou o interesse de Jace. Tornando a transformação universal?

Nahiri assentiu, cautela em sua expressão.

Jace viu então como Nahiri imaginava o seu plano curado. Era Zendikar transformada. Cidades vastas e belas com milhares de pessoas produzindo, vendendo, prosperando. Arcos intrincadamente entalhados e arquitetura complexa e de tirar o fôlego por toda parte. E, acima de tudo, o plano era estável. Seguro.

Lembrou Jace de Ravnica.

Eu não vou te atrapalhar, Nahiri, se você prometer não usar o Núcleo até que estudemos este mecanismo em mais detalhes.

Nahiri parou, considerando, então assentiu. Não tenho desejo de ferir o meu lar.

Mas Jace conseguia ver os pensamentos dela e sabia que a definição de ferimento de Nahiri não era a mesma que a dele ou a de Nissa. Que ela arrasaria cidades e exércitos para alcançar seus objetivos.

Também sabia que se algum dia fosse desvendar os mistérios do Núcleo, teria que entender como ele era ativado. Que se ele fosse ser uma arma útil nas batalhas por vir, seu poder misterioso teria que ser quantificado primeiro.

E ele sabia que precisariam de cada arma que os planos pudessem oferecer quando enfrentassem Nicol Bolas novamente.

Então, com um sorriso apaziguador, voltou-se para Nahiri e pensou, Lidere o caminho.

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Nahiri e Jace viajaram pelo labirinto que era a Cidade Cantante, sua trégua desconfortável pesando no espaço entre eles. Nahiri manteve-se perto de Jace, certificando-se de ficar dentro do alcance de seu feitiço. Nunca mais queria ouvir aquelas vozes loucas e assombradas.

Enquanto caminhavam, mantinha uma mão percorrendo as paredes de pedra musgosa, perguntando-lhes o caminho para o centro da cidade, e a outra na bolsa em seu quadril. O Núcleo sob sua mão parecia quente, e ela sentia seu poder latejante. Fazia-a sorrir.

Mas também ainda sussurrava, algo baixo demais para que ela conseguisse distinguir. Talvez quando tivesse um momento, depois de restaurar a antiga beleza de Zendikar, tentaria decifrar o significado dos sussurros.

Felizmente, Jace permaneceu em silêncio, talvez vendo seus pensamentos fervorosos, enquanto ela repetia o mantra nunca mais, nunca mais.

As vibrações das pedras as conduziram por corredores aparentemente intermináveis, por pátios vazios e de volta para cima em escadas rachadas e retorcidas. Estava tão perto agora. Tão perto de encontrar o ponto focal no centro da Cidade Cantante. Tão perto de finalmente consertar todo o dano que ajudara a criar há tanto tempo.

Quando emergiram da última escadaria, encontraram-se no meio de um jardim ancestral, agora coberto de mato e tomado por raízes jaddi, samambaias, musgo e flores roxas brilhantes. Ainda havia treliças de pedra e fontes secas e os fantasmas de caminhos entre elas.

Jace ergueu as mãos e baixou-as lentamente, desfazendo o feitiço de silenciamento. O zumbido misterioso da cidade retornou, mas não aumentou de volume.

"E agora?" Jace perguntou.

Ela retirou o Núcleo Litoforme de sua bolsa. Brilhava em sua mão com a promessa de poder. Seus sussurros tornaram-se frenéticos, furiosos.

"Você consegue ouvir isso?" Nahiri perguntou, erguendo o Núcleo.

"Ouvir o quê?" Jace perguntou, franzindo a testa.

"Nada", disse Nahiri, rapidamente. "Vamos nos mover."

"Para onde?"

Nahiri apontou para uma grande estrutura de pedra semelhante a um coreto diante deles. Mesmo de onde estavam, ela conseguia ver que estava colapsada e arruinada. Mas não estava tudo em Zendikar?

Guardou o Núcleo de volta na bolsa e avançou.

Algo estava errado. O sentimento crescia quanto mais se aproximavam da construção em ruínas, e Nahiri percebeu que o coreto caíra completamente sobre si mesmo, esmagando o que quer que estivesse lá dentro.

"Não", disse Nahiri, e correu para frente, colocando as mãos na entrada colapsada. As vibrações da pedra lhe diziam que o dano era fresco.

"O que você está fazendo?" Jace perguntou.

"Consertando isto!" Nahiri disse conforme as rochas ao seu redor começavam a se deslocar e se mover. Ela podia desfazer esse dano. Ela tinha que conseguir.

"Não se dê ao trabalho", disse uma voz atrás deles. Nahiri girou e viu Nissa parada nas ruínas de um jardim ancestral, cajado em uma mão e a outra fechada em um punho ao lado do corpo. Ela mantinha-se alta e firme, e havia um olhar calmo, porém perigoso, em seus olhos.

"O ponto focal", Nahiri disse, entre dentes cerrados, "era aqui."

"Era", Nissa respondeu, friamente, "até que os elementais o destruíram."

"Você fez suas criaturas fazerem isso?" gritou Nahiri. Levaria dias, se não semanas, para desfazer o dano aos canais mágicos aqui.

"Eu não as faço fazer nada", Nissa respondeu. "Eu as ajudo, e elas me ajudam. Sou a guardiã de Zendikar, e elas são as personificações vivas deste plano." Atrás dela, um elemental gigante apareceu. Seus membros eram formados de raízes e folhas, e sua cabeça tinha galhadas massivas que pareciam asas voltadas para trás. "Não é verdade, Ashaya?"

Ashaya, a Alma da Selva | Arte de: Chase Stone

Nahiri fechou a cara, mas a aparição de um elemental tão formidável fê-la pausar. Tanto ela quanto Jace recuaram um passo.

"Nissa." Jace ergueu as mãos em um gesto apaziguador. "Prometo que não usarei o Núcleo nem deixarei ninguém mais usá-lo", disse ele olhando para Nahiri, "até que o entendamos."

"E o que vale a sua palavra quando a outra parte não vai respeitá-la?" respondeu Nissa. Ela encarava Nahiri diretamente.

"Se ela não o fizer", Jace disse com uma calma irritante, "ela se encontrará em uma ilusão impressionantemente crível da Cidade Cantante. Exceto que desta vez, não bloquearei a canção."

"Intrometido", sibilou Nahiri. Jurou silenciosamente nunca mais confiar em ninguém.

"Não quero lutar com vocês. Realmente não quero", Nissa disse a Jace e Nahiri. "Todos já lutamos o suficiente. Merecemos um pouco de paz."

"Concordo plenamente, mas~" Jace disse, "acho que Nahiri tem um ponto. A Zendikar ancestral era bela. Vi as memórias dela."

"Viu, até o intrometido concorda comigo", Nahiri disse com satisfação. Finalmente, alguém estava vendo a razão.

"Jace, conversamos sobre isso. Os elementais—"

"Vão crescer de novo. Tudo cresce de novo."

"Nem tudo", Nissa disse, calmamente.

"A Zendikar que eu conheço é forte, inquebrável", Nahiri disse.

"Pense na estabilidade", ponderou Jace. "Como as pessoas neste plano poderão prosperar sem medo do próximo Turbilhão."

Nissa recuou um passo. Depois outro. "Eu confiei em você", disse ela a Jace. O horror e a mágoa em seu rosto eram evidentes.

"Nissa", suplicou Jace.

"Você não quer lutar comigo", Nahiri disse, colocando uma mão sobre o Núcleo em sua bolsa.

Nissa encarou-a fixamente. "Não tente."

Mas Nahiri cansara de ouvir. Enfrentara dragões anciões e vampiros imortais. Não seria parada. Não agora. Não por alguém tão pequena e tenra e insegura. Não quando estava tão perto.

Com um estalo de pulsos, Nahiri criou dúzias e dezenas de espadas brilhantes. Uma para cada instância de sua fúria nos últimos mil anos. Com um segundo estalo, arremessou as espadas diretamente contra Nissa.

Mas antes que qualquer uma de suas armas fizesse contato, um vulto derrubou todas as espadas do ar.

Algo colidiu com Nahiri e tirou o fôlego de seu corpo, esmagando-a contra o chão.

Ela rolou e ficou em pé, preparando-se para contra-atacar. Mas o que viu a fez pausar. Ao seu lado, ouviu Jace prender a respiração.

Nissa flutuava a vários metros de altura, seu cabelo flutuando atrás dela, energia verde percorrendo seu corpo. Mesmo à distância, Nahiri sentia a raiva de Nissa, seu intento de proteger esta Zendikar quebrada a todo custo. Pois diante de Nissa estava Ashaya em seu poder total.

A Alma da Selva pareceu inchar com força, com o ímpeto de proteger. Seu olhar estava fixo em Nahiri, seus olhos brilhando verdes de energia, e ergueu quatro de seus membros em forma de galho retorcido, descendo-os sobre Nahiri com um estalo feroz.

Nahiri rolou para fora do caminho bem a tempo. Com um arco do braço, ergueu pedras ao seu redor e as esmagou contra o elemental. Mas as rochas quebraram contra os galhos como vidro, e a criatura nem sequer estremeceu. Virou sua cabeça massiva em direção a ela.

O elemental ergueu seus braços vastos novamente.

"Corra!" Jace gritou atrás dela.

Nahiri sempre pensou que a retirada fosse para covardes. Mas Ashaya era implacável. Preciso proteger o Núcleo. Acima de tudo.

Então, ela correu.

Juntos, ela e Jace esquivaram-se e saltaram e dispararam pelo jardim ancestral, usando cada ilusão e contra-ataque que conheciam. Mas ainda não era o suficiente. Ashaya era vasta demais, rápida demais. Jace e Nahiri eram derrubados e tropeçavam em raízes a cada oportunidade, até que tudo o que puderam fazer foi derrapar em direção às escadas, de volta para o ventre da Cidade Cantante.

O canto assombrado inundou seus ouvidos. Jace imediatamente lançou seu feitiço de bloqueio de som novamente, e juntos correram de volta pelos corredores cobertos de musgo. Ocasionalmente, elementais de musgo colocavam-se em seu caminho, mas eram menores e mais fracos e facilmente repelidos pelos contrafeitiços de Jace ou por um punho de rochas bem mirado.

A fúria de Nahiri impulsionava sua fuga. Mas pela primeira vez em muito tempo, também sentia um fio de medo real. Subestimara a elfa.

Quando alcançaram a entrada da cidade e viram os velhos portões de mármore, Nahiri exalou, aumentou a velocidade. Estava quase lá.

Mas então avistou uma figura pequena e familiar parada na entrada. E desta vez, Nissa e Ashaya estavam cercadas por dúzias e dezenas de outros elementais.

Nahiri e Jace ambos derraparam até parar.

"Como", Nahiri arquejou. "Como você está viajando~tão rápido?"

"Zendikar é onde eu pertenço. É o coração do meu poder e força", Nissa respondeu. "Conheço todos os caminhos e como usá-los. Mas vocês dois"—seu rosto encheu-se de fúria, e atrás dela elementais nascidos da flora de Murasa começaram a erguer-se—"vocês nunca entenderão. Saiam da minha casa."

"Nissa, espere!" gritou Jace.

"Esta é a minha casa, moradora de árvores." Nahiri firmou-se, convocou as pedras ao seu redor, e sentiu a Cidade Cantante às suas costas tremer em resposta. "Esta tem sido a minha casa por milhares de anos. E eu não vou deixar você vencer."

Nahiri abriu os dedos e ergueu as pedras, convocando todo o seu poder para o ataque.

Mas os elementais foram mais rápidos, avançando como uma horda furiosa contra Jace e Nahiri. E naquele momento, Nahiri entendeu.

A batalha pela alma de Zendikar começara, e seria uma luta implacável.

25/09/2020 | Por Brandon O'Brien

Fome

Bem na borda da Cidade Livre de Nimana, um homem em mantos cinza-escuros caminhava através da noite escura como breu em direção aos acampamentos, puxando o colarinho para se proteger da brisa. Mantinha um olho atento em todos enquanto seguia pela rua do mercado. Os habitantes locais percebiam que ele era um forasteiro sem nunca vislumbrar o rosto sob os mantos — ele caminhava cautelosamente, como se tivesse ouvido todos os piores rumores sobre a cidade. Os olhos de alguns ladrões próximos se arregalaram ao notar seus detalhes menos perceptíveis: o peso das bolsas de moedas em seus bolsos, um pergaminho agarrado dentro de um bolso interno de seus mantos, e o próprio ar com que caminhava parecia denunciar que estava a serviço de alguém que o pagava bem — alguém de quem ele também tinha um medo terrível.

Perto do fim do mercado ficavam as tendas onde mercenários aventureiros locais faziam seus negócios. Ali, a reconstrução estava em seu ritmo mais lento, casas inteiras ainda despedaçadas, embora ao menos os escombros tivessem sido limpos, abrindo espaço para o comércio habitual da cidade. O homem de manto viu tritões gritando com açougueiros sobre o preço das carnes que haviam cortado de carcaças de monstros e vigaristas contando histórias mirabolantes sobre bugigangas que lutavam para vender. Além deles estavam os próprios expedicionários, trocando histórias e checando suas ferramentas sob a luz fraca compartilhada das tochas e da lua, esperando que alguém chegasse até eles com trabalho.

Ele sabia quem estava procurando. Seu empregador o enviara em busca de um espadachim que frequentava o mercado para beber. Esse homem fazia parte de um dos grupos mais brutais e eficientes de Guul Draz, um bando sem nome de viajantes que se importavam pouco com a emoção da aventura ou da descoberta; importavam-se apenas com moedas. Isso agradava a ele e ao seu empregador — não queriam alguém que fosse galantear ou fazer um espetáculo da coisa. Queriam apenas o caminho livre.

Ele encontrou o homem logo, encostado em uma parede de esquina ao lado de um par de curtidores idosos vendendo couros de bestas exóticas, polindo o fio de uma pequena lâmina em sua camisa de linho. O espadachim olhou para cima para encontrar os olhos do homem de manto o encarando. "Precisa de algo, amigo?"

"Você é Tarsa, por acaso?"

O homem suspirou enquanto assentia. "Siga-me, então."

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Anowon, o Ladrão das Ruínas | Arte de: Magali Villeneuve

Nenhum dos dois notara o vampiro atrás deles, espreitando o emissário por todo o caminho até o mercado. Ele puxara o capuz de seu longo manto vermelho-sangue sobre a cabeça para esconder sua palidez. Este vampiro aprendera bem ultimamente como se ocultar, como não atrair atenção. Era um homem odiado na maioria dos lugares, um assassino e ladrão com mais infâmia do que renome, alvo de palavras cruéis de alguns e espancamentos muito piores do restante. Os grupos expedicionários que o deixavam viajar ao seu lado o faziam hesitantes, com facas ao alcance enquanto dormiam.

Ele suspeitava que seguir este enviado seria o primeiro passo para acabar com isso. De fato, Anowon pensava que este homem seria seu caminho para a redenção.

Quando Tarsa chegou às tendas, gesticulou para dois aventureiros, que se empertigaram para saudar a dupla como profissionais. Um kor esbelto com cabelos prateados ofereceu-lhe uma caneca de latão com algo transparente e de cheiro forte. "Onde o senhor planeja enviar a melhor equipe expedicionária que Nimana tem a oferecer, senhor?"

O homem de mantos azuis rejeitou a bebida com um aceno de mão. "Não há necessidade de cortesias. Não sou ninguém de nota — simplesmente a voz viajante de um benfeitor ansioso para empregá-los."

Anowon manteve-se recuado, bisbilhotando atentamente de um beco próximo. Ele esperava encontrar o emissário sozinho, para defender seu caso por uma expedição e então encontrar sua própria equipe depois, mas agora não havia remédio. Talvez este grupo fosse o suficiente. Grandes histórias da equipe de Tarsa eram bem contadas em Nimana, sobre seu comportamento imperturbável e senso aguçado de viagem. Ele também ouvira algo que o emissário certamente ainda não sabia~

"Parece que um membro de sua equipe não está aqui?" o homem disse, baixando o capuz para coçar seus cabelos pretos como azeviche, olhando ao redor das tendas. "Disseram-me que vocês tinham um complemento de quatro, mas—"

Tarsa interveio rapidamente, com o cenho franzido de frustração. "Nós~perdemos um dos nossos em uma viagem a Ondu." Olhou para o kor, cujos punhos se cerraram assim que ouviram a pergunta, relaxando conforme seus olhos se encontraram. "Mas o senhor não precisa se preocupar com o nosso trabalho por conta disso, senhor."

Ondu. Os ouvidos de Anowon se aguçaram com a menção. Mesmo que não conseguisse o emprego, talvez encontrar este grupo em particular fosse ainda uma pequena serendipidade.

"É uma pena, imagino", disse o emissário, "o que quero dizer é que é irônico que vim oferecer um trabalho em Ondu — um trabalho que meu empregador sabe que é tremendamente perigoso."

Serendipidade de fato, Anowon sussurrou para si mesmo.

O kor ficou tenso novamente. "Quão perigoso você quer dizer?"

O emissário inclinou a cabeça em direção ao kor. "Nadino, correto?" Ele nem esperou que respondessem ao seu nome antes de continuar. "Já tiveram a chance de ver o Casulo do Céu na Ilha de Jwar?"

Nadino arquejou, e Tarsa instintivamente voltou-se para eles com conforto nos olhos. "Já vimos", respondeu suavemente.

"Oh~" Um batimento de silêncio passou antes que o emissário continuasse. "Talvez isto não seja—"

"Não." Nadino falou entre dentes cerrados. "Apenas um risco ocupacional. Nós o ouviremos."

Tarsa fez uma careta. "Eu, por mim, quero uma revanche com aquela maldita coisa."

"Grakmaw, eles a chamam", acrescentou o emissário. "Essa é, de fato, a sua presa. Ela tem perturbado as rotas de viagem verticais na área, o que não é bom para os negócios das expedições. Meu cliente pagará qualquer preço que vocês nomearem, se vencerem o seu segundo round."

Nadino deu um risinho. "Claro. Decepá-la será um bônus."

"Bônus?" O emissário sorriu. "Meu cliente está disposto a oferecer pagamento por cabeça."

"E este~cliente?"

"Não é da sua conta. Só precisam saber que o pagamento é bom." Ele buscou uma bolsa de veludo azul real e a lançou diante de si. Tarsa instintivamente a pegou no ar. Parecia ter facilmente cento e cinquenta peças. "Para despesas. É claro que vocês também ficam com o que encontrarem, mas lembrem-se que estamos pagando por controle de pragas, não por exploração."

Anowon buscou em um bolso de seu manto um de seus papéis enquanto falavam. Aquele Casulo do Céu tinha algo a lhe oferecer também, se ele pudesse simplesmente defender seu caso—

Suas notas caíram embaralhadas na rua conforme um homem elfo o segurava por trás, com a dobra do cotovelo envolta no pescoço de Anowon. "Chefe!" o elfo chamou Tarsa. "Parece que pegamos um espião!"

"Solte-me, seu—!" Todas as palavras que vieram a Anowon para terminar aquela frase eram amargas. Ele estava tentando ao máximo não ser amargo. Sabia que passaria por muito disso. Era por isso que estava se mantendo escondido, o que, em retrospecto, fora uma ideia terrível por este exato motivo. Era também por isso que não revidaria, não importa quão fácil seria subjugar a todos eles. Não queria aumentar a hostilidade, especialmente porque seu rosto ainda estava escondido—

"Mostre o seu rosto, sombra!" o emissário gritou, com a falsa bravura de quem nunca entrara em uma briga ou dera uma ordem antes.

O elfo levantou o capuz de Anowon. A própria visão de seu rosto pálido e pintado foi o suficiente para Tarsa sacar sua lâmina.

"Não!" Anowon gurgulhou, estendendo as mãos em submissão. "Não quero causar mal! Deixe-me—" ele apontou para baixo, para seus papéis.

Nadino ajoelhou-se para pegar a folha mais próxima deles, cerrando os olhos para ela antes de passá-la para Tarsa. "Notas sobre os Casulos do Céu~parece que o sábio favorito de todos está ansioso para ver o interior de um."

Tarsa gesticulou para o elfo soltar, e Anowon caiu no chão e recolheu seus papéis. "Calculo que você seguiu este homem até aqui para roubar o nosso trabalho?"

O vampiro balançou a cabeça. "Quero~vê-lo."

Nadino cruzou os braços. "Isso não é problema nosso."

Anowon pausou para absorver os olhares tensos e irritados de todos, então levantou-se para encontrar o olhar de Tarsa. "O que quer que pensem de mim, tudo o que peço é estudar a coisa. Vocês podem precisar de outro membro em todo caso. Permitam-me preencher esse vazio." Voltou-se para Tarsa. "Ofereço-me para servir ao seu grupo por uma fração de seus ganhos."

"E o que haveria nisso para você?" Tarsa perguntou.

Ele pausou, buscando a palavra antes de responder. "Conhecimento."

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A equipe de Tarsa odiou o acordo, mas ele satisfez o emissário, então se acertaram. Anowon ganharia mal e mal cinco por cento da bolsa, mas teria direito a quaisquer papéis que encontrasse. Relíquias eram outra questão; o vampiro concordou em deixar Tarsa arbitrar, insistindo que não tinha interesse em ouro ou armas. Quando perguntado o que esperava encontrar além desses prêmios, ele respondeu: "Coisas muito mais valiosas."

Por esse tom arrogante, o clérigo elfo de Tarsa, Eret, saqueava as mochilas do sábio sempre que o grupo dormia, procurando por qualquer sinal de um motivo mais sombrio.

O emissário do cliente já havia comissionado transporte marítimo de Nimana para Jwar, tripulado apenas por um marinheiro responsável por retornar o navio. A tensão de estar preso no mar com um vampiro atingiu os três quase imediatamente. Nadino não tinha problemas em expressar sua frustração na cara de Anowon, ameaçando-o a cada duas respirações se ele chegasse perto demais ou falasse fora de hora. Eret era mais silencioso, mais cauteloso, nunca ousando dormir quando podia manter um olho aberto para uma lâmina ou uma mordida. Tarsa preferia delegar qualquer coisa desafiadora, elogiando jocosamente a força e resiliência de seu vampiro como melhores para manejar as velas sozinho enquanto atravessavam os ventos ávidos da bocarra da serpente, com as cordas tão tensas sobre seus braços que ele brevemente se preocupou se as tempestades as arrebentariam.

Anowon suportou tudo com estoicismo frio. Sua palavra mais frustrada veio quando Nadino ameaçou pela terceira vez alimentar seu companheiro gnarlid, Jolly, com partes dele se ele cruzasse a linha. "Garanto-lhe, não quero causar mal. Depois que matarmos Grakmaw, nunca mais cruzaremos caminhos."

Chegaram às margens da Ilha de Jwar meras horas antes do crepúsculo. Anowon fez uma careta. O escuro era sempre o pior momento para escalar, mas Tarsa já insistira que terminariam a noite o mais perto possível do Casulo do Céu. Ele foi o primeiro a sair da pequena embarcação para recolher as bolsas de equipamentos, carregando-as quase solenemente enquanto os outros três aventureiros e seu mascote com chifres desembarcavam.

Atrás dele, pôde ouvir uma voz escura e rascante resmungar em uma língua desconhecida para ele. Soava como uma ameaça, como uma leitura de sua alma, prometendo um sofrimento vindouro. Virou-se para encontrá-la e encontrou dois rostos de pedra projetando-se da areia e grama para encará-los, suas bocarra escancaradas revelando o brilho azul mais pálido que parecia cintilar lentamente, como a luz de um vaga-lume.

Anowon ficou parado, transfixado. Quanto mais ouvia, mais podia jurar que conseguia distinguir algum significado, quase ganhando clareza apenas para vê-la desaparecer em ruído no momento seguinte. Doía duplamente; uma vez com uma pulsação em sua mente, e outra com o anseio de entender. Voltou-se para os outros. "Vocês~ouvem isso—"

Eret deu-lhe um tapa forte na nuca, despertando-o de seu transe. "Olhem para o rosto deste pobre homem. Não me digam que o nosso bravo sábio das ruínas tem medo dos faduun!"

Anowon virou-se, pronto para saltar sobre o elfo. Seus olhares se encontraram, e a outra mão de Eret imediatamente buscou uma lâmina ao seu lado. Brevemente, os pensamentos de Anowon viajaram para a imagem deste elfo ficando pálido enquanto ele bebia o último de sua vida, o som dele clamando por ajuda até sua voz sumir no nada—

"Há algum problema?" Tarsa disse. Do canto da visão de Anowon, ele podia ver a mão do guerreiro buscando sua lâmina.

"Nenhum", respondeu Anowon.

A noite caíra completamente quando chegaram à rota ascendente mais segura para o Casulo do Céu. Tarsa enviou Anowon à frente, enquanto o restante da equipe recuperava suas mochilas e trabalhava seu caminho verticalmente pelas faces dos precipícios. Confiando em sua visão superior para guiá-lo através do escuro, ele prendeu as cordas, auxiliado apenas pelo fraco brilho azul do Strand mais ao centro da ilha. Os outros três seguiam atrás cautelosamente. Eret fez menção de fazer uma pergunta ao seu capitão, e com um olhar gélido, Tarsa a esmagou.

O peso dos três corpos atados a ele, combinado com a gravidade puxando-o para baixo, parecia um teste. Seja paciente, pensou ele. Quando tudo isso acabasse, todas as suas loucuras anteriores estariam para trás. Se estivesse certo sobre os Casulos do Céu, teria o poder e o conhecimento que buscara por tanto tempo. E se se comportasse com esse poder, permanecesse humilde como fora durante seus dias simples devorando os textos no Portal Marinho, poderia ser capaz de mantê-lo.

O gnarlid de Nadino já encontrara seu próprio caminho subindo o precipício e, conforme o trio de aventureiros finalmente emergia um a um do paredão, saudou cada um com lambidas úmidas nas bochechas. O kor apontou para cima e para nordeste, nem sequer levantando a cabeça do afeto de seu animal de estimação. "As rochas elevadas deste precipício são as mais próximas e já estão cabeadas. Entraremos por ali. A esta altura não há muita luz, então ou fazemos isto rápido ou fazemos na aurora."

Anowon mal ouviu. Já saltara da borda para a plataforma mais próxima, pausando ao aterrissar para compensar o peso de sua mochila. "Acampem se desejarem", disse ele. "Quero vê-lo."

"O que há de errado com você, sábio?" Nadino gritou. "Esqueceu que nosso trabalho é limpar uma hidra destas ruínas?"

"Prometo ser cuidadoso—"

"—ou você pode morrer!"

"Então prometo morrer cuidadosamente!" Mordeu a língua e inspirou um longo sibilo. "Peço desculpas. Não pretendo perturbar nada. Minha pesquisa—"

Tarsa encontrou os olhares frustrados dos outros dois e murmurou um xingamento para si mesmo enquanto os instruía a seguir. Em uma tentativa nervosa de trazer leveza, Anowon continuou. "É fortuito encontrar estas cordas aqui. Não muitos aventureiros deixariam um caminho para seus companheiros."

Nadino fez uma careta. "~Orien deixou estas."

"Orien?" Anowon pausou. "Era o seu—"

Tarsa limpou a garganta ruidosamente. "Para a frente, vampiro."

Ele assentiu e continuou.

A visão que se estendia à frente já havia encantado a parte egoísta de Anowon. Pedra semicircular, ainda ostentando a obsidiana vermelha denteada e estrias pálidas da terra em que caíra, estava agora pairando diante deles, rica em histórias mais antigas que o dia em que Zendikar estremeceu e se rompeu para se defender.

Colunata do Casulo do Céu | Arte de: Johannes Voss

Apenas os Casulos do Céu, pensou ele, poderiam ensinar algo tão inegável quanto eles mesmos. Tanta da história de Zendikar fora construída sobre erros, pensou ele. Até ele um dia nomeara a civilização que moldara esta terra em homenagem às criaturas que a deformaram e quase a destruíram — as mesmas criaturas que tentaram roubar dos vampiros da Casa Ghet suas próprias mentes e voltá-los contra seus parentes. Todo esse tempo, Anowon se escondeu, estudou a batalha das sombras, recusou-se a se envolver. Mas os Casulos do Céu erguidos corrigiam a história, revelavam um caminho perdido dentro do passado de Zendikar. Ele só podia esperar que entre os tesouros que trouxeram consigo estivesse uma revelação sobre como este mundo deu à luz os clãs — e seus chefes de sangue — que os Eldrazi buscaram corromper e controlar. Talvez responder a essa pergunta lhe concedesse algum novo status. No mínimo, poderia absolvê-lo de sua antiga covardia.

Assim que parou nos portões do Casulo do Céu, retirou um caderno de sua mochila. Estava caindo aos pedaços, mal sendo uma pilha de papéis flutuando dentro de suas capas. Mas ele o segurou como um tomo ancestral, virando páginas ansiosamente para uma série de linhas e padrões que se entrelaçavam.

Eret alcançou Anowon, observando o vampiro pesquisar as paredes do Casulo do Céu e inclinar-se sobre suas notas para comparar as duas. Antes que o elfo pudesse perguntar, Anowon já decidira que a graciosidade lhe renderia alguma boa vontade de volta.

"Estive estudando as tesselações que os aventureiros notaram nos outros locais e percebi uma distinção sutil em seus padrões. Suspeito que isto seja texto." Apontou para ele com a borda de seu caderno. "Acredito que os antigos kor escreveram nestas paredes, o que torna uma fonte útil para descobrir o propósito deste espaço."

"Então é por isso que você está aqui?" Nadino desdenhou, agachando-se perto do portão para descansar. "Para estudar?"

"Eu~era melhor como estudante", murmurou ele. Pensou ser mentira logo em seguida. Fizera tantas coisas amargas em busca de conhecimento, tornando-se pouco mais que um saqueador. Mas antes — quando estava apenas disposto a saber, quando estava no Portal Marinho, quando Tenihas da Casa Ghet o acolheu e o ensinou a valorizar as histórias — era melhor, antes de perder aqueles momentos para sua sede de sangue. Ou pior, para sua fome de poder.

"Mal e mal isso, por sua própria confissão." Eret olhou com curiosidade para os entalhes nas paredes do Casulo do Céu. "Se há algo que nós escaladores sabemos sobre nós mesmos, é que a única coisa que vale a pena saber é o toque de uma corda resistente e o brilho de uma boa bugiganga. Você tem certeza de que pode confiar em nós para"—gesticulou para as paredes—"traduzir kor ancestral?"

"Os aventureiros não traduziram. Apenas anotaram. Padrões, curvas, profundidades~foco. Você mesmo pode ver." Anowon apontou para o fundo do Casulo do Céu, onde a noite lançara uma sombra profunda demais para continuar. "Há laboratórios mais para dentro, ao longo desta parede esquerda."

Tarsa enrolou cuidadosamente uma extensão de corda ao redor do braço enquanto se aproximava do portão, fitando os entalhes. "Então, essas marcas são~direções?" perguntou ele.

"De certa forma." Anowon traçou a borda de uma linha central do padrão de tesselação na parede, observando-a tecer-se com suas vizinhas até virar bruscamente para a esquerda e contornar uma borda. "Um crédito a esta língua é que ela não é meramente texto. É também um mapa."

Nadino suspirou. "Pena que não pode nos ajudar a encontrar—"

Um rugido ecoou da escuridão à frente deles. Tarsa apenas estalou os dedos e seu pessoal tomou posições atrás das paredes entalhadas. Nadino deixou uma bola de fogo média voar passando raspando pela cabeça de Anowon, pelo portal, e pelo corredor afora. Em sua luz, ele viu três cabeças amarelo-esverdeadas pálidas e três fileiras de dentes que lembravam armadilhas de espigões.

Antes que Anowon pudesse sequer pensar no nome da coisa, Eret o empurrara para fora do caminho, em direção a uma coluna externa. Tarsa assobiou para Nadino, e o kor disparou para a direita, atraindo os olhos da cabeça mais à direita para si, atingindo-a com rajadas conjuradas de chama e gelo alternadamente. Aquilo foi o suficiente para poupá-los — suas cabeças estavam agora divididas por uma única coluna aberta, suas mandíbulas batendo a meros centímetros deles.

"Você tem um plano em mente, chefe?" Eret perguntou.

Tarsa balançou a cabeça. "Aquela coisa pode rachar pedra com o pescoço se motivada. E nós somos motivação levemente torrada pelo sol."

Anowon pensou rápido. O emissário lhes dissera depois que a hidra aprimorara sua visão nas entranhas da terra antes de o Casulo do Céu se erguer, que conseguia sentir calor tão brilhante quanto a aurora e rastrear movimento pelos corredores mais escuros. Gritou sua ideia súbita para Tarsa. "Vocês todos precisam ficar mais frios!"

"Mais frios?" O capitão captou a ideia antes de chamar Nadino. "Vamos precisar de gelo!" Gesticulou para o corredor — passando pela própria Grakmaw. "Dê-nos um pouco de neve perto daquela parede!"

Anowon agarrou a mão dele. "Tão perto da criatura?"

"Sim." Tarsa tocou a têmpora. "Perto como cracas. Desapareceremos bem debaixo dela." Estalou os dedos novamente, e os olhos de sua equipe focaram em seu próximo sinal. Murmurou uma contagem de três para si mesmo antes de cortar o ar com o lado da mão, e eles dispararam para a parede interna.

Anowon deslizou, seu impulso gerado pela inclinação do chão erguido. No limite de sua visão, Nadino girava seu cajado de gancho acima da cabeça enquanto corriam, e ele pôde ver almofadas de gelo lamacento se acumularem lentamente acima do corredor. Exatamente antes de os aventureiros colidirem com a parede, a besta golpeou a pedra acima deles, pegando Anowon na testa e empurrando com força suficiente para esmagar sua cabeça contra o chão de pedra. Parecia tão em carne viva, tão quente de dor, e ele se perguntou quão fundo as garras tinham ido. Ouviu um gemido à sua direita, e exatamente antes de conseguir virar-se, uma espessa camada de neve caiu sobre ele e ele sentiu uma colisão suave à sua esquerda.

Ele pausou na cobertura escura da neve, levando a mão à cabeça. A coisa rugiu contra o céu e então parou com confusão. Esperou por minutos que pareceram invernos inteiros contra a pele de Anowon. O som da respiração da criatura parecia chacoalhar as paredes. Então, confiante de que três pedaços quentes de carne e seu companheiro vampiro falante haviam sumido de sua vista, a coisa saiu correndo em busca de outra refeição em outro lugar.

Manteve-se imóvel conforme ouviu a neve deslocar-se ao seu redor, seguida pela voz de Nadino. "Essa foi uma ideia sagaz, capitão. Agora~quem vai tingir o gelo de vermelho?"

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Levou um tempo para Anowon se levantar. No intervalo, sentiu como se tivesse ouvido a ilha falar com ele novamente. Seria segurança? Dúvida? Estariam até os incognoscíveis faduun rindo dele como de uma criança? Uma raiva e confusão ferviam nele e, conforme acontecia, sentia-se tonto e vazio.

Tarsa levantou seu corpo ferido da poça de neve antiga e começara a curá-lo quando Anowon acenou pedindo sua mochila. Retirou dois frascos de sangue dela, levando seu tempo para firmar as mãos ao redor deles.

Tarsa recuou. "De quem era esse sangue?"

"Os vermes e baratas que correm pelas ruínas são fáceis de sangrar", Anowon resmungou, "e eu preciso de sangue." Tirou a rolha de um e levou-o aos lábios famintamente. Apenas o toque dele foi o suficiente para selar seus ferimentos e restaurar sua consciência. Virou-se para ver os outros dois aventureiros dormindo amontoados um contra o outro, Jolly atrás de suas cabeças como um travesseiro de gnarlid arfante, e Tarsa ajoelhado ao lado deles, lutando para enrolar um pano no braço.

"Espere", Anowon disse, levantando-se. "Em minha casa, eu aprendera todo tipo de—"

"Não me trate com nenhuma magia de Malakir, vampiro", Tarsa siseou. Em sua indignação, puxou seu curativo com força demais e gemeu.

"Nenhuma, então." Anowon pousou seu segundo frasco e ergueu as mãos diante de si ao aproximar-se. "Deixe-me envolver isso para você."

Tarsa encolheu-se conforme o vampiro chegava perto mas eventualmente relaxou. Anowon pegou a ponta da faixa e circulou o braço dele cautelosamente, observando o ferimento. A hidra poderia muito bem ter arrancado o braço do homem se tivesse enganchado três centímetros mais fundo. Anowon respirou fundo à vista do sangue, suprimindo sua sede instintiva. "Muito apertado?"

Tarsa balançou a cabeça. "Obrigado."

"De nada." Anowon sorriu desajeitadamente. "Aventureiros devem cuidar uns dos outros."

Algo em seus olhos atingiu Tarsa. "Por que você está aqui?"

"Sei que isto é inconveniente. Assim que a aurora vier, podemos encontrar o—"

"Não." Tarsa empertigou-se. "Por que viajar conosco? Por que continuar em expedições? Cada grande casa te odeia e te teme — as expedicionárias e as casas de vampiros ambas. A maioria das pessoas comuns não suporta vampiros. O que há de tão importante nisso para você?"

Anowon parou para encontrar as palavras. "Estas pedras são mais antigas que os nomes de algumas de suas cidades. Quando pensamos em Zendikar, pensamos nas cicatrizes mais profundas na terra — os antigos kor construíram este lugar muito antes de aquelas sequer aparecerem. Talvez este lugar abrigue conhecimento que não conseguimos mensurar. Talvez o que eles sabiam, o que aprenderam, pudesse mudar Zendikar."

Aquilo era parte da verdade. Havia coisas que ele esperava aprender, coisas que ele secretamente esperava que lhe reconquistassem favor. Talvez os Casulos do Céu escondessem segredos sobre Zendikar que ele pudesse comparar às histórias dos Eldrazi que revelariam magia ancestral por trás do Turbilhão, ou até desvendariam o segredo de criar novos chefes de sangue por puro acidente. Talvez o erguer deles fosse o início de uma era inteiramente nova de calamidades que ele poderia prevenir como penitência por falhar com os Eldrazi. E enquanto ele se agarrava à ideia de que lhe traria glória ser o primeiro a aprender tudo isso~ele também estava cansado. Tão ansioso por curar o mundo, por nunca vê-lo sofrer novamente. Apenas ser capaz de estudá-lo sem que cada verdade revelasse uma ferida na terra. Estar em paz — consigo mesmo, com seus estudos, com o próprio solo de Zendikar.

"~Tudo bem." Tarsa escorou-se com sua lâmina para poder sentar confortavelmente contra a parede do corredor. "Calculo que você gostaria de estudar, mesmo agora. Você tem os olhos para isso. Além disso, alguém tem que vigiar, e eles odiariam se fosse você." Gesticulou para o corredor. "Vá em frente. E para o seu próprio bem, chame por ajuda quando você a vir, não quando ela te vir."

O vampiro assentiu, pegando apenas o estritamente essencial de sua mochila e envolvendo-os em um pano frouxo contra o peito conforme se aventurava mais fundo no escuro, seguindo as linhas salientes de pedra.

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A aurora seguinte encontrou Anowon em excitação jubilosa. Simplesmente estar nos salões de um Casulo do Céu lhe dava tanto. Não estava mais desvendando o raro substantivo ou preposição dos entalhes — estavam se tornando frases inteiras. A linha externa mais à esquerda do Casulo do Céu de Ondu era ela mesma um tratado inteiro sobre sua criação, sobre o trabalho que os antepassados kor estavam fazendo na terra aqui. Cada câmara portava um tesouro apenas em suas paredes. Pelo que ele conseguia ver, sua linguagem de escolha era uma longa trilha de linha marcada nas bordas brevemente por caminhos paralelos e interceptores para moldar letras. Conseguia distinguir as bordas dos papéis, menções a composições alquímicas recentes e variações de método e resultados não intencionais. Era uma pena que tantos dos papéis que encontrou estivessem petrificados ou ensopados. No momento em que tudo o que lera pôde finalmente assentar em sua mente, ele soube o próximo passo.

Retornou ao corredor de entrada e sinalizou para Tarsa segui-lo. O restante do grupo estava acordado e juntou-se a eles, com Eret cuidando dos ferimentos do capitão enquanto caminhavam. "Estávamos prestes a procurar por você", disse o guerreiro, olhando para a lâmina de sua montante antes de guardá-la. "Vamos encontrar Grakmaw, para não termos razão de ficar aqui outra noite."

"As paredes podem ser capazes de ajudar", Anowon disse, radiante com a alegria do conhecimento.

Nadino franziu o cenho. "Agora não é o momento de se vangloriar da história. Devemos permanecer na missão—"

"Estou na missão." Ele deu a Tarsa um olhar confiante. "Confie em mim."

Conduziu-os de volta ao corredor, em suas intersecções perpendiculares estranhas que se dividiam em ainda mais salas de pedra com paredes mais grossas que seus caminhos. Algumas eram antigas salas de poções onde agora restava apenas vidro quebrado e grama selvagem fervilhando de insetos. Outras eram grandes salões manchados de escuro com todo tipo de coisas que aconteceram antes de o Casulo do Céu afundar. Enquanto caminhavam, os olhos de Anowon seguiam o caminho dos entalhes e falavam o que liam suavemente: "A instalação no continente de Ondu, construída para tentar desenvolvimentos refinados de armamento e ferramentas de cerco para potencial conflito com forças externas~"

"Que outras forças?" Nadino deu por si sussurrando.

Anowon conseguia imaginar uma resposta — e se uma força opositora tivesse emergido de outro mundo, como ele vira? Mas a história contava outra história. "Este foi o Casulo do Céu que se rebelou contra a antiga capital kor em Makindi. Quando este caiu, e levou a capital consigo, também enterrou toda a civilização deles."

"Então isto é um depósito de armas?" Tarsa bateu as mãos ansiosamente. "Estive ansiando para ver como é a sensação de uma lâmina ancestral kor na mão. Parece que você não sairá com nenhuma relíquia, Anowon."

Anowon ergueu uma pilha de pergaminhos revestidos de pedra envoltos em pano. "Imagino que obtive prêmio suficiente deste lugar. Só precisamos terminar o nosso trabalho."

"Então~para onde você está nos levando?" Eret fitou as tesselações, como se esperasse conseguir desvendá-las.

"Eles mantinham uma sala de provas neste Casulo do Céu — uma câmara para testar seus experimentos. Muitos deles não eram~inanimados."

"Eles experimentavam nas bestas daqui~" Nadino balançou a cabeça. "Devem ter encontrado maneiras de deformar a vida selvagem. Seja com a própria magia da terra, ou através do seu próprio trabalho. Este Casulo do Céu~pode muito bem ser o que fez Grakmaw."

"E muitas outras coisas. Eles descobriram através da ciência o que os Eldrazi teriam exposto através da brutalidade", Anowon respondeu quase sem pensar. "Eles revelaram que este mundo é bruto, clamando. Que tem sua própria vontade, e nós continuamos impondo a nossa em vez de ouvi-lo."

Finalmente chegaram a um par de portas duplas de pedra tão altas quanto o próprio Casulo do Céu, mantidas entreabertas por vinhas selvagens que romperam pelo seu centro e as puxaram o suficiente para um corpo esguio passar. Nadino usou sua lâmina para cortar as vinhas, e o verde contorceu-se e debateu-se contra a dor. Conforme a maga deslizava, Tarsa e Eret forçaram a porta a abrir mais para eles, levantando poeira e chacoalhando as paredes com o raspar de pedra intocada.

Entraram para ver Nadino olhar para baixo para uma pilha de pano descartado. Era nas cores do grupo deles, o pano de cachecol de um kor, mas com mal e mal fio suficiente para cobrir uma mão. Ela olhou para Tarsa, lutando contra as lágrimas. "Aquela maldita~coisa~o arrastou para cá~o despedaçou~"

Tarsa colocou uma mão firme no ombro dela. "Sei que isto dói. É por isso que viemos. Pela nossa vez. Recomponha-se."

Anowon observava a cena de sua periferia enquanto estudava o amplo salão. Era ali. Largo e alto o suficiente para que uma hidra pudesse causar estragos em gado desavisado — ou até no raro elfo — trazido para o abate, com sacadas altas para os pesquisadores estudarem de cima. A hidra deve ter sido certamente muito menor naquela época — a que viram poderia muito bem ter escalado os pilares para fazer uma refeição daqueles que estariam no alto. Talvez tivesse tentado, e tido sucesso, já naquela época. "Estamos prontos para ela aqui."

Tarsa estalou os dedos. "Quando ela chegar, Nadino, pegue o terreno elevado e continue se movendo para atingi-la. Eu tentarei o mesmo. Eret, foque em sustentar Nadino e esteja preparado para nos ajudar a fugir. E Anowon—"

O vampiro ignorou-os, perdido em saquear os armários dos salões em busca de qualquer coisa que tenha sobrevivido à queda deste povo. De fato, dúzias de frascos e papéis, sem cicatrizes e sem quebras, jaziam lá dentro, e ele afundou quantos pôde em sua mochila.

"Maldito sábio!" Tarsa marchou até ele. "Depois de tudo o que nos contou, você deveria saber muito bem que não podemos deixar você partir com nenhum destes venenos."

"Fizemos um acordo, Tarsa." Falou calmamente, não com o escárnio de seu eu anterior. "Isto é apenas para pesquisa, garanto-lhe—"

"Não me importa. Se uma única alma pudesse fazer o que estas coisas fazem, poderiam despedaçar vilas inteiras~você quer que as pessoas aprendam isso? Que sejam capazes de misturar para si mesmas um horror?"

"Estes estudos podem ser úteis em mãos mais gentis. No Portal Marinho, ou—"

"Quaisquer mãos que saibam como distorcer Zendikar são as mãos erradas."

Houve um guincho estridente vindo de cima. Tarsa estalou os dedos, e seus colegas tomaram posições, seus ganchos de escalada lançados para as bordas das sacadas, prontos para balançar acima do chão. "Anowon!" Tarsa gritou. "Prepare-se para subir."

Ele suspirou enquanto assentia, ajustando os ganchos em suas roupas, fazendo uma nota mental para consertar as cordas depois. "Até lá?"

"Nós a atraímos."

Grakmaw, Devastador do Casulo do Céu | Arte de: Filip Burburan

Nadino tomou aquilo como sinal para uivar na câmara, e Eret seguiu. Grakmaw respondeu berrando para o dia, investindo pelos salões superiores do Casulo do Céu e caindo do teto para dentro da câmara. Conforme caía, o grupo fez seus movimentos — Nadino atingindo sua barriga com espigões afiados de gelo e as bordas de seus próprios ganchos de escalada, Tarsa propelindo-se para cima de suas cordas com cortes em saltos mortais enquanto flanqueava o kor.

Anowon lutava para acompanhar. Nunca fora muito chegado à caça. Só ganhou mais fervor ao finalmente sucumbir à sua sede: aquilo renderia um belo gole de sangue quando morresse, e ele poderia até gostar de bebê-lo mais enquanto vivia. Ele visou sufocar um pescoço com as sobras de sua corda, esperando que a gravidade e o peso fizessem a maior parte do trabalho. Mal se moveu através da carne dele, em vez disso arrastando uma cabeça para baixo para um golpe fácil.

Tarsa aproveitou e rasgou o queixo dela com sua lâmina, circulando-a para terminar o restante da face. Sabia que a ferida resultante só aguentaria por um tempo antes que uma nova fileira de dentes pontiagudos desiguais e olhos penetrantes emergissem dela. Nadino teve o mesmo problema com a cabeça mais distante — uma bola de fogo perdida na garganta abrindo um caminho para mais duas mandíbulas retorcidas emergirem, uma mordendo o espaço a meros centímetros de seu cajado. Jolly, por sua parte, mal conseguia morder as garras traseiras da coisa, mas continuava firme.

Isto já não estava funcionando, concluiu Anowon. Mais qualquer imprudência como esta e seriam carne. Cortou sua corda e rolou para fora da vista da hidra, refugiando-se em sua mochila em busca de algo que reconhecesse.

"É melhor você não nos desertar, seu desgraçado—!" Nadino não conseguia quebrar o foco tempo suficiente para continuar xingando-o. "O que você está fazendo?"

"Procurando respostas!" gritou, olhando as cores dos frascos que guardara. Vermelho profundo, azul em pó, verde escuro exuberante e poções ainda mais coloridas brilhavam através do vidro e da luz, espirrando dentro de seus frascos. Sabia que lera algumas das composições com que os antigos kor tiveram sucesso. Uma destas deveria dar-lhes a vantagem.

Encontrou-a. Um amarelo turvo em um frasco, mal do tamanho de seu dedo, que parecia mudar de estado por conta própria de gás diáfano para pedra de âmbar sólida. Os papéis a descreviam como uma ferramenta potencial de supressão, algo para manter combatentes e bestas selvagens imóveis. Não chegara a ler de que maneira, porém. "Subam mais alto!"

Buscou em sua bolsa outra corda com gancho e mirou na sacada. A hidra logo o notaria, e ele estava em melhor alcance do que o restante para ser moído entre seus dentes. Içou-se o mais rápido que pôde, certificando-se de não quebrar o frasco em seu aperto.

Grakmaw escancarou todas as suas cabeças, cheias de todos os seus dentes, apenas para ele. Atacou a sua corda e só por pouco errou. Um arranhão em seu braço quase fez o vampiro escorregar, e o frasco caiu de sua mão. Murmurou um xingamento, olhos fixos no frasco em queda. Exatamente então, uma pequena lâmina veio dançando à vista, estilhaçando o vidro contra o lábio de uma cabeça de hidra que se aproximava enquanto girava, o metal afiado rasgando sua bochecha. Anowon virou-se bem a tempo de ver Nadino recolher a mão.

Conforme o frasco quebrava, a poção explodiu em uma nuvem de poeira na cara da hidra, espalhando-se lentamente pelo pescoço dela como uma nuvem rolando sobre uma colina. Tudo o que tocava tornava-se cinza e denteado, como se fervesse sua pele e a petrificasse de uma só vez, selando a adaga na lateral de sua cabeça. Em questão de segundos, todas as cabeças da besta eram pedra afiada e pontiaguda, apontando para cima em direção ao grupo com suas muitas bocas abertas. O corpo por baixo correu, como se esperasse escapar do destino em que agora estava preso, antes que o peso das cabeças o fizesse tombar para baixo, cada uma quebrando de sua forma com um eco que ressoou pelo teto aberto.

O som sozinho derrubou Anowon de volta ao chão. Debateu-se para ficar ereto, para afastar-se do conteúdo do frasco, mas a magia terminara seu trabalho. Tudo o que restava para feri-lo começou a se espalhar por um único dedo indicador conforme ele permanecia de pé, temeroso, sem respirar. E então parou, logo antes da articulação, e ele caiu de joelhos, exausto e aliviado.

Nadino gritou de suas cordas, sorrindo. "O que aconteceu com morrer cuidadosamente, seu vampiro desgraçado?!"

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As cabeças nunca amoleceriam.

"Mesmo trato de antes, então", Tarsa admoestou, preparando-se para amarrá-las à mochila de Anowon.

O vampiro suspirou, imóvel. "Eu entendo."

Exatamente então, Eret o cutucou com o cotovelo. "Claro que não. Dividimos o peso. Afinal, agora é o nosso caminho mais rápido para baixo."

Ele e Nadino prenderam suas cordas na boca do Casulo do Céu, deslizando por todo o caminho com o impulso de uma hidra morta de pedra em suas costas.

No caminho de volta à praia, Tarsa colocou a mão no ombro do vampiro. "Você suportou muito de nós sem reclamar. Fomos vis com você. E você ainda nos salvou." Gesticulou para a pequena pilha envolta em pano na mochila de Nadino, os restos do seu perdido Orien, enquanto acrescentava: "Você nos deixou vingar o nosso parceiro, e prestar respeitos." Sorriu calorosamente. "Obrigado. Você está livre para ser o nosso quarto gancho sempre que desejar."

Anowon assentiu, sorrindo presunçosamente para si mesmo. Apenas começara a notar que esse sentimento era o que ele ansiara o tempo todo. Não glória, não prestígio, mas~pertencimento. Saber que seu conhecimento tinha valor. Esperava que este sentimento perdurasse, que pudesse desvendar mais do passado ancestral de Zendikar e compartilhar esse conhecimento apenas por mais desse sentimento.

Enquanto isso, atrás dele enquanto caminhavam, Nadino continha um riso, coçando o topo da cabeça de Jolly enquanto este envolvia suas mandíbulas famintas e babonas ao redor de uma pilha solta de pergaminhos na mochila de Anowon. Exatamente quando percebeu, ele parou para ponderar se poderia possivelmente perder tanto quanto já ganhara.

Quando a resposta lhe veio, ele sorriu e virou-se para coçar sob o queixo do gnarlid.

30/09/2020 | Por A. T. Greenblatt

Episódio 5: As Duas Guardiãs

Conforme Nissa se preparava para lutar contra as pessoas que um dia considerara aliadas, ela se perguntava se cometera um erro grave ao algum dia deixar Zendikar.

Jace e Nahiri estavam diante dela, arquejantes pela corrida através da Cidade Cantante. Atrás dela estavam os elementais da floresta de Kazandu. Dezenas e dezenas deles.

Se Nissa nunca tivesse se tornado uma planeswalker, seu peito não estaria se contraindo agora com a dor e a culpa de erros passados e amizades perdidas. Ela não estaria de luto pela morte de Gideon. Ou pela perda do amor de Chandra.

"Como~como você está viajando~tão rápido?" Nahiri disse. Estava cortada e machucada, e a raiva em seu rosto era pura e brutalmente clara.

Em seu quadril estava a bolsa com o Núcleo Litoforme. Pulsava silenciosamente através do tecido.

Nissa cerrou os punhos.

Por outro lado, se ela nunca tivesse deixado Zendikar, se nunca tivesse tentado e falhado e tentado novamente, não estaria parada aqui em frente à Cidade Cantante, defendendo seu lar quando ninguém mais o faria.

"Zendikar é onde eu pertenço. É o coração do meu poder e força", Nissa disse. "Conheço todos os caminhos e como usá-los. Mas vocês dois"—ela pensou no elemental de samambaia que Nahiri assassinara descuidadamente no Casulo do Céu de Akoum, e sentiu o exército de elementais de Kazandu atrás dela inchar com sua raiva—"vocês nunca entenderão. Saiam da minha casa."

Jace tentou argumentar com ela, mas Nissa o ignorou. Foi em Nahiri que ela focou conforme a litomante gritava: "Esta é a minha casa, moradora de árvores!"

O exército elemental instintivamente retesou-se e aproximou-se de Nissa, pronto para defendê-la com suas vidas.

Por um momento, Nissa foi dominada pela gratidão em relação a estas personificações de Zendikar. Que a encontraram em seu exílio. Que a acolheram quando ela estava sozinha.

Jace ficou imóvel. Ergueu uma proteção mágica.

Elementais, estes fragmentos do coração e da alma de Zendikar, que estavam ao lado dela, apesar de seus erros e do dano que ela causara acidentalmente.

Nahiri levantou as mãos, e as pedras da Cidade Cantante começaram a tremer.

Elementais, que a ensinaram o que significava ser parte de uma família, o que uma família deveria ser. Que vinham em sua ajuda agora, sem que ela pedisse. Dela e não de Nahiri.

O que o Gideon faria? Nissa pensou.

Ele te diria que é hora de fazer escolhas por si mesma.

"Defendam Zendikar", ela disse aos elementais, em uma voz mais baixa que um sussurro. Mas eles ouviram. Eles entenderam.

E como uma onda quebrando em uma praia, eles o fizeram.

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Nahiri sempre acreditou no poder da pedra, na força dela, que a pedra sobreviveria a tudo no fim. Mas pela primeira vez em séculos, conforme dezenas e dezenas de elementais enxameavam ao seu redor, ela começou a duvidar do poder de sua litomancia.

Como Nissa, os elementais moviam-se com velocidade impossível.

Nahiri ergueu uma coluna de pedra uma fração de segundo antes de um elemental massivo em forma de pisoteador colidir contra ela. Ele rugiu e, com um golpe de sua pata frondosa, esmagou o pilar. Rosnou para ela, e Nahiri gritou de volta. Varreu os braços, convocou as pedras, exatamente quando a coisa de folhas deu o bote. Foi derrubada por um punho de granito disparando do chão.

Nahiri sorriu.

Mas seu sorriso desapareceu quando viu Nissa. A elfa flutuava no ar sobre uma massa de vinhas, braços estendidos, com fitas de energia verde rodopiando ao seu redor. E atrás dela~

Atrás dela estava um elemental como nenhum outro. Era massivo, em forma de águia mas com um corpo feito de raízes jaddi, torcendo-se e rodopiando. Avistou Nahiri e, rápida como a fúria, avançou contra ela, bico aberto e talões estendidos.

Nahiri convocou as pedras para defendê-la, mas os talões da criatura afundaram em seus ombros. Nahiri gritou, tanto de surpresa quanto de dor. Ela bateu as asas — uma, duas vezes — e começou a içá-la para longe.

Nem pensar, Nahiri pensou, e estalou os pulsos para frente. Em instantes, trinta espadas brilhantes afundaram-se na águia jaddi. Ela gritou e a soltou. Nahiri rolou para fora do caminho e ficou de pé, apenas para dar de cara com um elemental gigante feito de água, completo com algas e peixes nadando em seu interior.

"Você não pode estar falando sério", Nahiri siseou e saltou para fora do caminho enquanto ele visava um chute aquoso em sua cabeça.

E continuou e continuou.

Nahiri captava fragmentos de Jace xingando e lançando ilusões de incêndios e proles Eldrazi, os elementais recuando instintivamente da miragem. Ela estava impressionada. Ele estava usando os medos de Zendikar tanto como arma quanto como escudo. Seus truques compravam-lhe tempo suficiente para esquivar-se da barragem de bicos e bocarra, talões e espinhos.

Mas Nahiri sabia que mal estavam conseguindo conter o assalto implacável.

Como a moradora de árvores está conseguindo fazer tudo isso? ela pensou.

E por um momento terrível, Nahiri se perguntou se Nissa estava certa. Se os elementais eram personificações do próprio plano, então Zendikar dera à elfa um exército com o qual lutar. Enquanto Nahiri lutava com nada.

Não, nada não. Ela tinha força e determinação. Tinha dominado a pedra. Sobrevivera por milênios. Era a guardiã da Zendikar real e ancestral. Era a protetora do leito rochoso e dos fundamentos deste mundo.

E ela pararia esta loucura.

Com um movimento fluido, Nahiri empurrou um elemental feito de chuva e folhas cor de outono para longe com uma mão de pedra. Aprumou os ombros, alargou a postura e alinhou seu tiro.

Nahiri uniu as mãos com um aplauso.

E enviou cinquenta espadas brilhantes voando direto contra a elfa.

Os olhos de Nissa arregalaram-se em surpresa, mas antes que as lâminas pudessem atingir, a águia gigante de raízes jaddi apareceu novamente — de onde, Nahiri não sabia dizer — e varreu todas as cinquenta armas com um golpe de sua asa.

Droga, Nahiri pensou, convocando as pedras novamente. Tentou lançar pedregulhos contra Nissa, fazer o chão ao redor da elfa prendê-la, enviar mais espadas. Mas os elementais de Nissa defendiam-na ferozmente, como se fossem mais do que apenas ferramentas sem mente. Como se soubessem que estavam lutando por suas vidas.

Como alguém pode viver uma vida boa se o seu mundo está quebrado e falhando? Nahiri pensou com uma carranca. Atacou novamente. E de novo. E de novo.

Quando um grifo gigante feito dos hedros quebrados e do musgo da Cidade Cantante engoliu uma dúzia de lanças de pedra e pareceu sorrir para ela, Nahiri percebeu que teria que tentar uma tática diferente.

Ela correu.

Desviando e bloqueando e tecendo, Nahiri disparou ao redor das patas que avançavam, dentes que rangiam e espinhos que golpeavam dos elementais. Não parou até alcançar os imensos portões de mármore da Cidade Cantante e passar por eles.

Tinha que proteger o Núcleo. As pedras nesta cidade ancestral a ajudariam a fazer exatamente isso.

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Jace nunca vira antes tantos elementais em tantas formas diferentes. Se não estivessem atacando-o, ele estaria fascinado.

Mas estavam atacando-o, e exigia toda a sua habilidade e astúcia para evadir seus golpes e não danificá-los em retorno. Sabia que se esperava reconquistar Nissa como amiga e aliada, não poderia danificar Zendikar.

Tinha que pegar o Núcleo Litoforme. Tinha que encontrar uma maneira de mediar a paz entre as duas guardiãs de Zendikar.

Pelo canto do olho, viu Nahiri disparar para dentro da Cidade Cantante. Sabia que o que quer que a litomante estivesse planejando não ajudaria em nenhuma conversa de paz potencial.

Varrendo ambas as mãos para cima, Jace ergueu uma ilusão: uma nuvem de névoa, mais espessa que a natural, espessa o suficiente para nela desaparecer, confundindo o elemental de hera e líquen que assomava à sua frente. Comprando para si algum tempo.

Sob esta cobertura, Jace correu.

Escorregou para dentro da Cidade Cantante momentos antes de um rugido de destruição ensurdecedor ecoar atrás dele. Virou-se para ver uma imensa parede de pedra esmagar os portões de mármore da cidade, bloqueando a saída.

Deixando Jace preso lá dentro, onde sua melodia sinistra começou a zumbir novamente.

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Nahiri ouvia os elementais batendo contra as paredes da Cidade Cantante, chocando seus punhos de lama e asas de musgo inutilmente contra as pedras. O som a agradava.

Nissa não poderia destruir sua fortaleza improvisada, não enquanto Nahiri estivesse dentro dela, usando sua litomancia para mantê-la unida.

Ainda assim, o pensamento de todas aquelas monstruosidades da natureza a atacando fazia sua pele arrepiar de pavor. Estar cercada por paredes e pela melodia assombrada de vozes invisíveis fazia seu estômago revirar. Lembrava-a demais de estar presa no Elmo Infernal novamente.

Levantou os braços, invocando o leito rochoso e o arenito. E como uma dança, fê-los subir, tecerem-se juntos, tornarem-se mais fortes, mais duros que as paredes originais da Cidade Cantante, construindo para si um forte maciço e indestrutível acima das ruínas.

Seu corpo doía com o esforço, mas ela se recusava a deixar aquela elfa tola pôr as mãos no Núcleo. Não quando estava tão perto de curar Zendikar, de devolvê-la ao mundo estável e plano que ela conhecera um dia.

Dentro de sua fortaleza, o batido dos elementais tornou-se abafado e a canção da Cidade tornou-se uma melodia fraca. Nahiri exalou. Finalmente tinha um momento sozinha.

"Nahiri."

Droga. Ela soube quem era antes mesmo de se virar. Reconheceu o padrão dos passos de Jace nas pedras. Mas não os notara até agora.

Virou-se para ver Jace movendo-se em sua direção.

"Se você tentar pegar o Núcleo", Nahiri disse, com calma mortal, "eu te adiciono à minha coleção de penduricalhos de parede."

Aquilo o fez parar.

"Não quero lutar com você", disse ele, erguendo as mãos em um gesto conciliador. "Mas~por favor, vamos para Ravnica. Acho que a Nissa nos ouvirá lá."

"Oh, ela ouvirá", Nahiri respondeu, a raiva subindo nela. "Ouvirá e ouvirá, e quando chegar a hora de escolher, escolherá deixar este mundo permanecer fraturado e arruinado." Cerrou os punhos e começou a desconstruir o teto de sua fortaleza, dando-lhe acesso ao céu aberto.

Voltando o olhar para cima, convocou os hedros que fizera há uma era. Convocou cada um deles que estava abandonado ao redor da Cidade Cantante. Eram dezenas. "Não, Jace. O Núcleo não funcionará em outro plano. Ele fica aqui."

"Não quero lutar com você", disse ele novamente, e não havia agressão em sua voz. Mas ela ouviu o que ele não estava dizendo. A metade silenciosa daquela afirmação: Mas lutarei.

"Por favor", disse ele.

Mas Nahiri cansara. Cansara destes planeswalkers fracos que não conseguiam ver o que estava claramente à frente deles. Suas mãos tremiam de emoção, e ela usou aquela energia para puxar os hedros para baixo do céu e fazê-los pairar acima de Jace.

"Nahiri", disse Jace, com alarme. Os hedros fecharam o cerco ao redor dele e começaram a girar, confinando-o em seu círculo. "Escute, por favor!"

Nahiri cansara de escutar. Elevou-se no ar, sua fúria e mágoa alimentando-a. Com um rodopio dos dedos, energia azul envolveu suas mãos e ela a enviou através dos hedros, prendendo Jace dentro do anel perigoso. Então, comandou o anel a se fechar.

Queria que o seu rosto fosse a última coisa que ele visse.

Houve um movimento pelo canto de seu olho. Ela conhecia sua forma, sua postura, seu perigo frio e silencioso.

Nahiri virou-se e deu de cara com seu antigo mentor. Seu inimigo jurado. Sorin.

Estava parado na muralha da fortaleza, a uns quatro metros dela, ao nível dos olhos. Sua longa jaqueta preta flutuava atrás dele. Ele estava sorrindo.

"O que você está fazendo aqui?" disse Nahiri entre dentes cerrados.

Sorin não respondeu. Apenas ergueu uma mão daquela maneira perigosa que ela conhecia tão bem. O movimento sutil que prenunciava um ataque terrível.

Não, você também não. Nahiri mostrou os dentes e gritou. Enviou um pé de pedra gigante disparando do chão direto contra o peito do vampiro.

Sorin desapareceu na investida das pedras, e Nahiri exalou. Então, um instante depois, ele reapareceu, ainda sorrindo. Como se nada tivesse acontecido.

Nahiri piscou, confusa. Alcançou as pedras sob os pés de Sorin e descobriu que não estavam suportando o peso do vampiro.

Isto é uma ilusão, percebeu ela. Este é o Jace.

Mas a percepção veio um momento tarde demais. Uma névoa inundou tudo ao seu redor, espessa demais para se ver através dela. Ouviu seus hedros caírem no chão.

Subitamente, seus pensamentos não eram seus.

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Funcionou! Jace pensou conforme os hedros atingiam o solo ao redor. Sentia a mente de Nahiri lutar contra o seu controle. Odiava que tivesse chegado a este ponto, mas suas escolhas eram limitadas.

O zumbido misterioso da Cidade Cantante começou a aumentar de volume.

Melhor apressar. Não tinha certeza se conseguiria manter a mente de Nahiri e um feitiço de silenciamento simultaneamente.

Nahiri flutuou até o chão, e ele comandou-a a ficar imóvel. Cautelosamente, aproximou-se.

Alcançou a bolsa no quadril dela.

Pegou o Núcleo Litoforme.

Brilhava como um farol em sua mão, pulsando gentilmente com a promessa de poder.

A canção assombrada da Cidade inchou em volume, e Jace viu-se preenchido por um anseio súbito e inexplicável.

Viu a si mesmo empunhando a energia do Núcleo, resolvendo problemas sem precisar debater ou lutar com outros. Sem precisar se lançar ou lançar seus amigos no perigo.

Com o Núcleo, com um pensamento, poderia facilmente mudar o mundo. Todos os mundos.

Não, esse não sou eu. Jace afastou a tentação.

Gemeu conforme a mente de Nahiri debatia-se contra o seu controle com força renovada. Havia raiva em sua expressão, em cada linha de seu corpo paralisado conforme lutava contra ele. Seu controle sobre ela quase escorregou, mas Jace o recuperou no último momento.

"Deixe-me sair desta fortaleza. Baixe a parede ao redor da entrada", comandou ele.

A mente de Nahiri relutou diante da ordem, mas ele ouviu o som de pedra tombando à distância, o ataque dos elementais tornando-se mais alto.

Jace encolheu-se. Deveriam estar tentando encontrar uma solução para Zendikar juntos, não lutando uns contra os outros.

Poderia levar o Núcleo para Ravnica agora mesmo. Deveria. Nahiri afirmara que o Núcleo só funcionava neste plano, mas ele queria testar essa teoria, em segurança longe deste mundo já danificado.

Também sabia que se desaparecesse com o Núcleo sem contar a Nissa, perderia a confiança dela para sempre. Ele tanto queria a amizade dela quanto precisava dela nas batalhas por vir.

Jace envolveu o Núcleo em seu manto e disparou para fora da Cidade Cantante, correndo tão rápido quanto seu corpo exausto conseguia. A canção assombrada estava ficando mais alta agora, infiltrando-se em seus ossos. Jace correu mais rápido, mais rápido do que percebera ser capaz. Precisava chegar à entrada antes que Nahiri se recuperasse e a selasse novamente. Precisava alcançar Nissa.

Cruzou os portões de mármore arruinados um instante antes de seu controle na mente de Nahiri escorregar e paredes de pedra se chocarem contra a cidade ancestral.

Seguro no outro lado, pensou ele com certa satisfação.

Não viu o membro gigante de raízes e brotos verdes até ele estar em cima dele. Até o elemental prendê-lo com uma de quatro mãos massivas e inclinar-se sobre ele, bloqueando a luz do sol. Jace arquejou, reconhecendo Ashaya.

"Preciso falar com a Nissa", ele gritou. Mas Ashaya apenas aumentou a pressão em seu esterno.

Cerrando o punho, Jace criou uma ilusão de fogo ao redor deles, selvagem e consumidora, esperando criar uma distração suficiente para escapar.

Mas Ashaya não foi enganada.

O elemental calmamente alcançou o manto de Jace e retirou o Núcleo Litoforme.

"Espere", Jace gemeu. Mas o elemental não esperou.

Examinou o artefato por um momento antes de lançar o Núcleo por cima do ombro.

E para dentro das mãos à espera de Nissa.

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Ela deveria destruí-lo.

Aquele foi o pensamento inicial de Nissa ao segurar o Núcleo Litoforme em suas mãos pela primeira vez.

Ouça-me.

O pensamento não era dela, embora a voz soasse familiar. Olhou para onde Jace lutava sob o aperto de Ashaya. Sua expressão era de súplica.

Tentativamente, permitiu que Jace entrasse em seus pensamentos.

Nissa, por favor, precisamos parar com isso , Jace pensou. Mande os elementais recuarem.

Se pararmos, Jace, Nahiri usará a trégua como uma oportunidade para nos sobrepujar. Você viu quão implacável ela é.

Houve um estrondo alto conforme as grossas paredes ao redor da cidade começaram a se reorganizar. Nahiri apareceu no topo do caos de pedra. Os elementais inundaram tudo ao redor dela imediatamente.

Por favor , Jace pensou. Vamos para Ravnica. Podemos estudar o Núcleo lá juntos.

O que te faz pensar que não vamos aniquilar Ravnica acidentalmente? Nissa respondeu. Vi o dano que o Núcleo pode causar. Deveríamos destruí-lo.

Nahiri disse que não funcionará fora de Zendikar. Será seguro testá-lo lá.

À distância, Nahiri começou a prender elementais em prisões de pedra, seus movimentos focados, precisos e furiosos. Nissa perdeu o fôlego conforme quatro paredes impenetráveis subiram ao redor de um elemental do rio.

Nahiri não é conhecida pela sua honestidade, Jace.

Rangendo os dentes, Nissa lançou as mãos e enviou uma onda de energia verde direto contra Nahiri.

Ouça-me.

Nahiri gritou um grito de guerra e desviou a energia de Nissa com uma imensa parede de leito rochoso.

As Sentinelas. Podemos usar isto , pensou Jace enquanto lutava contra as raízes de Ashaya. Há algo que você não sabe. Eu . . . nós temos outras batalhas a enfrentar, Nissa.

As Sentinelas falharam. Deveríamos proteger as coisas que amamos. Não conseguimos nem proteger uns aos outros. O coração de Nissa doeu com a memória do rosto sorridente de Gideon, daqueles momentos ternos e esperançosos com Chandra. Como, ao menos por um tempinho, entre os outros planeswalkers, Nissa sentiu que pertencia a algum lugar. Vocês eram como uma família para mim.

A trinta metros de distância, Nahiri abriu caminho para frente, aproximando-se de onde Nissa estava, enquanto elemental após elemental caía vítima dos ataques implacáveis da kor.

Não, não, não. Nissa não podia perder esta luta. O Núcleo em suas mãos ficou mais quente.

Ouça-me.

"Estou te ouvindo, Jace", ela gritou. "Você não está me ouvindo!"

Não ele. Eu.

O Núcleo estava piscando urgentemente em sua mão. Nissa percebeu por que a voz soava tão familiar. Havia algo em sua cadência, como se a pulsação, as vibrações e a respiração de Zendikar que ela conhecia tão bem, tivessem encontrado suas palavras.

Quem é você? ela perguntou.

Sou eu. Sou você.

A quinze metros de distância, Nahiri esmagou um pé de pedra contra um elemental da terra, pegando-o de surpresa. Ele desabou de joelhos.

Nissa disparou um emaranhado de vinhas contra os tornozelos de Nahiri. Por que você só está falando agora? disse ela ao Núcleo.

Nahiri desviou das vinhas com um giro elegante e salto, pousando perfeitamente de pé.

Houve um pequeno estrondo no ritmo da terra, em seu ar. Nissa percebeu que Zendikar estava rindo. O risinho vindo do Núcleo combinava com a pulsação da terra.

Como? ela perguntou. Aquilo era impossível. Confuso. Nissa não tinha tempo para um novo mistério agora. Nahiri estava perto e aproximando-se.

Mas se aquilo era Zendikar, realmente Zendikar~

Nissa, por favor! Deixe-me levar o Núcleo! Jace pensou. Nissa o ignorou.

O objeto em sua mão é um pedaço muito antigo de mim. Está cheio de poder , o voz do Núcleo respondeu.

Nissa franziu a testa, mirou um novo ataque contra Nahiri. Por quê? Por que os antigos kor criariam isto?

Para desfazer danos.

A nove metros de distância, Nahiri afastou o segundo ataque de vinhas com uma cerca de arenito. Avançou decididamente, parando seu avanço a seis metros de distância de Nissa.

"Dê-me o Núcleo, Nissa!" ela gritou.

Você vai me ajudar, Jace? Nissa pensou. Jace assentiu uma vez, mas mesmo à distância, ela percebia que ele estava planejando algo.

Um momento depois, sentiu gavinhas de poder deslizarem para dentro de sua cabeça. Nissa percebeu em um instante horrorizado que Jace estava tentando tomar o controle de sua mente.

Ela rompeu o elo mental entre eles e silenciosamente pediu a Ashaya para garantir que Jace não pudesse se mover. O elemental obedeceu, amontoando todos os quatro membros sobre o mago. Jace gemeu.

"Eu conheci este plano quando ele estava inteiro", Nahiri gritou, "e você quer se agarrar aos pedaços quebrados dele!"

Nissa estudou sua adversária, sem saber o que dizer. Nahiri estava empoeirada e sangrando, mas sua raiva e determinação eram indomáveis. Naquele momento, Nissa percebeu o quão sozinha estava.

O que o Gideon faria? ela pensou, então se corrigiu. Não, o que eu faria?

Confie na sua força , sussurrou o poder em suas mãos.

"Quebrado não significa fraco, Nahiri", respondeu Nissa. "Quebrado não significa que não haja beleza ou redenção."

"Diz a planeswalker quebrada", retrucou Nahiri, "que destrói tudo o que toca."

Nissa apertou o seu aperto ao redor do Núcleo. As palavras arderam~mas não tão mal quanto teriam ardido um dia. Porque atrás da expressão cruel de Nahiri, Nissa via medo.

E naquele momento, Nissa soube exatamente o que faria.

Protegerei o meu lar, minha família. Tentarei e tentarei novamente até acertar.

"Quebrado não significa que uma vida não valha a pena ser vivida", Nissa disse, empertigando-se, encarando a litomante diretamente. "Você é o que Zendikar foi um dia, Nahiri. Eu sou o que ela é agora."

A dúvida lampejou no rosto de Nahiri. Desvaneceu rapidamente e Nahiri rosnou, levantando as mãos.

Dezenas e dezenas de hedros apareceram, pairando no ar atrás dela. Começaram a se retorcer e fluir em um padrão complexo, a energia estalando entre eles.

Cada elemental no campo de batalha encolheu-se e recuou. Nissa entendeu naquele momento que Nahiri destruiria a todos antes de admitir que estava errada. Ela abafaria a essência do espírito de Zendikar apenas para domá-la. Se Nahiri recebesse permissão para fazer o que quer que estivesse planejando, Nissa estaria de luto pela perda de mais um pedaço da alma surrada de Zendikar.

Em sua mão, o Núcleo brilhava como um farol.

Os hedros giravam ao redor de Nahiri cada vez mais rápido, reunindo poder. Como uma tempestade prestes a estourar.

E se eu destruir , Nissa pensou, como a Nahiri?

Confie na sua força , seu lar sussurrou.

Nissa fechou os olhos, respirou fundo e imaginou uma Zendikar melhor. Uma não definida e sofrendo pelas feridas dos Eldrazi. Uma não supurando pelo veneno que deixaram para trás. Um mundo mais saudável, mas ainda fragmentado e perigoso e belo.

O Núcleo aqueceu e zumbiu em suas palmas. Sentiu as linhas de força de Zendikar estendidas diante dela. E facilmente, tão facilmente, a magia de Nissa fundiu-se ao poder do Núcleo.

Ela o libertou.

Houve um clarão. Houve um rugido surdo. Uma lufada de vento atingiu Nissa, tirando o fôlego de seu corpo, cheirando a cinzas e chuva. A terra e riachos. A magia, ancestral e terrível.

O poder do Núcleo colidiu com os hedros em uma chuva de faíscas e energia. O rugido surdo tornou-se um berrante gritante. A luz tornou-se ofuscante. O ar fugiu.

Então não houve nada de todo.

Nissa abriu os olhos lentamente, aterrorizada pelo silêncio, pelo vazio repentino que sentia ao seu redor. Até o Núcleo ficara silencioso e sem brilho em suas mãos.

O que ela viu fez seu fôlego travar na garganta, e o pânico subiu em seu peito.

A Cidade Cantante sumira. Reduzida a pó. O mesmo ocorrera com uma grande faixa da floresta. Tudo reduzido a cinzas.

Pelo campo de batalha, os elementais jaziam imóveis nas cinzas.

"Não", sussurrou ela e correu para o mais próximo. Uma personificação de árvore jaddi grande, com delicadas flores amarelas entrelaçando-se em seus membros. Caiu de joelhos ao lado dele, colocando uma mão em sua pele de casca áspera. "Não." Não de novo.

Não de novo.

O elemental agitou-se sob a mão dela.

Abriu os olhos, piscando sonolento, e ficou de pé, no início um pouco instável, mas com mais força e confiança a cada segundo que passava. Pegou a mão dela, deu um aperto, e Nissa sentiu-o crescendo. Ficando mais alto. Mais forte.

Lágrimas picaram os cantos dos olhos de Nissa conforme por todo o campo de batalha elementais erguiam-se, limpando as cinzas de si mesmos, tornando-se mais cheios, mais vibrantes. Sentiu-se deixando o Núcleo cair, ouviu-o atingir o solo cinzento. Mas não importava. O artefato ancestral silenciara. Sua luz apagara.

Cumprira seu propósito, Nissa percebeu, sorrindo. Desfizerra danos. Fechou os olhos e escutou.

Ouviu Nahiri levantar-se dolorosamente do chão. A quatro metros dela, Jace fazia o mesmo. Mais longe, raízes jaddi verdes e tenras brotavam na floresta arruinada. Mais longe ainda, terra rica e intocada suplantava as terras desoladas doentias que restaram da batalha com Emrakul. E mais longe ainda, Bala Ged florescia novamente, crescendo, a floresta voltando a velocidades que apenas a magia poderia realizar.

Zendikar estava se curando, tornando-se algo mais saudável, mais forte do que fora antes da batalha com os Eldrazi. Embora as cicatrizes ainda estivessem lá, eram memórias agora, não suas características definidoras.

Pela primeira vez em muito tempo, Nissa soltou uma risada genuína, e ouviu Zendikar rindo com ela.

Confie na minha força , pensou ela.

Nissa convocou suas vinhas e sorriu conforme elas cresciam e rodopiavam sob ela, içando-a no ar. Virou-se para o leste e, movendo-se rápida como o vento, seguiu as linhas de força da terra, voando pela floresta, em direção a Bala Ged, viajando como apenas ela sabia. Disparando para frente, adiante, tudo enquanto Zendikar zumbia alegremente em seus ouvidos.

Nissa estava finalmente em casa.

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Jace pegou o Núcleo inerte e observou Nissa desaparecer. Considerou chamá-la mas percebeu que era inútil. Erros foram cometidos aqui hoje e mais do que alguns foram dele. Agora, entendia como Nissa se sentia após a guerra em Ravnica.

Ao seu redor, elementais mantinham-se altos e saudáveis, inchando com vigor. Mas um por um, derretiam-se de volta para a terra, ou desapareciam nas árvores jaddi.

Algo roçou sua bota. Sobressaltado, Jace recuou, olhou para baixo.

Nas cinzas e destroços ao seu redor, vinhas e brotos jovens surgiam da destruição. Prosperando e crescendo em um ritmo notável.

Como um desabrochar de vida após o Turbilhão , pensou ele. Lera sobre desabrochares de vida mas nunca vira um.

"O poder acabou?" Nahiri perguntou, aproximando-se ao lado dele, chutando uma vinha.

Jace levou um momento para perceber que ela estava falando do Núcleo sem luz em suas mãos. "Não sei."

"Não era dela para usar", Nahiri disse com desgosto.

"Acho que ela era precisamente a pessoa que deveria ter usado este poder", Jace respondeu.

Nahiri fechou a cara.

"Precisamos pedir desculpas à Nissa", disse ele. "Estávamos errados."

Nahiri fuzilou-o com o olhar. "Você acha que pode consertar isto?" disparou ela. "Com um pedido de desculpas? Você fez inimigos novamente hoje, Jace. Mas essa é a sua natureza, não é? Sempre que tenta fazer o bem, só torna as coisas piores."

Jace não respondeu. Não tentou argumentar conforme a antiga kor virou-se e transplanou para longe. Estava começando a perceber que algumas batalhas não valiam a pena lutar.

Mas algumas valiam.

Nissa , pensou ele. Sinto muito mesmo. Eu deveria ter ouvido melhor.

Causara tanto dano aqui, tanto à sua amiga quanto ao lar que ela amava. E sabia que a terrível culpa que sentia neste momento não diminuiria com o tempo.

Então, conforme Jace permanecia nas cinzas de Zendikar com o Núcleo morto em suas mãos, com vida nova agarrando-se e envolvendo seus brotos tenros em suas botas, esperava que o que Nissa dissera fosse verdade.

Que coisas quebradas pudessem ser redimidas.